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Milton Cavalcanti
 

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O episódio do estreito


Com a renúncia de Jânio Quadros, a tentativa golpista de impedir a posse do vice-presidente eleito João Goulart provocou o movimento de resistência liderado por Leonel Brizola, cunhado de Jango e governador do Rio Grande do Sul. O apoio imediato dos ofici-ais comandantes do Terceiro Exército à posição do líder gaúcho gerou, em todo o país, um clima de expectativa e apreensão, pois havia rumores de que as tropas gaúchas começavam a deslocar-se em direção a Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Noticiava-se, também, que os militares golpistas, com predominância na Marinha, preparavam, em Florianópolis, a re-sistência armada para barrar as forças do Terceiro Exército na sua marcha para o norte. Ha-via informações, depois confirmadas, de que o cruzador Almirante Barroso e o porta-aviões Minas Gerais deslocavam-se do Rio de Janeiro em direção ao Sul.

A batalha da informação começou violenta. Alguns jornais importantes do país – com desta-que para O Estado de S, Paulo - tomaram posição imediata, ostensiva ou disfarçada, em fa-vor do golpe e as notícias que publicavam sofriam o influxo dessa tendência. A cadeia dos jornais Última Hora, conhecida em todo o país pela intransigente posição que sempre ado-tou na defesa do Governo João Goulart e pela simpatia manifesta ao movimento legalista de Brizola, não tinha correspondente em Florianópolis. Delegou à sucursal do Paraná da Última Hora de São Paulo, a responsabilidade de fazer a cobertura dos acontecimentos. Mais uma vez, por razões de economia empresarial, refletida em permanente esforço para reduzir cus-tos evitando o deslocamento de dois profissionais para uma mesma cobertura, minha con-dição de redator e fotógrafo presidiu a escolha para cumprir a missão.

Fretamos um taxi aéreo para levar-me até Itajaí. Saímos do aeroporto do Bacacheri e regres-samos meia hora depois. As condições do tempo não permitiam sequer a aproximação do território catarinense. Decidi viajar de taxi. Foi difícil conseguir um motorista que topasse a aventura. As notícias sobre um provável conflito na região já se espalhara em Curitiba. Fi-nalmente, o motorista e dono do taxi que, diariamente, levava ao aeroporto Afonso Penna os malotes com matérias produzidas na sucursal para despachá-las, via aérea, para a redação de São Paulo, aceitou o desafio. Nicolau era um eslavo experimentado, que migrara da U-crânia para Curitiba, com a família, após a Revolução Bolchevique. Disse que já passara por situações semelhantes e não tinha medo.

Viajamos tranqüilamente, sem nenhum contratempo. Em Itajaí, hospedei-me no Hotel Palace, deixei minha bagagem no apartamento que alugara, e passei a viajar de ônibus. A primeira parada foi em São Francisco, pois além da missão jornalística tinha outra tarefa a cumprir. Um grupo de oficiais legalistas da 5a Região Militar, sediados em Curitiba, todos os dias re-unia-se na redação do jornal à procura de informações sobre a situação política. Um dos cabeças, o cel. Cairoli – que foi o primeiro diretor da Polícia Federal quando o Jango, depois de assumir, criou essa corporação em Brasília - não sabemos como, tomou conhecimento da minha viagem e pediu para fazer uma reunião comigo. Nos encontramos na redação. Ele sondou minha disposição para, paralelamente ao trabalho para o jornal, realizar uma pes-quisa nos quartéis que encontrasse no caminho – São Francisco, Blumenau, Itajaí e Floria-nópolis – e ver se identificava a postura dos comandos, a favor ou contra a posição dos golpistas do Alto Comando do Exército, em Brasília. “Conhecemos sua posição nacionalis-ta, refletida no que escreve em suas colunas no jornal, e por isso nos atrevemos a lhe fazer esta consulta”, interpelou-me. “Qualquer que seja sua decisão, nós a respeitaremos; esteja á vontade para decidir”, finalizou.
Aceitei a missão e tentei cumpri-la. Em São Francisco, foi muito fácil. Soube, por intermédio de alguns colegas da imprensa catarinense, que um jornalista de Curitiba, do jornal O Esta-do do Paraná havia chegado na cidade, no dia anterior, e começara a fazer perguntas. Nas proximidades do quartel foi “convidado” a entrar e, segundo notícias filtradas para fora, a-inda estava por lá. Oficialmente, não recebera nenhuma ordem de prisão. Mas lá continuava, quando da minha passagem, “detido, para averiguações.” Imediatamente deduzi a posição do comando: era um ninho de golpistas. Não pude fazer um desvio até Blumenau. As cir-cunstâncias excepcionais geradas pelos boatos tornavam tudo muito difícil. Achei que iria atrasar demais a viagem, e provavelmente comprometer o objetivo principal de minha mis-são, que era a cobertura jornalística dos acontecimentos em Florianópolis.
Finalmente, voltei para Itajaí. Deixei toda minha bagagem no hotel e, com uma pequena ma-leta de mão, minha “Triumph”, a máquina de escrever alemã super portátil que sempre me quebrava o galho nas viagens, e a velha Rolleiflex tomei um ônibus para Florianópolis. Desci antes da travessia da ponde Hercílio Luz, no bairro do Estreito, onde, na época, existia o quartel do 24º Batalhão de Caçadores. Circulei em volta do quartel, “rolleiflex” de prontidão pendurada ao pescoço, e comecei a tirar fotografias. Súbito, uma mão no ombro. Era um soldado, graduado – cabo ou sargento, não sei dizer - metralhadora em punho, que delica-damente me interpelou:

