" Gildo Póvoas "

GENTE TAMBÉM É ANJO



Os circos que chegavam à minha cidade sempre eram motivos para nos tirar da rotina. Quando sabiamos, ou víamos o movimento a este respeito, a nossa expectativa já começava a crescer. Tinham dois lugares preferidos para a instalações dos circos: um era no alto de Sto. Antonio(onde hoje tem o Centro Cultural Prof. Waldemar Gomes de Santana) e o outro era em um terreno baldio onde hoje está instalado o parque da cidade. Naquela época eu era aluno do Grupo Escolar, estudava no turno da manhã, então quando sabedor da chegada de algum circo,depois do encerramento das aulas, ao invés de ir direto para casa, eu passava primeiro no local onde o pessoal estava montando acampamento, para ver como iam os trabalhos, o tamanho do circo essas coisas de curiosidade de criança. Quando era um circo grande que tinha animais, aí a emoção era em dobro, pois vê elefantes, leões, macacos era tudo de bom para os olhos daquela criança de oito anos que nunca tinham ido a um zoológico. E sem contar a curiosidade de como viviam aquela gente de circo.
Achava fascinante viver como eles viviam: não ter lugar certo para morar, hoje aqui, amanhã ali e sem vínculos com a realidade diária(aluguel, escola, enfim essas coisas). Quando por fim o circo estava já instalado(falava-se na época "armado"), era anunciado o dia da estréia, e a criançada era convidada para a estréia, mas com uma condição: tinha que acompanhar o palhaço que iria sair pelas ruas da cidade, montado em umas pernas de pau e com um cone na boca, gritando a plenos pulmões, o dia e a hora do espetáculo. E assim eu sabedor disso, e sem que o meu pai soubesse, na hora exata marcada pelo pessoal do circo, lá estava eu. E o espetáculo prá mim já começava ai !
O palhaço vestido com uma calça de "chita" bem florida com aquelas pernas enormes ia na frente a plenos pulmões:
-Hoje tem espetáculo?
-E a criançada atrás- tem sim, senhor!
-Às oito horas da noite?
-E a criançada- Tem sim, senhor!
-Arrocha negrada!
-E a criançada- EHHHHHHHH, EHHHHHHHHH, EHHHH!
Assim subia-se e descia-se as ruas e ladeiras da cidade, aquele cortejo inusitado, e eu bem no meio da criançada, escondido para que os meus familiares não me vissem.
O cortejo por fim retornava para o circo para que fossem distribuidos os convites para a estréia. E advinhem o que era este convite?
Uma marca de tinta na testa! Isso mesmo, não riam!!!
Saíamos felizes, pois o nosso ingresso estava garantido(e funcionava), o problema era chegar em casa tomar banho e ter o cuidado de não molhar aquela parte do corpo para que a tinta não saisse, geralmente era marcado a testa. Assim esta era uma das formas de garantir o ingresso grátis.
Lembro de um outro circo, este grande, chamado Gran Bartholo Circus. Equipadissimo. Com animais e uma grande novidade:o globo da morte! (uma esfera metálica oca onde dentro dois motociclistas faziam giros em alta velocidade,sem que as motos se tocassem,por isso era da morte).
Era a sensação da temporada. Só tinha uma coisa que o tal circo não possuia: músicos.
Tiveram que contratar os músicos da terra. O maestro Zé Puluca, então selecionou alguns músicos da sua banda para o acompanhar nesta empreitada,e nesta seleção entrou o meu irmão que nesta época tocava saxofone. Pronto! Era o que eu precisava para assistir os espetáculos de graça. Mas o meu irmão foi irredutível em dizer que não podia me levar, pois com oito anos, eu não tocava nada de música,nem toco até hoje. E ficou lá em casa a disputa entre o leva e não leva. Eis que o meu pai, na sua sabedoria, deu a sugestão: -"Leva, e o menino vai atrás de você carregando o seu instrumento". Meu irmão relutou, mas para ele, a palavra do meu pai era uma ordem, e assim ficou resolvido que eu iria. A minha ansiedade era tanta que nesta noite nem quis jantar. E fome que nada, o que contava era que daqui há pouco eu iria assistir a grandiosidade daquele show.
Fomos, o meu irmão na frente e eu atrás, com um trambolho maior que eu , a caixa onde estava o instrumento. Exausto, mas feliz, pois a distância da rua onde moravamos até o circo(que ficou instalado em frente ao Colégio N.S. B.C.), era grande.
Na portaria do circo aconteceu um impasse: o pessoal não aceitou a situação, eu não era músico, então não tinha porque entrar. O meu irmão, como um bom capricorniano que é, encrespou com o responsável e a confusão estava formada. E aqueles minutos,ali naquela situação, pareceram horas intermináveis. Mas eis que surge a solução na figura do maestro Zé Puluca, que perqunta o que está acontecendo, e vendo a situação, olhou prá mim, que a estas alturas já estava achando que não iria entrar, depois voltou-se para o responsável do circo e disse: - Se o garoto não entrar, não tem música !
Pronto! Foi o "abre-te Sésamo " da situação.
Consegui entrar e não só esta noite, mas todas as noites durante a temporada que o circo permaneceu na cidade. Dai em diante passei a acreditar que Deus envia anjos para a terra em forma de gente. E o maestro neste dia foi um deles em minha vida!