"CONTOS EM PRELÚDIO" - José Tenório de Medeiros
 

 

JOÃO DA MATA - Por José Tenório de Medeiros




Dizem que a história não fala dos fracos...
Meu nome é João da Mata, o da mata é um apelido que ganhei para diferençar de um sobrinho do patrão com o mesmo nome, o sobrenome dele era de gente rica, com bom pedigree. A árvore genealógica era cheia de galhos abundantes em ramos frondosos com boa estrutura familiar, coisa que eu não tinha.
Para falar a verdade não sei quem sou, não sei quem me fez e me pariu, sou mais um no mundo. Quem me criou disse que certa noite escura e chuvosa, fui deixado na porta do casarão enrolado numa toalha com o nome João. Como era uma criança gordinha e branquinha deixaram-me ficar.
Ao completar 10 (dez) anos fui morar num quarto na estrebaria, até então dormia num quarto com uma velha serviçal. As primeiras noites foram de grande medo, parecia ouvir sons diferentes, caminhar, mexer na porta, até vir a exaustão e desfalecer de tanto medo.
Não fazia mais o serviço da casa como fazer compras, lavar as louças após as refeições, varrer a casa, limpar o jardim e regar as plantas, serviços apropriados para gente do meu tope. Deram-me um trabalho mais pesado, fazia toda limpeza do estábulo, ajudava na ordenha do gado leiteiro. Acordava muito cedo, voltava da lida à boquinha da noite. Não recebia pagamento, trabalhava pela comida, algumas roupas usadas e ter direito ao quarto. Não podia reivindicar um salário, temia o patrão me mandar embora e passar fome estrada afora.
Com o passar dos anos fiquei alto e forte. O capataz da fazenda era um bom homem, ficamos bons amigos. Ensinou-me a ler, escrever e fazer as 4 (quatro) operações da aritmética. Aos poucos ensinou-me tudo sobre a agropecuária com um estudo mais profundo da agrogeologia. Aos poucos entrei na sua intimidade, muita coisa que estava soterrado com um pouco de perspicácia a terra foi revolvida, tudo ficou claro como o sol a pino numa escura noite.
O Sr. Leonardo (o capataz) carregando um alforje, depois de alguns dias de exaustiva caminhada, bate na porta do casarão da Fazenda Olho-d'água, o proprietário após uma longa conversa, abre a porteira da fazenda para ele trabalhar. Quem chega tem que dizer a que veio, e o novo empregado teve que esbagoar-se aos pés do patrão e contar sua história. Não sei se na época contou os mínimos detalhes como me confidenciou.
Apenas um resumo da execrável história do capataz...
Seus pais tinham haveres, era o filho mais velho de 3 (três) irmãos, todos formados na mesma Universidade, sendo 2 (dois) advogados e ele engenheiro agrônomo. Casou aos 25 (vinte cinco) anos e 1 (um) ano depois, ao chegar de uma viagem, encontra na sua cama a esposa com um amigo. Furioso atira no amigo , volta-se para a mulher e completa de descarregar o revólver, não satisfeito vai a cozinha pega uma faca e separa do corpo a cabeça da mulher. Hoje me pergunto, será que o capataz me contou sua história por o crime está prescrito? Não posso tirar essa dúvida por fazer 1 (um) ano de sua morte.
Sou o capataz da fazenda, não só capataz como dono da propriedade. Estou casado com a filha única do finado patrão. Ela me faz esquecer todo um passado sofrido, repleto de desalentos e carências. Em alguns meses nossa felicidade será completada com o nascimento de um descendente. Final.