| No ano de 1954
o Vigário Padre Alfredo Damaso recebeu a noticia de que Excelentíssimo
Senhor Bispo da Diocese de Garanhuns, Dom Juvêncio de Brito estaria
realizando uma visita pastoral a Paróquia Jesus, Maria e José.
Toda cidade se preparou para receber o prelado com honrarias que lhe eram
devidas. Foi uma movimentação muita grande na cidade de
Bom conselho para reste evento. A Matriz da Sagrada Família se
engalanava para a visita ilustre onde o Bispo passaria dois dias no meio
do povo.
Padre Alfredo mandou pintar a casa paroquial reservando um aposento para
o Senhor Bispo. A matriz recebia uma pintura nova em toda sua área
externa. Os altares foram limpos e pintados. O altar-mor ganhava um zelo
especial com uma pintura bastante delicada. As imagens foram limpas e
cuidadosamente colocadas nos seus lugares. Os bancos foram envernizados
e as cadeiras genuflexório das senhoras eram limpas por cada uma
delas. A sacristia foi cuidadosamente limpa e o Sr. Pedro sacristão
verificava as alfaias e paramentos se tudo estava em ordem e plenamente
limpos para uso na celebração da Santa Missa. O turíbulo,
a galhetas, o cálice as âmbula, a patena, a pala, sanguíneo,
o lavabo, o corporal tudo estava em perfeita ordem. Os castiçais,
as velas, os livros litúrgico deveriam estar prontos para o uso.
O Gabriel Vieira Belo aprontava tudo na Matriz, ensaiava os cânticos
com o coral tocando a “serafina” divinamente. As partículas
pequenas e a hóstia grande já estavam cortadas e guardadas
para consagração e distribuição na celebração
da Santa Missa que seria celebrada por Dom Juvêncio de Brito ás
10h00minh na manhã do domingo
Na tarde da sexta feira toda a população se dirigiu para
entrada da cidade, no Alto do Colégio para receber e dar as boas
vindas ao ilustre visitante. Mais ou menos as do 16h00min, Dom Juvêncio
chega em um carro Studebeak preto e é recebido efusivamente pelos
presentes tendo o Padre Alfredo se dirigido ao Senhor Bispo, beijando
o anel episcopal na mão esquerda estendida para o Vigário.
Lá se encontrava as autoridades políticas, militares. A
banda de musica tocava os dobrados com os seus instrumentos luzindo pelo
sol do entardecer os músicos todos fardados e perfilados. Os sinos
da Matriz da Sagrada Família tocavam ruidosamente quando Dom Juvêncio
chegou a Praça Dom Pedro II, onde uma multidão o esperava.
Entrou na Matriz e se dirigiu ao alto-mor onde se ajoelhou diante do sacrário
onde se encontrava o Santíssimo Sacramento.
À noite o Senhor Bispo recolheu-se no aposento reservado para ele
no primeiro andar da Casa Paroquial no inicio da minha querida Rua do
Caborge.
Na manhã seguinte, um sábado, era dia de feira e ao redor
da Matriz e das Praças Pedro II e Livio Machado onde varias toldas
de roupa e frutas estavam instaladas aguardando os fregueses. Dom Juvêncio
se dirigiu até a Matriz, passando pela sacristia, a fim de atender
aos fieis que já se aglomerava dentro e fora da Matriz a fim receber
a benção de Dom Juvêncio. Ele ficou sentado em uma
cadeira e os fieis em fila única, beijava o anel episcopal e recebia
a benção.
À tarde o Senhor Bispo saiu em visita às capelas de São
Sebastião no Corredor e a de Santo Antonio, no alto do mesmo nome
do santo. Em cada local Dom Juvêncio sentava-se e ouvia os fieis
e os abençoava. Esta caminhada durou toda a tarde retornando para
o jantar na casa do Padre Alfredo.
No domingo Dom Juvêncio celebraria solenemente a santa Missa “cantada”
as 10h00min na Matriz da Sagrada Família. O dia amanheceu ensolarado,
o céu azul com algumas nuvens brancas. As palmeiras imperiais em
frente da matriz balançavam ao sabor do vento brando que fazia
nesta manhã. Centenas de pessoas já se aglomeravam dentro
e fora da Matriz para a cerimônia.
Vieram fieis oriundas de vários distritos do Município de
Bom Conselho, como, Rainha Isabel, Logradouro dos Leões, Barra
do Brejo, Brejão, Santa Terezinha, Barro, estavam presentes. Todos
estavam vestindo o que de melhor tinha guardado no guarda-roupa ou no
baú.
De manhã levanto muito cedo, seguindo eu um pouco mais cedo para
Matriz, pois ia ajudar na cerimônia como “coroinha”.
Ingressei na Matriz pela “casa do Padre” saindo na Sacristia.
Deixei meu pai Antonio Zuza já se preparando. Tinha feito a barba,
cortado o cabelo, tomado banho e vestindo um terno de linho branco e uma
gravata em xadrez de preto e branco, o sapato em duas cores, branco e
marrom, a minha mãe colocava um vestido branco de organdi, uma
mantilha branca e o seu livro de orações e exercícios
piedosos o “Adoremus” usava um cordão de ouro com uma
medalha de nossa Senhora Auxiliadora com um rubi cravado no lado direito,
uma pulseira de ouro e um bonito relógio cravejado de brilhantes.
Era um luxo só.
Às dez horas os sinos da Matriz repicaram demoradamente, enquanto
o Senhor Bispo entrava na Matriz com o cotejo formado por coroinhas, seminaristas,
frades capuchinhos e o padre Alfredo a sua frente.
Dom Juvêncio vinha vestido de paramentos dourados e um crucifixo
de ouro no peito, caminhava devagar, vestia uma túnica branca,
com a mitra dourada na cabeça na mão direita segurava báculo
enquanto com a mão esquerda dava benção aos fieis.
A celebração da Santa Missa Cantada foi até ao meio
dia. A Igreja Matriz da Sagrada Família estava apinhada de gente,
o calor era sufocante muitos usavam o lenço branco para os homens
e de organdi ou seda das senhoras que enxugava o rosto. Os últimos
acordes dados pelo Gabriel Vieira Belo na “serafina”, encerravam
a cerimônia com a benção do Senhor Bispo Diocesano,
saindo do altar em cotejo até a sacristia.
Após o almoço na Casa Paroquial, o Senhor Bispo se despediu
do Padre Alfredo e demais sacerdotes presentes na ocasião e agradecendo
a Dona Julia pela acolhida.
Uma multidão o levou ate a porta de entrada da cidade, saudando
com um foguetório e o Bispo abençoando a todas as famílias
de Bom Conselho. Foi uma festa linda que ficou marcada em minha memória.
José Antonio Taveira Belo / Zetinho
José Antonio Taveira Belo / Zetinho
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