COLUNA "José Fernandes Costa"
 

 

Homem com nome



Em recente explanação, de título "O homem sem nome", disse o presidente da CIT que seu pseudônimo é diretor-presidente. Mais adiante diz que o seu nome é diretor-presidente. Ele faz malabarismos em defesa da sua proposição. Mas tropeça em comparações que nada têm a ver. Então, no meio do caminho havia uma pedra. Havia uma pedra no meio do caminho.

Senhor diretor-presidente: não o chamo por Tristão de Ataíde, porque V. Sª não tem o perfil de Alceu Amoroso Lima.

E não me agradam sombras. Gosto da claridade e da sinceridade. Se a querida Ana Luna disse que vocês sentem saudade do portal de Bom Conselho, ela foi muito branda. Eu digo diferente: se vocês optaram por sair do MURAL, é estranho que tenham essa curiosidade toda ao redor dele!

Porém... Sempre há um porém. O presidente da CIT, essa empresa misteriosa, diz também que é permitido discordar. Mas ele deve sentir saudades, ainda, dos anos de chumbo. Por isso, está sempre falando em demitir, demitido etc. Eu não posso ser demitido por ele. Mas, mesmo assim, só discordo quando tenho motivos para tanto.

O presidente pensa que encontrou uma saída. Diz que sua empresa é a única no mundo que tem diretor-presidente sem nome. Isso nos faz deduzir que a CIT, se existir no mundo real, é a única empresa certa em todos os continentes.Todavia, nesse beco estreito, ele ainda não encontrou o caminho. Aliás, nesse vai-e-vem, disse-me-disse, o seu modo de escrever é muito confuso e escorregadio. Falta-lhe conteúdo, coerência e objetividade.

Ele começa citando Fernando Pessoa. Mas Fernando Fernando Pessoa diz claramente: "A obra pseudônima é do autor...". Por que é que o diretor-presidente quer confundir? Uma coisa é obra de arte, outra bem diferente é direção de empresa. Foi ele mesmo quem disse que só aceitaria a direção da CIT se pudesse ficar no anonimato.

Pergunto: para fazer uma empresa produzir seja lá o que for e cumprir seus objetivos, é necessário esconder o nome? Estranho, não, essa inovação do diretor-presidente!

Voltemos ao Alceu Amoroso Lima. Ele foi escritor, crítico literário e muito mais. Era homem das artes. E o pseudônimo dele foi instituído para fazer distinção entre a sua atividade literária em jornais e a exercida como dirigente da empresa herdada do seu pai.

Como vemos, o diretor-presidente da CIT e o Alceu Amoroso são figuras totalmente opostas. E se eu tratasse o referido presidente por Tristão de Ataíde, ele só teria razões para se engrandecer e ficar mais vaidoso ainda. Nunca para se zangar. Em razão disso, não há por que tratá-lo pelo pseudônimo que é marca do Alceu Amoroso Lima, que está num plano bem distante do plano em que se encontra o presidente.

Óleo não se mistura com água. Fica um lá, outro cá. Empresa é empresa e não se confunde com obra de arte. Qualquer que seja a arte. Não confunda autores de obras literárias e mestres em outras artes, com dirigentes empresariais. João Ubaldo Ribeiro usando pseudônimo é coisa muito natural. O mesmo não se pode dizer de Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim. Salvo se ele o fizesse em sua coluna na Folha de São Paulo. Assim, volto a dizer: não misturem alhos com bugalhos.

Como é que vou endereçar um ofício ou outro expediente ao presidente de um banco, sem saber o nome dele? Convidá-lo para um evento, entrevistá-lo num canal de televisão ou numa emissora de rádio, sem saber o seu nome, não dá! Gosto das coisas às claras. Por isso, desisto de entrevistar o presidente do banco. E convido o senhor Antônio Ermírio de Moraes, porque ele tem nome e sobrenome. E não me interessa mais saber como se chama o presidente do banco.

Na sua crônica acima mencionada, o diretor-presidente da CIT faz alusões ao meu nome (porque eu sou homem com nome). Mas sempre de modo irônico, coisa que não me incomoda. Numa das citações, ele diz "...mas ninguém é perfeito". - Nunca sonhei com a perfeição, essa coisa impossível entre os mortais. E continuo sem saber o nome dele, coisa que pouco ou nada me interessa. Porque em nada iria influir no meu dia-a-dia.

Em sua linguagem embaralhada, o presidente ainda volta ao assunto de "que o Saulo tinha o direito de censurar quem quer que fosse." Ora, o Saulo está calado, levando adiante as suas tarefas. Para que essas deselegâncias que nada constroem?

Ainda perdido no meio do caminho, ele peca quando tenta justificar seu anonimato. Porque cita pessoas das artes que usaram e usam pseudônimo. O presidente quer conferir a si, que se diz diretor de empresa, o direito de esconder seu nome, no exercício do cargo.

E se Graciliano Ramos quase não aceitou que O Quinze fora escrito por uma mulher, consideremos o tempo e o espaço e veremos que Graciliano tinha suas razões. Razões que a própria razão desconhece.

Mais: neste nosso mundo de amor e ódio; de fome e miséria; de desemprego, subemprego e exploração do homem pelo próprio homem; de guerras e egoísmos; de hipocrisias sem-fim, o que é que o presidente quer dizer com esse "...todos que não firam a ética e bons costumes de nossa sociedade"?

Aqui, vale lembrar que a sociedade, de modo geral, é perversa e farisaica. E não é, nem nunca foi exemplo de ética, tampouco de bons constumes.

Sobre o hábito que tenho de zelar pelo nosso idioma, já sofri alguns patrulhamentos. Vindos de pessoas que têm o dever de falar e escrever bem e não o fazem. Mas isso também não me incomoda nem um pouquinho. E será motivo de outro comentário em breve.

É isso, José Fernandes Costa, 30 de novembro de 2008.