HISTORIAS QUE MEU PAI CONTOU
Meu
pai era um andarilho. Vivia visitando as casas pobres e ricas, de
fazendeiros e lavradores, era o seu serviço como Guarda da
Peste do Ministério da Saúde. Entrou para o serviço
público em 1944, trabalhando pesado mais nunca demonstrando
insatisfação no dia-a-dia, dizia-se satisfeito, pois
tinha garantia de um futuro melhor. Era lavrador. Cuidava da roça
no sitio Terra Preta, em Bom Conselho. Era semi-analfabeto, tinha
somente o curso primário, com uma leitura caseira e um pouco
da tabuada. Aprimorou mais seus conhecimentos quando assumiu o trabalho.
Casou-se em 1939 com a filha mais nova do casal Manoel Dionísio
Vieira Bello (Mestre Véu) e Ana da Silveira Bello, Nedi, de
uma prole de oito irmãos Francisco, Expedito, Maria, Conceição,
Fernando, Carlinda, Inácia, Vieira Bello, vindo residir na
nossa querida Rua do Caborje, 120 em Bom Conselho.
Gostava de contar suas aventuras do seu trabalho cansativo após
o café da noite sentado na sala de visita, antes de se recolher
ao leito. Não tinha luz elétrica e, sim dois candeeiros
com pavios cumpridos acessos que davam para iluminar o recinto, quem
desejasse ir para cozinha ou mesmo para o quarto tinham que levar
um daquele objeto que iluminava o caminho. Sempre foi um homem respeitador,
discreto, e amável com as pessoas mesmo aquelas ignorantes
que muitas das vezes relutavam em não o deixar cumprir sua
tarefa, ou seja, de entrar em suas casas e “tapar buracos de
rato” com barro depois da aplicação do Seno gás,
expelido por uma maquina através de uma mangueira existente
na casa, ou mesmo, não deixar dedetizar o seu ambiente com
DDT.
Numa certa noite, entre tantas outras, com a família reunida,
contou-nos as aventuras no trabalho e que achava engraçadas
e muito perigosas, precisava de tino e paciência para contornar
a situação do momento:
“Certa vez visitando o povoado de Barra do Brejo, onde era a
sede para o repouso a noite, quando voltasse do trabalho pelas fazendas
e sítios, aconteceu que no sitio Queimadas, neste dia de visita
uma família quase o matava. Chegando ao sitio apeou da sua
montaria, por volta das onze meia da manhã, abrindo a cancela
fui surpreendido pelo vira lata da família que vinha em minha
direção. Espantou o cachorro com um chicote e dirigiu-se
para pequena casa de taipa, e gritou “Ó de casa! Ó
de casa! Batendo palma. Apareceu uma senhora de mais ou menos seus
trinta e cinco anos, despenteada, com um surrado avental na barriga
e um pequeno menino escachado no seu quadril, outros três agarrados
a sua saia e chupando o dedo, desconfiados. Madame sou guarda da peste
e estamos trabalhando pela erradicação de ratos, barbeiros
e outros insetos prejudiciais a saúde. Posso entrar? Não,
respondeu à senhora. O senhor me maltratou querendo me desmoralizar
me chamando de MADAME, pois madame é a sua mãe!O Migué
vai correndo chamar teu pai, menino. Diz a ele que tem um homem aqui
querendo entrar em casa e eu disse que não. O menino de uns
dez anos embreou-se pelo roçado em desabalada carreira, pulando
uma cerca de arame farpado que estava baixa. Fiquei, estatelado com
aquela insinuação e reação daquela pobre
mulher. Fiquei de pé naquele sol quente do meio dia, enquanto
a mulher não arredou o pé da porta com o menino escanchado
no lado do seu quadril. Dentro de pouco tempo lá vem o homem
com uma enxada e uma foice roceira na mão. Vinha suado, com
o chapéu de palha na cabeça, enxugando o suor com a
manga da camisa suja pela terra. Um par de alpercatas com algumas
tiras cortadas protegia os pés dos espinhos e do calor da terra.
Aproximou-se com o seu filho; E disse; o quê o senhor quer aqui?
Aqui é casa de família, viu? Não se pode querer
entrar em uma casa sem permissão do dono? É falta de
respeito. E o que me diz? A mulher em pé, apontou-me com o
dedo riste, esse homem me chamou de MADAME, viu só? Tá
me comparando com mulher da Rua do Alto da Cadeia, onde só
tem “rapariga”. O homem olhou novamente para mim, e disse
se explique: Calmamente e com prudência falei: Olhe seu Moço,
como é o seu nome? O meu nome é Hilário, por
quê? Por nada! O nome de Madame é um nome respeitador
que se dá a toda mulher em consideração e respeito
e nunca tentando maltratá-la. O homem olhou para a mulher com
desconfiança, pois, ele mesmo não sabia o que significava
Madame. Conheceu uma “rapariga” que a chamava de “Madame
Zefinha”.
