| Sinto
saudades do tempo em que vivi em meu querido torrão natal Bom Conselho.
Saudades do tempo que vivi na cidade de Garanhuns, que me adotou como
filho em minha adolescência. Saudades dos bons tempos que vivo no
Recife, das suas ruas, vielas, becos, avenidas que ainda percorro no dia-a-dia
já na idade adulta, quantas saudades deste bom tempo. Saudades,
ainda do tempo que vivi em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso,
que me guardou uma temporada, trabalhando. Do pantanal mato-grossense,
com os seus rios, pontes de madeiras, as aves “em festa” ao
alvorecer, as araras azuis, as garças brancas, dos jacarés
deitados a margem dos rios, das capivaras em bandos, dos tuiuiús,
pássaro símbolo do Pantanal. Da culinária servindo
os peixes dourados, pacus e pintado acompanhado de cerveja ou vinho bem
gelado. Que delicia!... Mas, o que me faz ter este sentimento é
o tempo mesmo de criança em Bom Conselho, na minha querida Rua
do Caborge. Tempo bom, tempo de alegria e de brincadeiras a cada instante
pelas suas ruas.
As saudades que me vem agora, neste momento, são da vida caseira
na minha casa da Rua do Caborge. Foram tempos maravilhosos e às
vezes dolorosos, quando era castigado pelos meus pais quando fazia alguma
traquinagem que não estava em acordo com os seus ensinamentos,
levando alguns “bolos” de palmatória, ora com a “branquinha”,
ora com a “pretinha”. Tinha pavor de velas penduradas na parede.
Saudades das tardes serenas e tranqüilas onde a maioria das famílias
colocava cadeiras, tamboretes, espreguiçadeiras nas calçadas
e começavam a conversar animadamente sobre os acontecimentos, que
eram poucos, mas que entusiasmavas, enquanto os meninos corriam rua acima
rua abaixo, de “pega”.
As meninas, mais comportadas, brincavam de “roda” animadamente
nas calçadas e quando enjoava iam pular “corda” ou
pulavam “academia” riscando a caçada com carvão
e jogando “casca de banana” e pulando com uma “perna
só” o que algumas vezes os meninos se metiam nos meios delas.
Era aquela algazarra.
Saudades das musicas que tocavam no microfone a partir das 16h30min e
começava a ecoar na Praça Pedro II, ouvida por toda extensão
do “Quadro”. Eram musicas que despertavam saudades nos ouvintes
da época entoada nas vozes do Augusto. Calheiros, Silvio Caldas,
Anízio Silva,, Isaurinha Garcia, Nelson Gonçalves, Francisco
Alves, Emilinha Borba, Ivon Cury e tantos outros que elevavam a alma dos
ouvintes.
Saudades das tardes que ouvia uma canção de Augusto Calheiros
que tocava no coração de todos no fim da tarde. Ainda hoje
me recordo da letra destas canções.
Cantem comigo “Cai à tarde tristonha e serena / em suave
perfume e langor / despertando no meu coração / a saudade
do primeiro amor. Um gemido se esvai no espaço / nesta hora de
lenta e agonia / quando o sino formoso murmura / as badaladas da Ave Maria.
Sino que tange com magoa dorida / recordando o tempo e aurora da vida
/ da-me paz, oração harmonia na prece / da Ave Maria...
em seguida a musica, Índia teus cabelos nos ombros caídos
/ negros como a noite que não tem luar / teus lábios de
rosas para mim sorrindo / e a doce meiguice deste olhar e assim seguia
mais outra musica do Nelson Gonçalves, “Boneca de trapo /
pedaço da vida / que vive perdida / no mundo a rolar / farrapo
de gente / eu inconsciente / vive para o prazer e para pecar... Assim
ouvia sentada nos degraus da Matriz da Sagrada Família., observando
com o olhar de criança., as moças de braços dados,
vestidas de saia “godê” ou de “prega” rodeando
a praça Pedro II sob olhar apaixonado dos rapazes que ficavam em
pé ou sentados nos bancos mornos fisgando um olhar, um piscar de
olho da sua futura amada, o que causava uma reação de suspiro
e um sorriso leve, avivando assim o coração apaixonado do
seu pretendente.
Saudades das matinês no Cine Rex, das brincadeiras ao redor do “Correto”,
das “escapadas” até o Açude da Nação,
das brincadeiras no “recreio” do Grupo Mestre Laurindo Seabra
e do Ginásio São Geraldo, das noites do mês de Maio
na Matriz na recitação do “Terço”, das
procissões do Senhor Morto na Semana Santa, dos comícios
políticos na frente do bangalô do Coronel José Abílio,
das festividades do Natal e Ano Novo, com a perspectiva de comprar e usar
roupa “nova” e das barracas ao redor da Matriz a luz de candeeiro
e ao odor do carboreto, da feira ao redor do “quadro” aos
sábados, é tantas as saudades que se torna difícil
de enumerá-las.
Cada com as suas saudades, apenas ressuscito algumas destas lembranças
nos corações dos nossos conterrâneos que participaram
com saudades deste tempo infantil no querido torrão de Bom Conselho/Papacaça.
José
Antonio Taveira Belo / Zetinho.
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