" Carlos Sena"

SUA MAJESTADE O "OI".


Que maravilha o homem moderno inventou pra se comunicar: 'OI'. Como aglutina sentimentos, congratulações; como congrega o idioma pelo poder de síntese: é reticências..., se for o caso de se dizer nas entrelinhas; é exclamação se ocorrer ânimos exaltados; é vírgula para as pausas da conversação temerosa, ou para uma breve respiração do interloculotor; é interrogação, quando a gente finge que não entendeu ou, entendendo, dá uma de sabido além do que a conversa estabelece; é hifen, pela intenção de quebrar o gelo de uma conversa que parece 'ter dado o que tinha de dar'; é trema, quando se quer colocar os pontos nos 'IS' ou a rima dos 'US'; é ponto quando se quer estabelecer um limite: 'È' de Millor Fernandes, lembram?; é ponto final quando todas as alternativas falharam e a gramática nos pareceu insuficiente para o estabelecimento de uma comunicação eficaz ou não, como diria Caetano. Finalmente, 'OI' é 'dois pontos': a tudo se permite depois de sonoramente pronunciado: 'OOOOOOOOOOOOOOOI'?!,.:;- Que descoberta do mundo moderno é o 'OI'. Parece caber em qualer lugar da comunicação, especialmente quando utilizada pelos mais jóvens - há qualquer coisa de intimidade entre eles, a internet e o OI, talvez pela pressa exigida em tudo, pela sociedade de consumo. Não obstante, o chamado 'internetês' é uma invenção legítima dos internautas que, majoritariamente, têm pouca idade, em que pese as excessões.

Mas acho mesmo que essa forma de reduzir palavras tenha sua função, haja vita VC (você), TB (também) ADD (adicionar) só para citar algumas que eu tenho mais intimidade. Por isto acho o 'OI' original. Vai-se reduzir o quê? Ó PAÍ Ó - título de fime que virou seriado de televisão e que duvido alguém de outro país, mesmo que esteja estudando nosso idioma, entenda isto! 'Mas é nenhuma', como se diz nas rodas, referindo-se a 'tudo bem'. Ora, se 'é nenhuma' não é nada, mas o interlocutor que se vire pra compreender o significado. Com o 'OI' é diferente porque é original e antológico.

Como nome de telefonia celular, nada mais singular. Concorre com o tradicional 'alô' - muitas pessoas já estão atendendo ao telefone com um 'OI, quem fala'?

Repenso: não haverá nenhum aspecto do 'OI' que contrarie sua versão usual tão em moda? Outro dia adentrando no Hospital da Restauração de Pernambuco, o que mais se ouvia dos pacientes era 'OI, doutor, tá doendo'; 'OI' de dores mil era o que mais se ouvia naqueles corredores cheios de sofrimento. Mesmo alí, o danadinho não perdia a pose: estava lá, conciso, preciso e pronto. Já pensou se no lugar do 'OI', os pacientes chamassem pelo nome do médico ou do enfermeiro? Não tinha impacto nenhum igual ao que o 'OOOOOOOOOOOOOOOOOI' proporciona. Até porque talvez a maioria dos profissionais de saúde da nossa rede pública nem faça questão de serem chamados pelos nomes, porque poderia despertar um sentimento mais humanitário que eles nem sempre têm interesse em estabelecer. As excessões se justificam pela regra, fazer o quê?

CARLOS SENA, dos arre(DORES) de BOA VIAGEM.