"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 

O FILHO DO FAZENDEIRO – por José Tenório de Medeiros

 

 

Nestor recebeu através da Faculdade de Odontologia o convite de uma ONG (Organização não governamental), para no final do ano, em que ia diplomar-se em cirurgião-dentista, ir trabalhar durante dois anos no interior do Estado do Amazonas, num projeto experimental de uma série a ser realizada de medidas preventivas contra doenças da boca. Esse trabalho ia acontecer junto aos povos indígenas, e quando necessário, atender as comunidades ribeirinhas.

O pior era afastar-se do seu velho pai por tanto tempo. Também, ia ficar longe da civilização, isso o preocupava muito, não sabia viver longe dela. Pediu um tempo para pensar, queria contatar pessoas que conheciam a região ou já viveram essa experiência. Afinal não ia pelo dinheiro não precisava talvez um espírito aventureiro estivesse falando mais alto. Comentou com o pai, não aprovou a idéia. O jovem universitário sabia que aquela gente necessitava de assistência social não só odontológico, mas o governo talvez fizesse questão de ignorar essas necessidades.

Era final do outono e início da estação mais fria e chuvosa da zona da mata. Comentava-se que o inverno nesse ano seria muito rigoroso e as pessoas se prevenissem para possíveis tempestades regionais com inundações afetando as plantações e os animais. Não deu outra, na primeira quinzena de julho a água caia desastradamente sobre tudo e todos. A natureza pôs em pandemônio todo território.

Certa manhã, o pai de Nestor foi internado num hospital com uma pneumonia aguda, vindo a falecer dias depois. Todos os planos feitos pelo jovem se desmoronaram, foi necessário trancar a matrícula do segundo período, seria seu último ano na faculdade.

Foram meses de recordação do querido pai, dias e dias no embalo de uma rede, ou debruçado no peitoril da janela absorto em pensamentos infantis. Quando ainda menino ficava com os pais no terraço vendo o tempo passar. Aos dezoito (18) anos perdeu a mãe, e agora aos vinte cinco anos (25) o pai o deixou para sempre. Como filho único estava sozinho naquele espaço de léguas e léguas de terras com plantações de café, feijão, milho, batata, macaxeira e mandioca para fazer farinha. Alguns colonos faziam parte da sua vida, da sua história. Desde pequeno acompanhou o pai na colheita do café. Convidou um colono para capataz com experiência no trabalho do cultivo da terra, a esposa para a cozinha e a única filha para os serviços gerais da casa.

Nestor a noite sentia-se só, os empregados iam cansados para suas casas depois de um dia laborioso no campo. Quando não estava lendo ia para frente da televisão esperar o sono chegar. Sentia falta de uma companheira para alegrar suas noites. Passava os fins de semana na cidade, zanzava nas festinhas a procura de uma jovem que o agradasse. Passou a observar a filha do capataz, gostava daquele molejo nos quadris e as pernas bem torneadas, uma pele clarinha suave como o veludo, com os olhos negros cheios de ternura, quando sorria aparecia aquela fieira de dentes alvinhos como a sua alma. Os dias passavam correndo, bem lá na frente vamos encontrar, ela, a filha do capataz, aos pés do padre, jurando a Nestor eterno amor. Maricá 01.06.2009.