COLUNA "José Fernandes Costa"
 

 


GRAFIA DA PALAVRA “PORQUÊ”







Os termos "que e porque" (assim como quê, por quê e porquê), costumam dar nó em pingo d'água. Não sei por quê. Mas há uns porquês que podem justificar essa avalanche de descuidos. E esses porquês, parece-me, provêm do próprio descuido de quem escreve. Vejamos:

Em sua edição de 27.10.2004, a revista Veja publicou à página 15 (amarelas), esta frase, atribuída à Mônica Dallari: "É um absurdo; não tem porquê esse tipo de comportamento deselegante com você". Essa grafia do porquê, usada por Veja, não bate com a norma-padrão ensinada nas gramáticas. Se foi a Mônica quem escreveu a frase, caberia à revista revisar e publicar de forma adequada. Se o erro foi da Veja, recomenda-se, a título de colaboração, que seus redatores estudem bem as várias formas de grafar esse vocábulo.

Essa cartinha eu mandei pra Veja, àquela época. E eles me contestaram, dizendo que seguiam os manuais da redação. E que o emprego do termo foi correto. Eu mandei dizer, em resposta, que corrigissem o Manual de Redação da revista.

Também, na capa da revista ÉPOCA, nº 268 (julho de 2003) está a chamada:

"PORQUE O ENCONTRO DE LULA COM O MST NÃO VAI REDUZIR O NÚMERO DE INVASÕES, SAQUES E CONFLITOS".

Esses "porquês" querem dizer o motivo pelo qual não se deveria ter sido deselegante com a Mônica Dallari. E o motivo pelo qual o encontro do Lula não iria resolver os conflitos criados pelo MST.

Por essas e outras, vejamos os diversos modos de grafar o porquê:

1. Por que – separado e sem circunflexo, quando:

a) Inicia ou introduz oração interrogativa (não no final da frase). Ex.: Por que foi embora? (interrogativa direta). Não sei por que foi embora (interrogativa indireta). (Está implícito motivo, razão);

b) O que é pronome relativo. Ex.: Não sei a razão por que me ofenderam (por que = pela qual). Os atropelos por que passei foram tantos... (pelos quais passei);

c) O que é conjunção integrante. Ex.: Anseio por que me digas a verdade (por que = para que);


2. Por quê – separado e com circunflexo – quando aparece no final de uma oração interrogativa. Ex.: Você foi embora por quê? Saíste tão cedo, por quê?

3. Porque – junto e sem circunflexo – quando for conjunção (menos a integrante). Ex.: Não veio a festa porque estava doente. Foi embora porque quis (*).

4. Porquê – junto e com circunflexo – quando for substantivado. Ex.: Tens aí o porquê da atitude dela. Não descobri o porquê de tanta grosseria. São tantos os porquês dessa vida velha!

Obs.: Esse porquê, substantivado, há de vir precedido de artigos, pronomes, advérbios etc.: Aquele porquê me intrigou. Na vida dela havia muitos porquês. Entenda o porquê da nossa separação. Você hoje está cheia dos porquês. Um porquê a mais, um porquê a menos, já nem causa estragos.

NOTA - Com os vocábulos “eis” e “daí”, subentende-se a palavra motivo. E justifica a grafia do termo (por que), separadamente.


Exemplo: - Daí por que não cheguei na hora certa (o motivo por que não cheguei na hora). - Eis por que não tenho nada a reclamar (também, o motivo por que nada tenho a reclamar).

(*) - Esse "Foi embora porque quis", estampado lá em cima, no número 3, fez-me lembrar do "Fi-lo porque qui-lo", do doido Jânio Quadros. Na frase do Jânio, o correto mesmo é: "Fi-lo porque o quis".- (Que, qual, quem, que, porque, quando, quanto, atraem os pronomes átonos). Mas notem que esse tipo de construção, hoje, está um tanto fora de moda. Mesmo quando se diz: fi-lo porque o quis, isso soa esnobe. Imagine-se o "Fi-lo porque qui-lo"! Basta dizer: fiz porque quis. Ou fiz isso, porque quis fazer. - É isso./.

José Fernandes Costa

jfc1937@yahoo.com.br