" Carlos Sena"


A LEVEZA DA PENA E A DUREZA DO BARRO


O Recife está lindo. Carlos Pena Filho deve estar feliz, pois, sua cidade, embora ainda cheia de mazelas, melhorou muito nestes oito anos de governo de um metalúrgico chamado João Paulo. Como o Presidente Lula, o nosso prefeito contrariou todas as teorias sociopolíticas que, não raro, defendem o poder público na lógica das elites. Carlos Pena, por que você não está aqui pra ver sua cidade voltar a sorrir? Lembra que num dos seus versos você se expressou "AMAR MULHERES, VÁRIAS. AMAR CIDADES, SÓ UMA, RECIFE"?.

Faço minhas as suas palavras, até porque sou Carlos e não sendo Pena tenho Barros e também me atrevo a escrever poesia. Talvez seja mais fácil amar MULHERES, pois a natureza por si só já ajuda - ninguém ignora o poder sedutor delas e seus dons, inclusive o da ilusão do amor fresco, único, exclusivo. Você poderia hoje ver um Recife mais azul - sua cor preferida e definida nas suas entrelinhas tão bem costuradas de lirismo e paixão.

Recife libertária talvez tenha sido o grande mote da sua paixão. Pra mim também com sua licença, pois sendo Barros me faço argila nesta reconstrução teimosa dessa prova de amor por esta cidade que adotei. Bom Conselho não me recrimina, pois ela sabe que foi de lá que trouxe a argamassa que me permitiu morar em Recife, trabalhar em Brasília, inclusive palestrando sobre gente pelo país afora, até mesmo na mais conceituada universidade brasileira, a UNB. De volta, lembrei de você, Carlos Pena. De Luiz Bandeira: "voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço, quero ver novamente Vassouras passando, tomar umas e outras e cair no passo"...

Pena. Não dó. Não nota musical. Sobrenome apenas teu. Recife, às vésperas de uma nova eleição mais parece uma moça bonita que a todos encanta (como a lua ) e não é de ninguém. Esta cidade vive momento ímpar: um prefeito que veio do povo, um governador com a chancela de Miguel Arraes e um Presidente da República retirante e pernambucano lá pertinho de Bom Conselho. Garanhuns fica vizinha e a gente que não é bobo - fica meio "pabo" e logo tira uma lasquinha da terra do Presidente Lula.

Este é o novo contexto desta terra de altos coqueiros; de tantos poetas e de tanta vanguarda no cenário nacional. Há pena também. No sentido de dó, pois não podemos mais curtir o bucolismo das nossas ruas e becos, pois a violência se embrenhou em nossa juventude e já não há notívagos como antigamente. Isto a parte, melhor amar mulheres? Mais fácil, talvez. Mesmo com tanta burguesia falida querendo permanecer mamando nas tetas do poder, João Paulo fará seu sucessor para o bem da grande maioria de recifenses que voltou a se orgulhar da terra em que nasceu.

Não pense, Carlos Pena, que sua cidade é um céu. Até porque eu ainda não morri pra saber, mas você que já passou para o lado de lá pode nos ajudar nesse contexto. Deixa quieta essa parada porque o amor se consubstancia na ilusão e ela, com certeza é azul e termina conduzindo ao céu. Sua cidade é um sentimento que não se explica - "invade e fim" como diz Djavan numa canção.

Qual é a cor do sentimento? Responde, Carlos Sena. Tem a cor do som sem acordo. E é por isto que o nosso João Paulo vai fazer seu sucessor João da Costa. A oposição está morta, ou bége, ou cor de burro quando foge... "Sossega, Carlos. Porque hoje é domingo, amnhã é segunda e na terça-feira ninguém sabe o que será" (penso ser de Carlos Drummond de Andrade).

Concluo: melhor amar mulheres - elas têm em si toda a construção do transitório. As cidades, não. Porque é do sonho dos homens que elas são inventadas, com sua licença, Pena. Segundo Cazuza, o nosso amor a gente inventa...

Pra hoje, o sonho. Contrariando os pesadelos desse cotidiano tão inseguro e cheio de alternativas. Há quem diga que somos uma sociedade "al - ter - na - tiva". Em seu sentido mais cruel de ser: falta de limites e cada um fazer o que quer. Penso que até se pode fazer o que ser quer desde que se respeite o limite do outro. Talvez neste sentido "alternativa" faça sentido. Porque o grande objetivo da vida é que cada um não passe por aqui na lógica de espermatozóide ambulante. Todos temos que entender que o preconceito é filho legítimo do que não conhecemos e, mesmo assim, conceituamos a esmo. Daí o PRÉ-CONCEITO - essa praga que contraria os nossos dois mil anos depois de cristo, já na era do conhecimento, mas claudicando em sentimentos pífios de rancor e ódio. E isto se configura um atraso em relação a paranóia tecnológica que dispomos em nosso favor individual. Isto porque no coletivo, pouco se depura de ganho nas relações interpessoais. Ciúme, traição, derrubada de tapete, falsidade disfarçada em riso amarelo, relações de interesse financeiro, maquiavelismo exacerbado. Tudo isto representando contra o azul: sua tenacidade, calma, autonomia. Pena, que pena, como diria Peninha em uma de sua canções. Mais tarde será novo pra Recife. Sairá o resultado da eleição daquele JOÃO QUE FICARÁ NO LUGAR DE JOÃO PAULO.

O RECIFE CRUEL romperá com esse paradigma de que nunca um prefeito fez seu sucessor. Talvez nunca tenha feito porque nunca um sucessor proposto por grandes pequenos prefeitos iria enganar o povo. Agora, Carlos, a coisa é diferente. Tua cidade azul é a bola da vez (usando a linguagem da moda) nessa trilogia imbatível envolvendo os três níveis de governo.

Em sendo eleito, João da Costa terá pela frente novo embate. Terá que ganhar no tapetão articulado pela oposição "bége" com a capacidade transformadora de um político de natureza humilde que elevou nossa terra ao lugar de onde nunca deveria ter saído: subtraído por "eles"... "Prefiro não comentar", pois não gosto de gastar vela boa com defunto ruim.

Ajude-nos, da abóbada azul que lhe protege nos andares dos céus, para que possamos ter esperança de poder repetir tua verdadeira ode a esta cidade: "amar mulheres, várias. Amar cidades, só uma: Recife".

Certo que Bom Conselho vai me entender, fico feliz. Porque ao amar Recife, amo minha terra a quem meu BARROS DE SENA se configurou em pedra e cal dessa minha constução técnica, científica, lietrária e fraternal.


CARLOS SENA, dos arre(DORES DE BOA VIAGEM)