COLUNA "José Fernandes Costa"
 

 

Nos passos do português




Nos meus tempos de moleque, ouvia este mote da boca dos cantadores populares: "Tenha cuidado cantor, não diga palavra errada!". Não mais esqueci. Admiro os trovadores populares, emboladores, repentistas, o escambau. Para mim, eles são poetas e tanto.

Mas, vamos ao que interessa. Muita gente, que se diz doutor não sei do quê, mas fala e escreve mal, não suporta a expressão "palavra errada". São os tais lingüistas que dizem que a língua é aquilo que o povo fala. Contudo, quando esses doutores de meia pataca vão submeter-se a concursos, defender suas teses, escrever suas monografias, fazer seus relatórios etc., têm de usar a língua-padrão. Caso contrário, dançam na corda bamba.

Pois bem: os cantadores são poetas, artistas natos. A eles é permitido fugir um pouco dos rigores da gramática, em benefício da arte. Se eles são semi-alfabetizados, podem fugir um muito de gramáticas e dicionários. E tudo bem. A gente apenas se deleita com a arte deles. Arte que não é fácil.

Se o escritor ou poeta é metido a doutor, tem títulos por todos os buracos, aí é que não pode valer-se da pequena concessão em prol dos valores estilísticos, nem dessa liberdade poética, para dizer "haverão (?) outros encontros" ou "ela está meia (?) tonta!", por exemplo, e coisas que tais. Isso aí não é concessão, tampouco liberalidade. É libertinagem escrotora e poetera.

Porque, meia tonta, significa metade tonta e a outra metade firme que nem o Pão de Açúcar. Ou então, que a nossa meia de calçar está meio tonta. E dizer que haverão outros encontros é confundir as obras de arte do mestre Picasso com "régua" de aço do mestre de obras.

Não se pode estuprar gramáticas e dicionários impunemente. Ainda mais quando o boçal escrevinhador usa alto coturno. Se é poeta, prosador ou pederasta; poetisa, prosista ou puta, deve entender as regras da linguagem falada e escrita. Ninguém tem o direito de cometer esses atentados contra a nossa língua portuguesa. Pelo contrário, é dever de cada um que enxergue um palmo à frente do nariz, zelar pelo idioma nosso de cada dia.

E se o pretenso doutor se acha no direito de falar e escrever como bem entenda, que ao menos respeite aqueles que querem a fala enxuta e o texto sem máculas.
- José Fernandes Costa, Recife, 6.12.2008.