|
"CONTOS
EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros |
|||
|
A REMIÇÃO - Por José Tenório de Medeiros
Trinta anos se passaram, Dagoberto continuava na mesma vidinha de incompetência, tudo que fazia dava errado, era na verdade um inútil, isso dito pelos que o conheciam. Não tinha uma profissão digna. Infernizava os freqüentadores dos bares da localidade, jamais pagou um trago da branquinha para um amigo, se é que o tinha. Muito astucioso, fingia não ter um centavo no bolso, na verdade era um bigorrilho, quem não o conhecia pensava estar lidando com um trabalhador honesto.
As vezes aparecia com o rosto inchado, os conhecidos diziam ele ter escorregado numa casca de banana e batido com a cara num poste. Quando pensamos estar sozinhos sempre tem um par de olhos nos observando como um arrimo, uma sustentação impedindo-nos mergulhar num atoleiro.
O jovem não tinha na mão o que passar para outra, eram lisas só os pratos da banda repercutindo sons estridentes. Dizem os entendidos que o ser humano é o produto do meio em que vive. Não se justifica o procedimento de Dadá (como era conhecido), embora tenha passado sua infância na zona do baixo meretrício, servindo às prostitutas como garoto de recados e outros pequenos serviços. Mas, ali, também, vamos encontrar pessoas de coração nobre, estão ali por um acontecimento infeliz na vida.
Nas cidades do interior a zona é fora do perímetro urbano, essas jovens senhoras, moradoras nesses bordéis eram proibidas pela polícia, a pedido dos lojistas, achegarem-se a esses estabelecimentos. Daí ter alguém para pequenas compras.
Nenhuma esperança fundada em supostos direitos, probabilidades ou promessas de uma nova vida chegavam até Dadá. Cada dia chafurdava-se no lamaçal do vício, mendigar era a sina desse pária vagabundo. Nesse estágio da vida, seus conhecidos e amigas dos bordéis que freqüentava afastaram-se dele. Maltrapilho, sujo e doente foi morar numa tapera abandonada nos arredores da cidade. Saia todos os dias pela manhã; batia de porta em porta a fim de pedir um prato de comida. As vezes todas as portas se fechavam para ele, nessas ocasiões clamava pelo Santo Nome de Jesus.
Fazia
alguns dias que não saia de casa, estava com fome, sede e frio.
Fez uma pequena oração ao Senhor, nesse momento sentiu
que alguém lhe agasalhava com um grosso cobertor, uma voz angelical
falou – ‘Dadá toma esse prato de sopa quente para
revigorar suas forças. Deixei a prostituição alguns
meses, faço parte de uma organização que cuida
dos caídos. Essa noite amigo, sonhei com você, no sonho
uma voz mandou procurá-lo e dizer que Deus quer restaurar sua
vida, nunca tirou os olhos de você, que eu fosse seu Anjo de Guarda
na terra lhe devia em vidas passadas essa ajuda, chegou o momento de
resgatar esse débito. Fim. Maricá,27/03/2009.
|
|
|||