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Carta
e mensagem
De início, separo ciências de religiões.
Em princípios de abril p. findo, o senhor José Antônio
Taveira (Zé Antônio) distribuiu mensagem, via correio eletrônico.
Com ela, veio uma carta atribuída ao padre Luiz Carlos Lodi da
Cruz. Segundo se lê ali, a carta é de apoio ao bispo de Olinda
e Recife, por ter fincado pé contra o aborto da menina de 9 anos,
estuprada pelo padrasto, em Alagoinhas. E por ter proclamado, alto e bom
som, a excomunhão dos médicos e demais pessoas que participaram
do aborto.
Premido por ocupações durante o mês de abril, só
agora encontrei tempo para este comentário. Assim, volto à
polêmica que se instalou sobre médicos e bispo, por causa
daquele aborto legal (CP - Art. 128, II). A dita carta é de um
primarismo e de uma futilidade tais, que nos espanta pensar que foi escrita
por um padre. Se assim é, faltou dizer que esse bispo já
foi santificado em vida, pelo seu ato de coragem. Seria o bravo santo
dom Dedé.
Já começam a carta falando em "mártir em defesa
da vida". Será o inconfidente excomungador? E o Zé
Antônio faz questão de grafar o nome do bispo todo em maiúsculas,
repetidas vezes, para passar a idéia de que se trata de um grande
líder. Mas isso é falso.
Mártir são as centenas de padres abnegados que, seguindo
os ensinamentos de Cristo, se embrenham em lugarejos sem nenhum conforto
e passam a defender os marginalizados. Esses sacerdotes sofrem constantes
ameaças e muitos deles são executados pelos "donos"
das províncias, que foram contrariados nos seus interesses mesquinhos.
Eles, os padres, buscam os direitos mais elementares da pessoa humana.
E por isso são mortos fria e covardemente.
Sabendo-se que o Vaticano é um Estado e que o papa é chefe
de Estado, o que têm feito os papas, junto aos outros chefes de
Estado, mundo afora, para proteger os padres que fizeram opção
pelo direito à vida desses desafortunados, oprimidos e marginalizados?
Muitos desses religiosos se dão por inteiro, em busca dos direitos
dessas pessoas, nos grotões do mundo, por abnegação.
Não por vontade do Vaticano. Temos um bom punhado desses padres,
em todo o mundo. Vamos citar, como exemplo, dom Pedro Casaldáliga,
bispo católico espanhol, nascido na Cataluña. Casaldáliga
chegou ao Brasil em 1968. Começou pela Amazônia. Depois fixou-se
em São Félix do Araguaia - Mato Grosso.
Mas esses abnegados são exceções dentro da Igreja
Católica. Se eles não temerem as ameaças, já
foi dito, podem ser assassinados, por contrariarem interesses dos endinheirados,
que vivem de bem com a igreja. Porque esses poderosos de plantão
costumam ir à missa aos domingos e comungam para que todos vejam
como são religiosos.
O padre jesuíta, João Bosco Penido Burnier, foi cumprir
uma missão de humanidade, lá mesmo no Mato Grosso, juntamente
com dom Casaldáliga. Padre Penido Burnier morreu com um tiro na
nuca. Tiro esse disparado por policiais bandidos que sempre ficam na defesa
dos donos dessas longínquas províncias.
Prosseguindo, Zé Antônio sai julgando todos. Ele é
a própria palmatória do mundo. Fala dos "que se dizem
católicos". E diz que vai "reproduzir acontecimentos
verdadeiros" (é o dono da verdade absoluta). E mais acrescenta:
"atos perpetrados por médicos sem consciência (ainda
se apodera das consciências alheias). Zé Antônio é
defensor ad hoc do mártir da excomunhão.
E transcreve o artigo do padre Luiz Lodi, que seria o primeiro de apoio
ao bispo. Mas esse apoio foi primeiro e único. Pergunto: sendo
o jornal "A Mensagem Católica", de propriedade da arquidiocese,
iria publicar algum artigo de repúdio ao bispo? - Elementar, não?
Levantar a hipótese de que aquela mãe teria sido coagida
a assinar a autorização para o aborto em sua filha, revela
muita ignorância. Onde estariam os ditos assessores jurídicos
da arquidiocese? Onde estaria o Ministério Público e a Secretaria
de Saúde do Estado, que tudo acompanharam? E, por acaso, os médicos
não iriam desconfiar de algo estranho no comportamento daquela
mãe, acaso tivesse havido coação? Onde fica a reputação
dos médicos, que fizeram tudo às claras, com base na lei
penal e na ética médica? Nenhum outro interesse moveu médicos
e equipe, a não ser o de ajudar àquela menina.
Essa hipótese aventada, de que poderia ter havido fraude, revela
má-fé, da parte de quem fez essa carta tão cheia
de atos falhos. Na carta, diz mais o padre Lodi que, nos seus trabalhos
pró-vida, "enquanto as feministas ofereciam o aborto, nós,
os cristãos, oferecíamos acolhida, hospedagem, assistência
espiritual e acompanhamento durante a gestação, parto e
puerpério!"
Quanta benevolência! Mas aqui em Recife NÃO se viu nada disso.
