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COLUNA
"José
Fernandes Costa" |
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"Saber escrever a própria
língua faz parte dos deveres cívicos.
(Napoleão Mendes de Almeida.)
Não sei se por falta de assunto ou não. Mas sei que voltei a este assunto: língua portuguesa. - Ambíguo, entre outras coisas, é o que comporta mais de uma interpretação. Na fala ou na escrita, é aquilo que não fica claro. E pode dar confusão mental, quando pinta ambigüidade. Michel de Montaigne ensinou esta lição, há mais de 400 anos: "A frase tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: clareza. A terceira: clareza". Nada mudou até os nossos dias. Pelo contrário, com a velocidade das comunicações, a clareza no texto ganhou mais importância. Ela se impõe como a grande qualidade do texto. Porque nós escrevemos para ser entendidos. Daí o esforço que fazemos para chegar lá. Isto é, para nos fazer entender. Os pronomes possessivos de terceira pessoa, seu e sua parecem-nos inofensivos. Mas podem causar estragos, tornando o enunciado ambíguo. Assim, muitas vezes, eles sobram no texto. Vamos a alguns exemplos: "A personal trainer da cantora Madonna revela os segredos de sua forma." Essa chamada está na capa da revista Veja de 19.11.2008. Pergunta-se: os segredos da forma de quem? Nem no texto isso é explicado. Tanto pode ser da preparadora física, quanto da artista. Eis uma das tantas dos possessivos seu, sua, causadores de muitas ambigüidades. Porque, no exemplo acima, sua forma, pode referir-se a uma ou à outra. Escreva-se desta maneira e adeus sentido ambíguo: "A personal trainer de Madonna revela os segredos da forma da cantora". Outra: "O subprocurador encontrou-se com a senadora Roseana Sarney no aeroporto de Brasília. Durante o encontro, ele chegou a ensinar Roseana a utilizar alguns recursos do seu celular." De quem é o celular? De Roseana ou do subprocurador? Para ser claro, o repórter tem opções. Poderia escrever: alguns recursos do celular dele. Ou dela. Tirando o possessivo seu, e as contrações dele e dela, seriam recursos de qualquer celular. De qualquer fabricante. E estaria claro. Mais outra frase ambígua e longa: "Adriana Barreto lembrou que, no telefone, Plácido se referia ao senador em termos cabeludos e impublicáveis - e que, mais tarde, ACM se queixaria a sua mãe pelas palavras grosseiras do namorado." (Revista ÉPOCA, 24.2.2003 pág. 34.) Vejamos: ACM se queixou à mãe de quem? Do próprio ACM ou de Adriana? E de quem é o namorado? Poderia ser namorado do próprio ACM, da mãe que ouviu a queixa; ou de Adriana. Ainda pode ser de outra pessoa!
Outra ainda: "Roberto reivindicou
a Jarbas uma secretaria para acomodar seu filho, Carlos, que pretende
fazer seu herdeiro político, mas o governador não atendeu".
- (Coluna Pinga-Fogo - Jornal do Commercio - Recife, 13.02 2003). A imprensa está cheia de ambigüidades. Com uma vírgula ou simples jogo de palavras, isso pode ser evitado. Duas frases em matéria jornalística servem de ilustração. Ao comentar a prisão de Suzane Richthofen, o jornal soltou esta: “Os longos cabelos, usados após a prisão para esconder o rosto dos fotógrafos e cinegrafistas, estavam divididos em duas tranças”. Enfim, os cabelos escondiam o rosto de quem? Dos fotógrafos e cinegrafistas ou da moça? Portanto, o período poderia ser escrito de várias formas. Fiquemos com esta: “Os longos cabelos de Suzane, que esta usou para esconder o próprio rosto, de fotógrafos e cinegrafistas, estavam divididos em duas tranças”.
Vamos à outra sentença bastante ambígua: “No Dia das Mães deste ano, Suzane teve uma forte discussão com os pais e levou um tapa na cara de Manfred”. Primeiro: a oração dá a entender que o Dia das Mães é só deste ano – e não das mães de todos os anos. Mas o dia é das mães de todos os anos e de todos os dias. Deste ano, dos anos passados e dos vindouros. Segundo: de quem é a cara que levou um tapa? De Manfred ou de Suzane? Vamos escrever de outro modo: - “Este ano, no Dia das Mães, Suzane teve forte discussão com os pais e levou um tapa na cara, dado por Manfred”.
De outra feita, falando na Rádio CBN, o cantor Moacyr Franco produziu esta frase: “Eu já gravei muita coisa mal”. Ficamos sem saber se Franco apenas quis pôr o advérbio no fim da frase ou se pretendia usar o adjetivo mau, ruim. Criou ambigüidade. Querendo Franco dizer que já gravou mal muita coisa, a frase está correta. Mas, se a intenção do cantor era dizer que já gravou muita coisa ruim, má, ordinária, aí ele tropeçou nestas duas palavrinhas que atrapalham muita gente: mal e mau. Mal é o contrário de bem. É advérbio e não varia.
Exemplos: “Às vezes eu gravo bem; outras vezes, gravo mal. E já gravei mal muitas coisas”. “Mulheres mal-amadas são ou foram vítimas de homens mal-educados e malcriados. Enfim foram vítimas de homens de maus bofes”. (*). Ver notas no rodapé.
Por outro lado, mau é antônimo de bom e sinônimo de ruim, perverso. “Essa comida é de mau tempero. O Lucas é um homem mau”. Mau, ruim são adjetivos e variam de acordo com o substantivo. “Esse restaurante serve má comida. Algumas pessoas são más. Homens maus praticam ações más. Manoel amanheceu de mau humor. Seus humores hoje estão maus”. Aqui, uma explicação: Podemos estar de mau humor ou mal-humorados (*).
Portanto, falando ou escrevendo, tenha-se sempre o cuidado pra não gerar ambigüidades. Do modo em que a frase foi posta por Moacyr Franco, criou-se ligeira confusão, quem sabe, erro mesmo, coisa que devemos evitar. Porque ouvintes e leitores precisam saber o que ouvem ou lêem. É preciso clareza. E quando escrevemos, o cuidado deve ser redobrado.
Vejam esta, ainda: "A ONU está à procura de um técnico para ocupar o cargo de diretor daquele centro de estudos sobre a pobreza que vai instalar no Rio". (Ancelmo Gois / Jornal do Commercio - Recife).
- E vão instalar mais pobreza no Rio? Já são tantos os pobres que habitam o Rio de Janeiro! Para derrubar o sentido ambíguo, escreva-se assim: "A ONU está à procura de um técnico para ocupar o cargo de diretor do centro de estudos sobre a pobreza, a ser instalado no Rio".
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