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Nos
passos do português
Nos meus tempos de moleque, ouvia este mote da boca dos cantadores populares:
"Tenha cuidado cantor, não diga palavra errada!". Não
mais esqueci. Admiro os trovadores populares, emboladores, repentistas,
o escambau. Para mim, eles são poetas e tanto.
Mas, vamos ao que interessa. Muita gente, que se diz doutor não
sei do quê, mas fala e escreve mal, não suporta a expressão
"palavra errada". São os tais lingüistas que dizem
que a língua é aquilo que o povo fala. Contudo, quando esses
doutores de meia pataca vão submeter-se a concursos, defender suas
teses, escrever suas monografias, fazer seus relatórios etc., têm
de usar a língua-padrão. Caso contrário, dançam
na corda bamba.
Pois bem: os cantadores são poetas, artistas natos. A eles é
permitido fugir um pouco dos rigores da gramática, em benefício
da arte. Se eles são semi-alfabetizados, podem fugir um muito de
gramáticas e dicionários. E tudo bem. A gente apenas se
deleita com a arte deles. Arte que não é fácil.
Se o escritor ou poeta é metido a doutor, tem títulos por
todos os buracos, aí é que não pode valer-se da pequena
concessão em prol dos valores estilísticos, nem dessa liberdade
poética, para dizer "haverão (?) outros encontros"
ou "ela está meia (?) tonta!", por exemplo, e coisas
que tais. Isso aí não é concessão, tampouco
liberalidade. É libertinagem escrotora e poetera.
Porque, meia tonta, significa metade tonta e a outra metade firme que
nem o Pão de Açúcar. Ou então, que a nossa
meia de calçar está meio tonta. E dizer que haverão
outros encontros é confundir as obras de arte do mestre Picasso
com "régua" de aço do mestre de obras.
Não se pode estuprar gramáticas e dicionários impunemente.
Ainda mais quando o boçal escrevinhador usa alto coturno. Se é
poeta, prosador ou pederasta; poetisa, prosista ou puta, deve entender
as regras da linguagem falada e escrita. Ninguém tem o direito
de cometer esses atentados contra a nossa língua portuguesa. Pelo
contrário, é dever de cada um que enxergue um palmo à
frente do nariz, zelar pelo idioma nosso de cada dia.
E se o pretenso doutor se acha no direito de falar e escrever como bem
entenda, que ao menos respeite aqueles que querem a fala enxuta e o texto
sem máculas.
- José Fernandes Costa, Recife, 6.12.2008.
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