O arcebispo nunca foi ao Imip conversar com aquela mãe e passar
a mão na face da criança grávida. Isso, sim, seria
um ato de coragem, que ele NÃO teve e NEM terá, porque lhe
falta humildade. E atitudes que tais NÃO fazem parte do ego NEM
do currículo desse arcebispo (Aqui, permito-me julgar também.)
E se a Igreja já ofereceu a alguma mãe em condições
semelhantes, qualquer acompanhamento até o puerpério, o
que terá feito após o puerpério, quando inúmeras
mães ficam loucas e morrem na miséria, com seus filhos,
pelas ruas e em frente às milhares de igrejas católicas
ou não? Elas morrem, juntamente com seus filhos que nunca pediram
pra nascer. Morrem de fome e das doenças advindas dos maus-tratos
dessa vida severina, dessa vida bandida, calcada na hipocrisia e no farisaísmo!
Cadê o direito à vida, tão defendido pela Igreja e
tão invocado na carta sob comento. A Igreja Católica condena
os contraceptivos. Por dever de justiça, deveria fazer alguma coisa
para reduzir a fome que assola três quartos da humanidade no mundo
inteiro. Mas fecha os olhos. Faz que não vê. Então,
não misturem fé com saúde pública.
Também é dito na carta que "as crianças geradas
de estupro costumam ser alvo de carinho especial de suas mães?"
E que "o bebê, fruto do estupro, serve de um doce remédio
à mãe estuprada, para remir o trauma do estupro." Onde
está a prova, ao menos empírica, dessa afirmação?
É um grande engodo que nos tentam passar.
Essa dita carta foi tão mal-engendrada, que nela se fala em possível
cesariana. Quanto farisaísmo! Todos sabemos que foram administrados
comprimidos abortivos à menina e que os fetos foram expelidos naturalmente.
Só o padre e o bispo não sabem.
Também pudera. Ninguém da Igreja se interessou pela sorte
daquela criança. Se houvesse interesse, algum representante da
Igreja Católica teria ido ao Imip verificar as condições
da menina grávida. É o mínimo a esperar, já
que o tema dominava as manchetes da grande imprensa, mundo afora. E se
tratava de gravidez de alto risco. Mas o que fizeram os que condenaram
o aborto?
O que fizeram foi ordenar ao diretor-superintendente do Imip que não
permitisse que fosse feito o abortamento. E, em seguida, quando o aborto
foi feito pelos médicos do Cisam, o arcebispo encheu o peito para
proclamar a excomunhão de todos que dele participaram.
E o padre Lodi ainda levanta a suspeita de que o hospital e os médicos
depois da cesariana devem "ter jogado os fetos no lixo, esperando
que morressem!" Quem escreveu essa carta, se padre ou não,
deveria ter assinado. Para responder a processo por calúnia, injúria
e difamação. Pois ainda diz a pretensa carta que os médicos
"teriam de ter sangue frio para olharem nos olhos de suas duas vítimas
abortadas?" O ator mambembe que engendrou essa carta desconhece os
compromissos do bom médico.
Com essas insinuações cavilosas, teria de ser levado aos
tribunais, para provar o teor das suas leviandades, assacadas contra médicos
e seus auxiliares, assim como contra as mulheres da ONG Curumim.
Tudo isso, além de ser mais um tremendo desrespeito ao Cisam e
aos médicos e equipe que salvaram a menina sem nome, é pura
maldade. São afirmações desastrosas e cruéis.
Grande defeito dos humanos é a dupla moral: pregar uma coisa e
fazer outra. É a moral do "faça o que eu mando, mas
não faça o que eu faço".
Ainda é dito na carta que o aborto é monstruosidade maior
do que o estupro! Quem é capaz de aferir isso? A Igreja, o bispo,
um padre? Como é que eles avaliaram esses sentimentos? - Só
a mulher que foi estuprada pode falar do trauma do estupro. Nem igrejas,
nem bispos, nem padres! Afirmar isso, é chafurdar nas emoções
alheias!
E foram feitas citações de um montão de artigos da
nossa legislação, que nada têm a ver com esse episódio.
Nada pertinentes. Para que esse desperdício? Bastaria haver citado
o Art. 1º do nosso Código Penal, que assim se expressa:
CP - Art. 1º Não há crime sem lei anterior que o defina.
Não há pena sem prévia cominação legal.
Igual enunciado está no art. 5º, inciso XXXIX da nossa Constituição
Federal de 1988.
E nenhuma lei cataloga como crime o aborto praticado por médico,
no caso de gravidez resultante de estupro, desde que haja consentimento
da gestante ou, se esta for incapaz (menor de idade, por exemplo), consentimento
do seu representante legal (no caso em tela, a mãe da menina consentiu.)
Se o bispo e seus defensores têm provas de que houve fraude por
parte das mulheres da ONG Curumim, abram um processo judicial e mostrem
as provas. Mas não escrevam bobagens, tentando defender o indefensável.
Por fim, pergunto: se a mulher incorrer no crime de aborto (CP - Art.
124), ela tem direito a defesa ou deve ser condenada sumariamente, pelas
leis da "santa" inquisição?
José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br
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