"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 


SOU FELIZ - de José Tenório de Medeiros




Era conhecido no meio artístico com o cognome de 'SOU FELIZ', não que fosse totalmente feliz, as vezes passava momentos de apertura, comia na palma da mão do diabo.
Na Pia Batismal, seu pai escolhe, com ajuda do padre, o belo nome de Felisberto. Não foi registrado em cartório em vista do seu pai, não ter o dinheiro necessário para pagar a taxa da Certidão de nascimento. Só anos depois, o menino com 10 anos, ao passar por uma cidade bem longe, o pai resolve registrá-lo. Como era um cidadão do mundo, consideraram uma data qualquer para que pudesse festejar o evento.
Os pais trabalhavam num circo muito conhecido nas Américas. Faziam números audaciosos no trapézio, certa vez se apresentaram sem a rede de proteção, numa questão de segundos ela se lança no espaço e busca os punhos do seu companheiro, não os encontra, indo estatelar-se no meio do picadeiro, teve uma morte horrível. Nessa ocasião Felisberto contava l (um) ano de idade. Como a vida tinha que seguir seu curso, seu pai continuou no trapézio com outro parceiro, tão bom como ele.
Com o passar dos anos o pai do jovem resolve deixar de se apresentar no trapézio, era uma questão de segurança, já não era tão jovem, e ágil como um gato. Não tinha mais a firmeza nos punhos e seus dedos não eram mais como tenazes ao segurar os punhos ou tornozelos do seu parceiro. Resolve por sugestão da administração do circo continuar só com suas apresentações de bom palhaço que era. Como era uma pessoa de muita confiança dos proprietários do Gran Circo Fraterno, ajudava na parte contábil como tesoureiro geral.
Nesse mundo mágico foi crescendo Felisberto...
Aos 15 (quinze) anos trabalhava como malabarista, equilibrista, e participava com o pai do picadeiro como aprendiz de palhaço já com a alcunha de 'Sou Feliz'. Com o rolar dos anos, sofre a perda do que mais amava na vida nômade circense, o pai é acometido de um enfarto e tem morte súbita. Pensou enlouquecer de dor, de saudade do seu pai querido. Foram 30 (trinta) dias de lamento, certa noite recebe em sua tenda o administrador do circo, foi uma visita solidária e de apreensão pelo abatimento de Felisberto. Chamou-o para a realidade da vida, o afastamento por morte de um familliar é de 5 (cinco) dias, ele já estava ausente do trabalho um mês, e a direção gostaria de saber se poderia contar novamente com sua participação nos trabalhos do circo, deixou um memorando dando mais uma semana de prazo para sua volta ao picadeiro, ou levasse à administração sua carteira de trabalho para um acerto de contas.
Na terceira noite, o palhaço 'Sou Feliz', adentra no picadeiro cantado a mesma canção que o palhaço 'VENTANIA', seu pai, cantava ao entrar no palco para alegrar os presentes, principalmente as crianças. Ele mais 4 (quatro) palhaços do circo fizeram o espetáculo de 1 (uma) hora, no final foram ovacionados de pé, os próprios companheiros vieram aplaudí-los.
Depois dessa apresentação que ficou por muito tempo na lembrança daquela gente, Felisberto deixa uma carta no seu camarim de despedida.
Alguns anos depois, o circo fazendo algumas apresentações em Caracas/Venezuela, alguns componentes do Gran Circo Fraterno, viram 'Sou Feliz' apresentando um programa na televisão.

Fim