COLUNA "José Fernandes Costa"
 



A quem interessar



Nestes tempos de desencontros de muitas famílias, julguei oportuno transcrever carta-desabafo de uma adolescente à sua mãe, que encontrei numa revista.

Ainda que essa carta seja ficção, o autor teve a boa intenção de tentar despertar alguns pais e mães para um dos problemas sérios do nosso dia-a-dia. Esse problema muito sério a que me refiro é a alegada falta de tempo pra conversar com nossos filhos. Falta tempo para ouvir.

É a pouca ou nenhuma disposição para ouvir e sentir. Porque, para muitos, o fácil mesmo é despejar um sermão desastrado sobre os filhos, recheado de pretensas lições de moral. Quase sempre de uma moral dúbia, falsa, hipócrita. É aí onde se insere o grande embuste "do faço o que eu mando, mas não faça o que eu faço" .

Segue a carta:

"Não se zangue, mamãe. Desculpe. Desculpe porque eu preciso desabafar. Eu sei que você está sempre ocupada, supercansada; que você se mata por nós. Que ninguém lhe sabe agradecer. - Mas todos nós lhes somos gratos. Mamãe, não se zangue: nós queremos é você e não seus serviços. - Quem consegue conversar a sós com você? Você ralha sempre comigo: - é o vestido sujo e rasgado, são as mãos imundas, os cabelos despenteados, os objetos esquecidos, o quarto desarrumado. Sempre as mesmas reclamações... inúteis, nem mais as ouço; já sei de cor... - Sabe o que está faltando nesta casa (não se zangue.) - Está faltando é tempo de conversar. Quando volto do colégio, morro de vontade de chegar perto de você e de contar tudo: - as coisas misteriosas que me contaram, meus namoros, meus sonhos de futuro. Mas você está na cozinha, mexendo nas malditas panelas. Eu sei que os quitutes não podem queimar. Mas você sabe que me queima a alma com sua frase fervente de impaciência: "Agora não. Não posso ouvir nada. Daqui a pouco. Espere." - Faz anos que você diz isso. O daqui a pouco nunca chegou. E eu estou farta de esperar. À noite, quando os pequenos ferram no sono, se eu pudesse ficar a sós com você, eu diria tudo: - o livro que me impressionou, os segredos de minha única amiga, até mesmo os meus pecados. Tudo eu diria. - Você nunca se sentou à beira da minha cama pra conversar. Ah! Se você soubesse a desordem que reina no meu coração! Se eu pudesse um dia verificar que meus problemas interessam a você, eu me sentiria crescer. Eu seria boa. Eu me tornaria alguém. Não se zangue, mãezinha. Mas... fale comigo."

Isso pode ser ficção, como eu disse linhas acima. Mas é uma ficção que está diante dos nossos olhos e ouvidos, espelhando uma realidade cruel. E essa realidade perversa não está nas casas humildes das periferias. Está nas grandes moradias de pedra e concreto. Moradias que serão sempre moradias de pedra e concreto. Nunca serão lares. Porque lar tem significado bem diferente de casa: lar tem aconchego, tem diálogo, tem espírito de família. Tem alegrias, tem tristezas, mas acima de tudo, tem amor e compreensão.


José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br