"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 

O GRUPINHO DE AMIGOS – por José Tenório de Medeiros

 

Estava uma noite chuvosa e fria, Renan estava agitado com os nervos a flor da pele, sentia-se preso nas quatro paredes do escritório em sua casa sabendo lá fora cair um verdadeiro dilúvio, as ruas cobertas de água. Era a segunda vez na semana que deixava de ir ao clube porque São Pedro abrira as comportas do céu, esquecendo-se que cá embaixo a prefeitura estava sem verbas para terminar o serviço de canalização de águas pluviais, embora o comentário que circulava era que o dinheiro fora desviado para outras obras.

No dia seguinte o sol apareceu prenunciando um dia lindo de domingo. Cada um com seus afazeres desde manhã cedo o rebuliço dos empregados da casa procuravam fazer o melhor. A cozinheira na sua correria frente ao fogão estava de olhos bem abertos ao fritar os camarões que o patrão gostava de degustar com algumas doses de uísque. Naquela manhã o patrão ia receber alguns amigos para uma disputa de sinuca. Ela sabia que tinha de caprichar na comida, dessa vez as esposas dos convivas e a noiva do patrão faziam parte da mesa consumível. Como era especialista nas coisas que vinham do mar, preparou um guisado de peixe feito com variadas espécies deles, em muitos lugares era conhecido como caldeirada. Acompanhava um arroz branco, com pirão e rodelas de laranjas. O almoço foi servido ás 14 horas, alguns convidados estavam bem alegres com tantos aperitivos e os camarões ao alho e óleo muito saborosos. Voltaram para suas casas quando já quebrara a força do sol.

As quartas-feiras e sábados esse grupinho de amigos se encontravam no clube a fim de discutirem quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha. O que eles queriam mesmo era beber todas, fumando um bom charuto cubano. Suas mulheres comentavam sobre a moda do próximo verão, e de quando em vez meter a "lenha" numa amiga que deixou de comparecer ao sarau. Tudo faz parte de uma sociedade desumana, cruel e milenar. Certamente Renan sabia Por experiência própria ser aquele um ambiente enganoso, no entanto era esse o ambiente que gostava de conviver, pessoas de linhagem nobre é que freqüentavam o clube, para tanto era necessário ser indicado por um sócio e comprar uma cota-parte de valor altíssimo, com a mensalidade correspondente a quatro salários mínimos atualizados. O clube era um desbunde, oferecia todos atrativos que um sócio necessitava para seu entretenimento e da família.

Cada domingo o almoço era servido na casa de um deles, o ritual era sempre o mesmo, porém o que estabelecia diferenças era nos pratos a serem servidos, ficavam a critério do anfitrião. A diretoria do clube em algumas datas oferecia um churrasco aos associados. Era mais uma reunião política, a fim de integrar mais o quadro social. Mesmo assim os grupinhos se procuravam, talvez fosse uma questão de coincidência de gostos ou alguma afinidade familiar.

No início do mês de novembro Renan desfez o compromisso de noivado por questões desconhecidas; foi o prato do dia para as bisbilhoteiras se fartarem nos disse-que-disse nos saraus do clube e em outras festinhas. O jovem, dias depois, vai fazer uma turnê para conhecer todo litoral brasileiro com suas lindas praias. De lá esticou a viagem até a França, queria visitar algumas cidades históricas. Demorou alguns meses nessa caminhada, dando tempo para seu coração esquecer aquele amor. Maricá, 26/05/2009.