"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 

UM GRITO NA NOITE



Ecoa um grito na madrugada, uma mulher pede por socorro, várias luzes nas casas próximas ficam acesas. Aquele grito debilitado torna a se repetir, várias pessoas correm para a casa de onde vinham os gritos. Uma jovem toda ensanguentada se contorcia em dores, nos últimos estertores da morte sussurrou - ' cuidem do meu filho querido '.
Luciano ficou sob a guarda de uma família sem filhos, que legalmente o perfilhou. Era uma criança branca, loura, de olhos verdes. Com a morte da mãe não se soube o nome do pai, também não ia fazer muita diferença. Meses se passaram, o pai de Luciano pede transferência para uma cidade num outro Estado, o passado da criança ficou esquecido.
Dizem os entendidos das leis da vida que, a criança ainda no ventre da mãe, tem todas as percepções das emoções dela. Parece que, aqueles últimos instantes do seu nascimento ficou gravado no mais íntimo do seu ser. Luciano não era uma criança problemática, notava-se, contudo, uma tristeza no seu semblante. Seus pais jamais conseguiram penetrar no âmago da sua alma.
Assim cresceu...
Quando criança frequentou o melhor centro cultural da cidade. Apesar de ser um menino arredio, não dava oportunidade para que seus colegas de classe tirassem melhores notas, era um verdadeiro fenômeno de inteligência.
Ao atingir a adolescência, com o convívio dos pais que dispensavam maiores atenções levando-o às festinhas de aniversário dos colegas e, incentivando-o aproximar-se das jovens de sua idade, fez que Luciano ficasse mais extrovertido.
Ao completar 18 anos, seus pais adotivos fizeram a maior festa, preparando a chácara para receberem os inúmeros convidados para a festança.
Aos 21 anos o jovem estava cursando o terceiro período na faculdade de medicina. Nesse tempo namorava firme uma guria da sociedade local, namoro que tinha a aprovação das duas famílias. Maura, uma linda mulher, também frequentava a mesma faculdade e no mesmo período escolar.
As más línguas mexericavam ser um namoro de pouca duração, a jovem era muito comunicativa, tinha muitos amigos e não perdia uma reunião alegre, festiva. Luciano mais reservado tinha uma grande virtude de não ser ciumento, sabia que para ficar com a jovem, era de bom alvitre acompanhá-la nas festinhas, não que ela fosse inconstante, volúvel, tinha apenas uma mente aberta, notava-se que ambos se entendiam muito bem.
Quando não estavam ralando no hospital, eram vistos na chácara se refrescando na piscina ou sentados debaixo do cara estudando. Ambos gostavam da vida do campo, tiravam as manhãs do domingo para praticarem o hipismo no haras de um amigo. Luciano era muito conceituado na vizinhança, embora sendo uma pessoa tímida, não media esforços para atender quem o procurasse.
É chegado o dia da formatura, o salão nobre da universidade está cheio de convidados. Luciano e Maura estão sentados juntos esperando serem chamados para receberem o pergaminho. Após a cerimônia o Hospital Samaritano convida-os para fazerem residência, Luciano na urologia e Maura na pediatria.
Se é que existe destino e as vezes brinca com as pessoas, esse mesmo destino deu uma rasteira nas pretensões dos jovens namorados. Após a residência um afamado hospital na Califórnia convidou Luciano fazer um curso de especialização, com direito a defender uma tese, recebendo a mais alta graduação de doutor em urologia. F I M