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BOLO
DE CENOURA
“Depois de limpa e partida em pedaços,
leve a galinha a refogar em um pouco de óleo com cebola batidinha
e sal com alho...”
Tudo começou em uma tarde fria e cenouras na geladeira e o que
fazer com elas e aproveitá-las era no momento minha preocupação:
um bolo de cenoura. Isso mesmo.
Folheei após muito tempo o meu velho caderno de receitas. Das folhas
amareladas pelo tempo saiu vida.
Fiz o velho e saboroso bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Quem
não conhece? Onde estão minhas crianças que o devoravam
antes do anoitecer?
No passo a passo da feitura, muito se passou em mina cabeça. A
maturidade traz cada coisa! Quase uma terapia...
O “Bolinho de Chuva” feito nas tardes frias lembra a infância
de meus filhos em Atibaia.
O “Pão Doce” da minha mãe me transporta a um
cheiro inesquecível de lar, afeto. Lembro-me do aconchego e a espera
louca que aquelas mãos trançando a massa acabasse logo no
delicioso pão doce do amor. Amor de mãe.
Pão da vida.
Há muitas outras receitas da minha mãe. Dona Zefa .
Existe comida melhor?
Fui folheando e com o “Lombo de Abacaxi” da Ivone, voltei
ao início de nossos casamentos e ao primeiro jantar que a então
jovem casada Ivone se esmera em fazer para a cunhada. Deu certo. Fiquei
encantada e anotei tudo!
Minha vida ia se abrindo diante dos meus olhos a cada nova e repito velha
e amarelada página...
O “Patê da Valéria” foi servido em um aniversário
da minha afilhada Priscila. Hoje uma linda mulher mãe.
A “Torta pobre da Hilda” que de pobre não tinha nada,
remeteu-me à vila onde passei dias e momentos tão felizes...
Na “Torta de Bacalhau da Maria do seu Candinho”, nossa! Como
tenho essa receita? Era um casal discreto e distinto da tal vila... sempre
á distância......mas acho que em algum momento adentrei na
intimidade deles...faz parte do meu temperamento efusivo...
Como magia a palavra comer veio bem a calhar, as pessoas, suas casas e
emoções foram alimentando meu ser.
Regando a alma.
Percebi que meu caderno de receitas é muito mais que receita. É
uma espécie de diário. Lembro-me das comidinhas e de todos
os momentos então vividos.
A “Crostata da mamma” era uma espécie de segredo de
estado da minha então sogra italiana. Iguaria sem igual.
Fácil e apetitosa com certeza nos acompanhava com café nos
fins de semana. Na minha irradiante juventude, achava tudo maravilhoso...
e era!.
As receitas passeavam ora por Pernambuco ora na Itália, com mãe,
cunhadas e amigas se revezando como numa demonstração de
competência e carinho. Com a “Torta Húngara da tia
Olivinha” a coisa foi se sofisticando e foi o auge a “Galinha
Russa” da Bel. Querida Bel. Nessa época morávamos
em Pira. Piracicaba. Reencontrei a querida Bel
Agora depois de tantos anos. Será que ela ainda faz a galinha russa?
E o pior, será que podemos comer? Lembro que levava muita manteiga...
ahahahahaha bons tempos que se podia comer de tudo! Agora é saladinha
com pouco tempero! Vixe !!! Delva e seus quitudes aparecem muitas vezes
! A querida Zá nem tanto.....algumas coisinhas.
Já a Zerza até hoje com seus 80, arrasa!!!!
Será que as recordações do meu caderno de receita
são só minhas?
Em nossos dias quando queremos uma receita é só clicar.
Pronto. Na tela receitas de todos os tipos desfilam. Mas não tem
o sentimento que me tomou.
Os velhos e bons hábitos estão desaparecendo.
As meninas hoje tem caderno de receita?
As pessoas se esmeram ao fazer um jantar para amigos ou parentes?
Não importa. Vivi esses momentos lindos...
Ah! Caso se interesse por alguma receita, não hesite, peça-me.
Posso também preparar para você.
Aceita?
CARINHO
DE

ANA Maria Miranda LUNA
SÃO PAULO
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