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O Entregador de Doces
Morava vizinha a minha casa, uma senhora por nome de Cecília. Na
sua família eram poucas pessoas: a Cecília, viúva,
a sua mãe(já bem idosa) e uma neta. A dona Cecília
era uma exímia doceira. Fabricava os doces e os colocava no comércio
local para venda. A entrega era a própria quem realizava. Com o
aumento das vendas ficou díficil para a referida senhora, fazer
as duas coisas:ou fazia ou entregava. Eis que a senhora falou com o meu
pai se eu poderia ajudar a fazer as entregas, e em pagamento, ela me daria
uns trocados. Proposta mais que aceita por meu pai e por mim. Assim eu
estudava de manhã, chegando em casa preparava-me para o almoço,
depois fazia as tarefas escolares e em seguida ia assumir a minha nova
função: entregador de doces! E com muita alegria eu executava
esta tarefa, não só pelos trocados que ganhava que dava
para comprar os meus gibis,mas também pelas sobras do corte dos
doces,principalmente das cocadas. E que cocadas! Só de pensar,
o meu sentimento gustativo ainda deixa a minha boca cheia d'água.
Até por que determinados gostos não se esquece, por mais
que tempo passe, não?
E seguia eu feliz na função de entregador. De manhã
escola e a tarde entrega dos doces. Certa vez ia eu com a vasilha pesada,cheia
de cocadas para fazer entrega na barraca do sr. Belon(na Praça
Pedro II), acho que os mais antigos ainda lembram deste ponto de venda
de doces, cigarros, e guloseimas mis.
Na altura do antigo abrigo rodoviário(era este o nome dado a uma
obra feita pelo Prefeito Waldemar Tenório, quase em frente a casa
da d. Luizinha Correntão), quando surge uma boiada descontrolada
que descia a rua do Caborge, e pasmem, foi uma correria só! Eu
e minhas pernas curtas, tentei subir a calçada da igreja Matriz,
mas com o peso da vasilha cheia de cocadas, não consegui e me esparramei
no chão. A tampa da vasilha abriu, e não precisa dizer que
foi cocada prá tudo que foi lado, e eu estendido no chão.
Consegui levantar e ainda recolher as cocadas espalhadas. Sentei nos degraus
da igreja com os joelhos todos feridos e comecei,com o pano que cobria
a vasilha, a limpar as cocadas que tinham caido. Arrumei todas as cocadas
de forma impecável e segui para a entrega, com os joelhos ardendo,
uma dor insuportável, os olhos cheios de lágrimas, mas segui
em frente. Ao chegar na barraca do sr. Belon, pedi um copo d'água
para me refazer, enquanto o senhor Belon fazia a contagem das cocadas.
Neste intervalo de tempo o mesmo virou-se pra mim e falou:
-As cocadas estão estranhas hoje, com uma cor diferente. Aconteceu
alguma coisa?
E eu sem saber o que responder e com medo de falar o que tinha acontecido,
pois com certeza se ele soubesse o que fiz não iria querer ficar
com a encomenda. Pensei rápido e respondi:
-Acho que as cocadas ficaram um pouco fora do ponto, mas estão
gostosas.
O bom ho mem acreditou e colocou-as nos vidros, pagou o correspondente
e ainda me deu umas balas.
Saí dali com a consciência pesada, agora eram duas dores:
a do joelho e a dor da consciência por ter mentido. A dor do joelho
logo foi curada com os cuidados da minha fam[ilia, e a dor da consciência,
bem esta, só o tempo ajudou a curar. Mas, criança sente
dor de consciência?
Se você que está lendo esta história e comeu das cocadas
neste dia me desculpe e com atraso me perdoe!
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