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Reminiscências
Lá pelo começos dos anos sessenta,
a minha vida seguia uma rotina como todas as crianças da minha
idade: brincadeiras e mais brincadeiras. Só que algo estava para
mudar em minha vida, algo tão importante que desde este dia em
diante nada ficou como dantes: o meu primeiro dia de aula. Confesso que
na noite anterior, mesmo com a recomendação de ir para a
cama cedo, não consegui dormir direito. A expectativa era muito
grande e a cabeça da criança,às vezes ia do assustado
ao contente, pois era o meu primeiro dia de aula, de uma aula que estou
nela até os dias atuais.
Na véspera a recomendação do meu pai:"Brincar
solto nas ruas, agora só nas férias, porque agora ia começar
a aprender a ler e fazer contas". Isso meu pai afirmava e olhando
dentro dos meus olhos, talvez na esperança de que eu tomasse gosto
pelos estudos e conseguisse me formar um dia em minha vida, coisa que
o mesmo nem em sonho conseguiu.
Aquelas palavras me enchia de orgulho e ao mesmo tempo de medo. E a cabecinha
de criança por vezes doia de tanto pensar.
Eis que finalmente chegou o grande dia!
Acordar cedo, os asseios matinais e a espera da hora de colocar o uniforme.
E mais uma recomendação:" Não pode se sujar"!
(Como se isso para uma criança de cinco anos fizesse algum sentido).
Vesti-me, com a ajuda da minha irmã Mercês, com muito cuidado
e esmero. O uniforme: calça azul(curta) e camisa branca com um
bolso, na altura do peito esquerdo, com as siglas GEMLS(Grupo Escolar
Mestre Laurindo Seabra, e um bordado caprichado em tom azul).
De mãos dadas com a minha irmã segui eu para o destino mais
importante da minha vida.
O Grupo Escolar, uma enormidade, aos olhos de uma criança assustada.
O esposo da Dona Lourdes Cardoso, nesta época era o bedel, responsável
pela ordem da criançada e pelos toques da sineta: entrada e saída
e a tão esperada hora do recreio.
Fui conduzido para um grande salão onde fazia-se uma fila indiana
de acordo com a classe a qual cada um pertencia e em seguida fazia-se
uma oração e em ordem seguia-se para as respectivas salas.
A minha sala, ficava fora das quatro grandes salas que eram reservadas
para os alunos mais adiantados. A referida sala ficava colada a cozinha,
onde dona Joana era a encarregada de preparar o lanche dos alunos(leite
em pó que quando não bem dissolvido ficava umas bolotas,
mas que mesmo assim todos tomavam).
A minha professora a Dona Maria José Tenório(filha do Dr.
João Tenório, irmã da Ismenia Tenório). Foi
esta pessoa quem me apresentou as primeiras letras. Quanta paciência
e bondade desta professora para lidar com vinte ou vinte e cinco cabecinhas
ocas de saber e conhecimento.
Mas a sua experiência aos poucos se fazia notar e aos poucos a criançada
e eu íamos aprendendo as letras, juntando-as formando sílabas
e daí para formar uma palavra era a glória para todos nós.
Como era excitante tudo isso!
O tempo foi passando e a criança, de cabeça oca de letras,
foi abrindo os olhos para o mundo e tomando gosto com as letras. Chegou
então a festa de comemoração ao dia das Mães,
então a nossa professora começou a nos preparar para uma
apresentação. Por sermos a classe mais jovem do estabelecimento
íamos nos apresentar em primeiro plano. Os ensaios começaram
e a professora ia na sua experiência selecionando as crianças
que tinham mais hablidade para a apresentação, isso incluia
entre outras coisas a voz. Eu fui selecionado:uma voz fina, estridente,
mais afinada. E os ensaios prosseguiam na própria sala de aula
na frente dos outros alunos.Uma semana de preparação e a
expectativa era grande: não podia errar!
Chega o grande dia e logo ao acordar percebi que tinha algo diferente
em minha boca, alguma coisa estava solta! Meu primeiro dente de leite
estava prestes a cair!.
Mesmo assim consegui fazer a apresentação,só não
consegui ficar para ver o restante da festa. Sai direto com a minha professora
para o consultório do Sr. Valdemar Urquiza(que era o dentista da
época e cujo consultório ficava ao lado da igreja Matriz).
Resultado: menos um dente de leite e a alegria de minutos antes transformou-se
em lágrimas de dor mesmo que passageira. E com esta experiência
encerrou-se também a minha carreira de cantor.
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