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GRAFIA DA PALAVRA “PORQUÊ”
Os termos "que e porque" (assim como quê, por quê
e porquê), costumam dar nó em pingo d'água. Não
sei por quê. Mas há uns porquês que podem justificar
essa avalanche de descuidos. E esses porquês, parece-me, provêm
do próprio descuido de quem escreve. Vejamos:
Em sua edição de 27.10.2004, a revista Veja publicou à
página 15 (amarelas), esta frase, atribuída à Mônica
Dallari: "É um absurdo; não tem porquê esse tipo
de comportamento deselegante com você". Essa grafia do porquê,
usada por Veja, não bate com a norma-padrão ensinada nas
gramáticas. Se foi a Mônica quem escreveu a frase, caberia
à revista revisar e publicar de forma adequada. Se o erro foi da
Veja, recomenda-se, a título de colaboração, que
seus redatores estudem bem as várias formas de grafar esse vocábulo.
Essa cartinha eu mandei pra Veja, àquela época. E eles me
contestaram, dizendo que seguiam os manuais da redação.
E que o emprego do termo foi correto. Eu mandei dizer, em resposta, que
corrigissem o Manual de Redação da revista.
Também, na capa da revista ÉPOCA, nº 268 (julho de
2003) está a chamada:
"PORQUE O ENCONTRO DE LULA COM O MST NÃO VAI REDUZIR O NÚMERO
DE INVASÕES, SAQUES E CONFLITOS".
Esses "porquês" querem dizer o motivo pelo qual não
se deveria ter sido deselegante com a Mônica Dallari. E o motivo
pelo qual o encontro do Lula não iria resolver os conflitos criados
pelo MST.
Por essas e outras, vejamos os diversos modos de grafar o porquê:
1. Por que – separado e sem circunflexo, quando:
a)
Inicia ou introduz oração interrogativa (não no final
da frase). Ex.: Por que foi embora? (interrogativa direta). Não
sei por que foi embora (interrogativa indireta). (Está implícito
motivo, razão);
b)
O que é pronome relativo. Ex.: Não sei a razão por
que me ofenderam (por que = pela qual). Os atropelos por que passei foram
tantos... (pelos quais passei);
c)
O que é conjunção integrante. Ex.: Anseio por que
me digas a verdade (por que = para que);
2.
Por quê – separado e com circunflexo – quando aparece
no final de uma oração interrogativa. Ex.: Você foi
embora por quê? Saíste tão cedo, por quê?
3.
Porque – junto e sem circunflexo – quando for conjunção
(menos a integrante). Ex.: Não veio a festa porque estava doente.
Foi embora porque quis (*).
4.
Porquê – junto e com circunflexo – quando for substantivado.
Ex.: Tens aí o porquê da atitude dela. Não descobri
o porquê de tanta grosseria. São tantos os porquês
dessa vida velha!
Obs.:
Esse porquê, substantivado, há de vir precedido de artigos,
pronomes, advérbios etc.: Aquele porquê me intrigou. Na vida
dela havia muitos porquês. Entenda o porquê da nossa separação.
Você hoje está cheia dos porquês. Um porquê a
mais, um porquê a menos, já nem causa estragos.
NOTA
- Com os vocábulos “eis” e “daí”,
subentende-se a palavra motivo. E justifica a grafia do termo (por que),
separadamente.
Exemplo: - Daí por que não cheguei na hora certa (o motivo
por que não cheguei na hora). - Eis por que não tenho nada
a reclamar (também, o motivo por que nada tenho a reclamar).
(*) - Esse "Foi embora porque quis", estampado lá em
cima, no número 3, fez-me lembrar do "Fi-lo porque qui-lo",
do doido Jânio Quadros. Na frase do Jânio, o correto mesmo
é: "Fi-lo porque o quis".- (Que, qual, quem, que, porque,
quando, quanto, atraem os pronomes átonos). Mas notem que esse
tipo de construção, hoje, está um tanto fora de moda.
Mesmo quando se diz: fi-lo porque o quis, isso soa esnobe. Imagine-se
o "Fi-lo porque qui-lo"! Basta dizer: fiz porque quis. Ou fiz
isso, porque quis fazer. - É isso./.
José Fernandes Costa
jfc1937@yahoo.com.br
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