A
Procissão do Senhor Morto, uma das mais tradicionais da
Igreja Católica, acontece na tarde desta Sexta-Feira Santa.
Durante a procissão, os fiéis conduzem a imagem
de Jesus morto; momentos antes, é realizada a Veneração
da Cruz, onde os presentes beijam o símbolo cristão
e renovam os votos de fé.
Durante
a Veneração da Cruz, o celebrante descobre Jesus
e, quando a cruz aparece. Precede este e sucede este momento a
liturgia da palavra. A cerimônia é simples e solene,
mas não há missa, visto que a Sexta-Feira é
o único dia do ano em que a cerimônia católica,
bem como a consagração de hóstias, não
é realizada.
Fotos:
Alfredo Camboim, Lucila Camboim, Niedja Camboim, Saulo Bezerra
e Carlos Sena
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO.
Sexta-feira da paixão. Na minha pequenina Bom Conselho
de Papacaça, onde me encontro, o comércio fecha,
as escolas, mercados, tudo. As igrejas, não. Hoje é
dia de procissão do senhor morto, de vigília, de
matracas substituindo o toque dos sinos. Amanhã, sábado
de aleluia, todo o ritual será mantido com nos meus tempos
de criança. Claro que muita coisa mudou, foi abolida, porque
faz parte do processo da chamada modernidade. Mas o principal
não mudou: a fé da grande maioria da população.
Aqui não se come carne desde ontem e muitos não
comerão até amanhã. O feriado da paixão
é um dos mais levados a sério, inclusive deixando
a cidade, literalmente, parada nesta sexta-feira SANTA. Neste
dia, os pais não batiam nos filhos, mas os meus diziam
que “bater, não, mas CALCAR, beliscar, sim”!
Não sei se hoje os filhos tem esse álibi, mas era
assim que os pais faziam talvez induzidos pela corrente autoritária
da igreja católica para quem “poucas e boas, devagar
que doa”, fosse a pedagogia indicada.
Daqui a pouco a procissão vai sair pelas ruas com a imagem
do Senhor Morto sendo carregada pelas ruas, sob o som da matraca
e dos hinos lúgubres em forma de réquiem que depressão
nenhuma pode botar defeito. Gosto dessa procissão pelo
gestual que ela mantém: os pecados capitais desfilam em
pelotões coloridos, em conformidade com o que se imagina
que as cores simbolizam; anjos, “Maria Madalena”,
apóstolos, senhoras da Legião de Maria, completam
o time de desfilantes. Junto à imagem do Senhor Morto,
o Monsenhor, pois minha terra não tem bispo, contritamente,
comanda a procissão. Um carro de som geralmente vem na
frente transmitindo as orientações da procissão
e entoando os cânticos. Talvez seja um dos maiores momentos
de concentração de pessoas que a cidade reúne.
Nem quando um político importante vem por aqui, reúne
tanta gente.
Talvez seja um bom momento para as autoridades católicas
pensarem em recuperar o rebanho para as novas igrejas e seitas
que estão disputando o mercado da fé. Principalmente
depois de tanta denuncia de pedofilia, inclusive, colocadas para
debaixo do tapete pelo nosso PAPA quando arcebispo. Por conta,
também, da na nossa vizinha Arapiraca, colocada no noticiário
nacional com casos de pedofilia comprovados. Enquanto isto, a
igreja católica continua querendo tapar o sol com a peneira,
imaginando, talvez, que nós, pecadores, não estamos
mais querendo saber da relação entre teoria e prática.
Porque talvez tenha sido aí que as igrejas se perdem em
si mesmas. Não basta, pois, dizer que está salvo
quem opta por determinada religião. Salvo deve estar quem
tem o coração sem maldade e prova isto no dia-a-dia
com os seus semelhantes. Esta pratica, infelizmente, não
é corrente nas igrejas, muito menos na nossa Romana, Apostólica!
O dia de hoje me leva a esta reflexão, porque o tempo está
para introspecção dos valores que deixaram de ser
monitorados por quem de direito, principalmente pela família
e as igrejas. As primeiras, deixando os filhos se “educarem”
pela TV e a segunda, pela relação forte com o capital
e pela incoerência entre muita teoria e pouca prática.
“Neste dia, oh Maria, nós te damos nosso amor! Este
é um trecho de um hino católico dos meus tempos
de criança, mas ainda hoje vivo nas procissões.
Valho-me dele para complementar minha caminhada nesta via sacra
que é conviver com um país desigual; um país
que dá audiência a um BBB – Big Brother Brasil
– verdadeira réquiem à putaria, à sacanagem,
ao estabelecimento da lei da vantagem e do lucro fácil
pelos meios de comunicação; ao estímulo à
falta de ética e de amor nas relações interpessoais.
Outro hino que ainda me lembro: “Senhor Deus, Misericórdia”!
É de quem me valho nesta tarde, enquanto a procissão
não começa: misericórdia, senhor, pela lama
moral que nossos políticos teimam em conservar; misericórdia,
senhor, pela violência que assola nosso país e pela
justiça que só vê quem tem dinheiro quando
deveria ser cega; misericórdia, senhor, pelas crianças
que não tem escola digna; pela grande maioria da população
doente, para quem os SUS se constitui num faz-de-conta, pois os
nossos dirigentes têm planos de saúde privados; misericórdia,
senhor, pela inversão de valores motivados pelo consumo
de bens materiais; pela falta de solidariedade entre irmãos,
pela falta de amor ao próximo cada vez mais acentuada,
amém.
PROCISSÃO - Gilberto Gil - Composição: Gilberto
Gil
Olha
lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles
vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu
também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita
gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra
ano, sai ano e nada vem
Meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isso tem que se acabar
csena51@hotmail.com