"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 

O ANIVERSÁRIO - por José Tenório de Medeiros

 

Caminhava vagaroso o mês de abril quando Dagoberto se lembra do aniversário da mãe, ele nunca guardou datas, foi necessário perguntar ao pai o dia do evento. Dalí á dois meses sua mãezinha completava 80 (oitenta) anos de existência laboriosa. Ela merecia uma festa do maior estilo e não fazia por menos essa comemoração. Tinha certeza pelo seu estado de saúde seria seu último ano de vida. Chamou seu pai para uma conversa sobre o assunto. Depois de tudo acertado com o velho pai, começou a reforma do alpendre onde ia acontecer toda comemoração programada. Entre outras coisas, seria celebrada pelo bispo da Diocese a missa cantada com a participação de um coral de seminaristas de um convento da capital. Ia ser aberto um espaço na missa para e renovação dos votos matrimoniais do casal.

O tempo era escasso para tantos quefazeres, desde a reforma ou a construção de um novo alpendre, toda decoração da casa e o que fosse aparecendo para a ornamentação da residência. A ordem era não se poupar dinheiro, tudo deveria ser do bom ou do melhor. Para isso a fazenda com mais de vinte mil cabeças de gado dava para cobrir qualquer gasto, fora outra propriedade com muitos alqueires com plantação de café.

Dagoberto contratou uma firma empreiteira para acompanhar todos os trabalhos da reforma, pintura e decoração da casa. Fazia questão de ser consultado em todos os procedimentos, nada ali seria feito sem apor seu jamegão. A obra corria a todo vapor, o trabalho estava sendo feito em faina diuturna de oito horas cada turno, com uma parada para o lanche de quatro em quatro horas com duração de trinta minutos. A ordem do dia era trabalhar, só trabalhar, nada mais que trabalhar na reforma. Cada dia aparecia uma coisa nova a ser feita, até se cogitava à construção de uma capela ao lado do alpendre, sendo a padroeira do santuário Nossa Senhora do Bom Conselho.

Os dias corriam céleres, aproximava-se o dia da solenidade, vinte dias antes da grande festança foi á vez de se pensar nos comes e bebes. Uma firma especializada nesses eventos foi convidada para o preparo de todo tipo de guloseimas, de cada espécie no mínimo quinhentas unidades, não podia faltar comida e bebida, as sobras seriam encaminhadas aos diversos asilos da cidade. Oito dias para a festa começou chegar móveis, cortinas, louças, sobretudo para o serviço da copa.

Enquanto a casa estava em reforma, Dagoberto com seus pais foram passar esses dias na fazenda. Finalmente chega o tão esperado dia. Pela manhã após o desjejum, a família é transportada de carro para a cidade. Ao chegarem a casa foram recebidos com um espetáculo pirotécnico. Ao saírem da capela começa a verdadeira festa com muitas brincadeiras, com palhaços e malabaristas de um circo. Após o almoço o divertimento continua com outros atrativos. Á noite o grande baile no salão nobre.

Foi uma festa memorável, toda sociedade local estava presente, nos dias que se seguiram os comentários versavam sobre a elegância da anfitrioa e o requinte da festa. Dois anos depois Dagoberto é acometido de uma doença pulmonar, por ter falecido não pode acompanhar os restos mortais dos velhinhos que ainda duraram alguns aninhos. Maricá, 14/05/2007.