COLUNA "José Fernandes Costa"
 



Zé Limeira

Falando do Andarilho / desse que está no trilho /

/ lembrei-me de Zé Limeira / poeta do absurdo

/ Orlando Tejo me disse / e sobre ele escreveu.

Foi na Serra do Teixeira / que o cantador nasceu

/ valente que nem um curdo / esse povo do Iraque

/ de cartola ou de fraque / ele nada entendia

/ mas pra fazer poesia / trova, repente o que fosse

/ cantador bom se rendia / e dizia sem pensar

/ a coisa aqui tá amarga / bom seria sendo doce

/ mas quando se pega não larga.

Um dia Limeira morreu / glórias ele mereceu

/ foi bom pra quem o ouvisse / daí o disse-que-disse

/ em torno do cantador / que nunca deixou o andor

/ no meio da procissão / fosse no ar ou no chão

/ e Limeira estava lá / cumprindo a sua missão.

Criou muitos disparates / juntou um montão de vates

/ pra cantar lá em Campina / assanhou muita menina

/ cantou com gente famosa / gostava também de prosa

/ e sabia prosear / pra todo mundo aprovar.

Tomava muita zinebra / na emenda o bom não quebra

/ muita coisa ele nos deu / com sua biografia

/ que Orlando Tejo escreveu / amante da poesia.

Limeira e sua viola / cantador que deita e rola

/ com ele perdia a graça / fosse na rua ou na praça

/ gostava de confusão / nos oito pés a quadrão

/ cantava a pleno pulmão / fosse no brejo ou sertão.

No meio duma cantoria / Limeira surpreendeu

/ foi pendendo da cadeira / e no chão se arrebentou

/ o povo todo correu / pra ver o que se passou

/ já era tarde, porém / às três horas da manhã

/ Limeira havia morrido / num desmaio incontido

/ a gente perde o que tem / e todo mundo aturdido

/ lembrando Puxinanã.

Foi assim que a Borborema / a rádio lá de Campina

/ que não soltava o bom tema / cumpriu tão bem sua sina

/ locutor anunciava / notem que ele falava

/ da morte de Zé Limeira / nascido lá no Tauá

/ sítio onde ele residia / orgulho de moradia

/ lá na Serra do Teixeira / poeta do absurdo

/ mas com isso eu não chafurdo / foi o que me disse o Tejo

/ numa noite seresteira / seja na serra ou no brejo

/ isso não é brincadeira.


José F. Costa