- “O senhor está tirando fotografias do quartel! Para que?”
- “Sou jornalista”, respondi
E ele: “O comandante quer falar com o senhor”.

Seguimos para o quartel. Lá chegando, fui levado até a ante-sala do comando, onde esperei cerca de meia hora aguardando a entrevista com o coronel comandante. Nesse meio tempo, comecei a pensar. E agora?, Será que o homem é golpista ou legalista? Como vou apresen-tar-me? Lembrei-me da informação que havia recebido, em São Francisco, sobre o destino do jornalista do “Estado do Paraná”. Eu sempre trabalhava com duas identidades profissio-nais. Na carteira de dinheiro, no bolso da camisa, o cartão de correspondente, no Paraná, da revista Visão. Junto com outros documentos, no bolso traseiro da calça, a carteirinha de identidade da Última Hora. Decidi jogar a sorte quando enfrentasse o comandante. Quando ele atravessou a porta entre seu gabinete e a ante-sala, e veio em minha direção, apelei para a intuição. Pelo jeito, cara de durão - não digo mal encarado, mas sisudo e com aquele ar majestático de alguns chefes militares - deveria ser golpista.
Apresentei-me: “Milton Cavalcanti, jornalista de Curitiba.”
Perguntou: “De que jornal”?
Puxei a carteira de dinheiro do bolso, tirei a identidade da Visão, entreguei-lhe, e respondi:

Correspondente da revista Visão no Paraná”.
Sua expressão mudou. Tornou-se amável. Sorridente, ofereceu-me café. Perguntou para onde estava indo. “Florianópolis”, respondi. Fez alguns comentários, leves indefinidos so-bre a situação política, desejou boa viagem e mandou que um soldado me escoltasse até a saída do quartel.
Em Florianópolis, descobri o risco que havia corrido. Durante seis dias, a partir do noticiário que passei a encaminhar por telefone para o Rio de Janeiro e São Paulo, além das sucursais de Curitiba e Porto Alegre, fui rastreado por oficiais do Serviço Secreto da Aeronáutica, que tentaram entrar no meu quarto do Hotel Othon, e fui caçado por agentes da DOPS, da Polícia Civil de Santa Catarina. Era uma ação clandestina, realizada sem conhecimento do governo catarinense a pedido do Comando do 5º Distrito Naval, que liderava o movimento golpista na capital catarinense.

Já no primeiro dia, alertado pelos jornalistas Salim Miguel e Ilmar Carvalho, da Assessoria de Imprensa do palácio Cruz e Souza, recebi a proteção do chefe da Casa Civil do governo Celso Ramos – que era irmão do governador e apoiava Brizola na luta pela legalidade. Pas-sei e fazer refeições na Casa Civil do governo caratinense. Dormia no alojamento dos milita-res que faziam a guarda do palácio, em uma espécie de porão, em um colchão estendido no chão – aparentemente limpo, pelo menos. Só saía acompanhado por algum funcionário de alto nível do governo. Com esse apoio, fiz a cobertura dos acontecimentos de Florianópolis para a rede nacional da Última Hora até o dia em que, uma semana depois, Jango tomou posse e o movimento golpista embainhou a espada - provisoriamente, até o fatídico 1º de abril de 1964. A história detalhada desses sete dias ainda pretendo contar.


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