Aos poucos foram se acalmando e eu fui para debaixo de um umbuzeiro
fazer uma merenda sentada em um tronco. O homem vendo aquela situação
chamou-o para sua mesa onde encontrou fava cozinhada, cuscuz e macaxeira
e carne guisada e de galinha pedrês. Foi aquele almoço,
bebendo água de um pote encostado na parede. Fiz o meu trabalho
a tarde, tapando os buracos de ratos, que eram muitos nos três
cômodos da casa, dedetizando em seguida recomendando que só
varra a casa no dia seguinte. Sai cumprimentando o Seu Hilário,
o qual pediu desculpas pelo acontecido. A mulher ria, pois, dei algumas
moedas aqueles garotos para comprar confeito na venda de seu Armando.
Na noite seguinte contou o seguinte:
“Estava almoçando numa Bodega em Caldeirões do
Guedes, quando entrou um homem espavorido, com um “cipó
de boi” na mão, suado e todo vermelho e os olhos esbugalhados
metendo medo em quem se atravessasse na sua frente. Vinha com o diabo
no couro. Praguejando contra todos. Foi indo diretamente para o balcão.
Seu Zico, espantado, perguntou o que foi que houve Carlinhos?
Não pergunte nada, agora! Enxugou o rosto em um pano de mesa
que se encontrava no balcão e disse, bote uma pinga para desobstruir
meus gorgomilos. Espantado, Seu Zico colocou num copo e engoliu de
uma só vez. Bote outra seu Zico, que hoje estou com a moléstia
do cachorro! Mais uma vez bebeu, pigarreou e cuspiu no chão
sem nenhuma cerimônia de quem esta almoçando. O que foi
que houve home? Não pergunte? Já disse. Calado ficou
algum tempo remoendo as palavras. Disse depois dei uma surra na muié
prá ela respeitar o home que vive com ela. Perguntou a mim
o guarda da Peste, se podia sentar-se à mesa em um tamborete
rústico. Sentou mais calmo. Olhando para mim, o Guarda e mais
dois ou três pessoas que estavam ali, disse, dei umas lapadas
na mulher por que ela me chamou de “Corno”. O sangue me
subiu a cabeça. A vista escureceu, pois nunca ninguém
me ofendeu desta forma. Se fosse um home eu estrangulava com estas
duas mãos que Deus me deu, mas foi a minha veia, pode ser?
Todos ficaram olhando e admirado. Pois é, ela me chamou de
“corno” depois parir cinco bruguelos, tem jeito uma coisa
desta, Eh! Eh! Eh. Dê-me mais uma cachaça, pois estou
irado. Mais calmo ainda, perguntou seu guarda o que acha de tudo isso?
Eu fiquei apalermado com a pergunta de supetão e mais difícil
seria a resposta, pois aprendi desde cedo quando o meu pai Chico Zuza,
dizia “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”,
pois se machuca mais tarde, fazem as pazes e o cara fica mal visto.
Mas de qualquer forma dei um conselho que deve ter sido aceito pelo
agressor da mulher. Perguntei a queima roupa, o que você fez
para merecer este tratamento? Nada seu guarda! Nada seu guarda! Apenas
ontem à noite fui com Zezinho, Pedroca e Zé de Quincas
tomar uma e outras no barracão de Zé da Luz, no sitio
vizinho ao meu. A lua estava convidativa para uma seresta o céu
estrelado e aquele vento brando enchendo os nossos pulmões
de ar puro do mato. E lá fomos o Zezinho no violão,
Pedroca no violão, Zé de Quincas no tambor e eu cantando
e tocando ganzá. Cheguei por volta das quatro meia da manhã,
já clareando o dia. A vegetação orvalhada pela
madrugada. Ela reclamou e eu fui dormir, quando me acordei veio reclamar
e soltar os cachorros em cima de mim com este ditado de “Corno”
e ai perdi as estribeiras , e disse eu já lhe dei liberdade
para isso? Eu disse, é meu jovem as coisas acontecem sem menos
esperar. Volte para casa e peça desculpas pelo “pau”
que deu em sua mulher, pois no meu entender é o melhor remédio
a seguir. Isso não! Respondeu. Não vou me rebaixar a
muié nenhuma, ela é que deve pedir perdão pela
ofensa que me fez. Bem assim eu não posso lhe ajudar. Tomou
mais uma pinga, e saiu já escuro pelas veredas da mata que
levava ao seu casebre, deixando todos a comentar este caso.
No dia seguinte, tomei café forte com ovo “estalado”
na banha de porco e sai para trabalhar nos sítios. Visitei
duas casas e na terceira encontrei o valentão rindo a toa junto
com a sua mulher, que lhe pedira perdão e assim estavam em
paz. Fiz o serviço na casa, tomei uma xícara de café
e sai balançando a cabeça rindo com estes casos entre
marido e mulher.
Muita história tinha o velho Antonio Zuza, mesmo na sua velhice
em cima de uma cama em Garanhuns, tinha a contar quando o visitávamos
sempre com o sorriso e com o cabelo desalinhado e por fazer a barba,
mais sabia receber bem todos aqueles que o procuravam. Morreu como
“passarinho” dando o último suspiro lendo os jornais
do dia, deixando exemplo de boa conduta.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho
Olinda, 15 de abril de 2011.