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"CONTOS
EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros |
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O SEMINARISTA – por José Tenório de Medeiros
Sentado na varanda da casa de seu pai, olhava naquela noite escura o firmamento todo estrelado, surpreendeu-se com o pensamento que surgiu do fundo do seu ser questionando a existência de Deus. Como bom cristão jamais deveria agasalhar em seu coração tamanha heresia. Achava-se tomado pelo satanás, tinha que ir se confessar ao vigário tão logo ele voltasse da visita que fora fazer ao bispo da sua diocese. Mesmo assim, cheio de culpa devido o pensamento imprudente, continuou olhar para a abóboda celeste. Falou com o Cristo de Deus implorando seu perdão.
Assim era Maurílio, um fervoroso católico romano, conhecido na cidade como O Sacristão. Era o braço direito do padre, ajudava-o em todas as cerimônias da igreja, muito jovem demonstrava uma verdadeira vocação religiosa. Filho único de pai endinheirado, sua mãe tinha falecido meses depois de seu nascimento, fora criado pelos avôs e faziam gosto que o jovem seguisse o sacerdócio.
No início do ano letivo, quando o seminário abriu suas portas centenárias para receber os seminaristas de volta das férias, Maurílio se apresenta ao Reitor com uma carta de recomendação do pároco da sua cidade. Muito bem acolhido pelo diretor, em vista do vigário gozar de grande consideração naquela casa do santo saber, Maurílio junta-se aos novos amigos.
Foi um aprendizado de muitos anos, com renúncias, sacrifícios, orações, jejuns para poder se equilibrar e por em ordem seus pensamentos de jovem que conheceu um pouco os prazeres do mundo tendencioso. Nos primeiros meses de interno, foi preciso uma nova avaliação do seu novo mundo dentro daquelas paredes frias, sem carinho dos familiares. Dali por diante teria que executar suas próprias vontades, dirigir sua vida desde o acordar ao deitar, os paparicos só fora do seminário no período das férias.
A disciplina do seminário lhe fez muito bem, acordar cedo para assistir a missa, depois o desjejum, colégio e, na parte da tarde, estudo até a hora do jantar. A noite até as vinte horas recreação, estudo até as vinte uma e trinta depois dormitório. Rotina observada por todos os internos.
Aos vinte e quatro anos Maurílio faz os votos para o diaconato, período de adaptação para o sacerdócio, eram as segundas ordens sacras. Foi designado para dar assistência, nos fins de semana, a uma paróquia da diocese. Não só era coadjuvante na celebração da Santa Missa, como era o celebrante dos batizados da igreja. Para finalizar seus domingos, ia fazer algumas visitas às pessoas doentes levando a comunhão, a noitinha estava de volta ao seminário.
O diácono Maurílio era um estudioso da doutrina religiosa, filosófica e científica fora do cânon católico. Após sua ordenação foi convidado pelo Vaticano fazer uma palestra sobre as religiões apócrifas com uma duração de três horas. Ao terminar foi aplaudido de pé por uma assistência composta pelo Papa e demais autoridades eclesiásticas.
A última notícia que se teve do padre Maurílio, ao longo desses anos fora da sua diocese, é que fazia parte do Sacro Colégio como Cardeal e pessoa de confiança do Papa. Fim. Maricá, 06/04/2009.
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