OS
DIABINHOS
Lembro-me das visitas que fazia todas
as tardes o Padre Alfredo, por volta das quatro horas, as casas de
famílias e a Casa da Caridade onde os velhinhos recebiam a
sua visita com muita alegria, pois o “homem de Deus” levava
seu carinho a aquelas pessoas necessitadas.
Saia normalmente, quando o sol esfriava um pouco, mas não dispensava
o seu guarda-sol, nos tempos de verão e no inverno o seu guarda-chuva.
Subia devagarzinho pela minha Rua do Caborge, onde ele mesmo morava
no fundo da Matriz da Sagrada Família. Cumprimentava a todos
os moradores, que nas tardes quentes do verão colocava suas
cadeiras e espreguiçadeiras, tamboretes nas calçadas
e ali ficavam a tagarelar contanto as noticias do cotidiano. Os meninos
brincavam de acordo com a época, chimbre no pátio da
meia-água de Dona Luiza, rendeira de mão cheia no controle
e movimento dos bilros em uma almofada forrada de uma toalha branca
e ela sentada e mexer com uma velocidade o seu material de trabalho,
os bilros. Zangava-se às vezes com o barulho dos meninos, mandando
todos sair do “terreiro” da sua casa; Nestas ocasiões
lá vinha Padre Alfredo, subindo a rua indo visitar os seus
“velhinhos”, depois desta visita retornava para a Matriz
e se preparava para o “ângelus”. As crianças
quando o via, corriam ao seu encontro, gritando, todos em sua volta
“benção pade” “Deus te abençoe”
acariciando a cabeça de cada um e, ai pediamos, “Pade,
me dá um santinho”, todos de uma só vez. O Padre
Alfredo sorria e colocava a mão dentro da “batina”
e trazia alguns santinhos com as imagens da Sagrada Família,
N.S. de Fátima e N. S. do Bom Conselho, São José
e tantos outros santos e distribuía para cada um. Os meninos
corriam para sua casa para mostrar aos seus pais o presente de Padre
Alfredo, de saudosa memória.
O que me fez lembrar deste episodio, foi uma narrativa contada por
seu Biu da cidade de Bezerros/PE.
Estava no shopinng Tacaruna, tomando um sorvete. Sentei-me em um dos
bancos ali posto, em uma tarde de sexta feira. Sempre vou à
shopinng, principalmente “namorar” os livros na Livraria
Imperatriz. Ali passo um bom tempo, e, muitas das vezes saio sem comprar
nenhum exemplar. Cadê o dinheiro? Os livros estão caríssimos,
principalmente, dos grandes escritores.
Aproxima-se o Sr. Benedito da Silva, tomando sorvete com a sua esposa
Dona Amélia, senta-se ao meu lado. Apresenta-se, dizendo que
é de um distrito do Município de Bezerra/Pe, e que esta
na casa de um filho no bairro de Torreão. Tinha ele, 85 anos
enquanto a sua mulher Dona Melinha tinha 77 anos, mas que vivia muito
bem em seu interior convivendo com os seus animais de estimação
e seus amigos de bata-papo na pequena praça do lugarejo. Puxou
conversa. E conversa vai e conversa vem, disse-lhe que também
era homem do interior por nasci na cidade de Bom Conselho/PE. Sabia
ele contar muitos “causos” acontecidos no interior e muitos
deles verídicos; Então contou este que conto para vocês:
“Arupenba era uma cidadezinha muito pequena, com pouco mais
de dez mil habitantes. Como todo povoado, tinha o comercio, a delegacia
e a igreja. Morava na rua central, o Seu João, sapateiro de
mão cheia onde todos o procuravam para conserto dos sapatos.
Casado com Dona Margarida, mulher prendada no fazer doces caseiros
para vender na feira, que acontecia todos os sábados no comercio
ao lado da Praça Hilário Gomes. Mormente, o Seu João
quando saiam da sua oficina todas as tardes ia conversar com os seus
amigos na bodega do Seu Amâncio no final da sua rua, enquanto
a sua mulher na janela, o esperava indignado com aquele comportamento
diário, de chegar à casa bêbado. Este casal tinha
três meninos, o João Filho, o Amaro e o Ananias, com
a idade de 10, 8 e 7 anos. Os pequenos brincavam pela rua com os outros
meninos. Corriam de “pega” ou de “esconde-esconde”
Na hora de entrar para tomar banho e se preparar para tomar “café”,
a mãe os chamava sempre de “diabinhos” aos berros
na janela. A vizinhança achava um absurdo este tratamento.
Denunciou ao Padre Josué este fato, o qual ficou indignado
com o tratamento dados pelos pais as crianças.
Como o bom pastor resolveu tomar as dores. Saindo de uma visita ao
abrigo dos velhinhos, resolveu retornar para sua casa pela rua onde
os “diabinhos” moravam. Em passo lento, desceu a rua com
o sol já se pondo, e chegando perto da casa deste morador as
crianças o rodearam para pedir a “benção”
e “santinhos”.
Aproveitando a oportunidade, perguntou ao menino mais velho:
Como é o seu nome?
O menino respondeu: Diabinho.
E ao outro menino menorzinho, e o seu?
Respondeu o pequeno: Diabinho
O terceiro ainda bem pequeno beirando os seus sete anos, perguntou
alisando-lhe os cabelos - e o seu meu filho:
Menorzinho de todos, respondeu quase miando, Diabinho.
O Padre Josué, olhou para o sacristão que o acompanhava
nestas visitas, levando-lhe a sua sacola com os seus paramentos e
óleos sagrados - disse:
Sebastião esta tudo errado. Vou convidar os pais destas crianças
para falar comigo na igreja.
Chamou o maiorzinho de todos e perguntou-lhe, porque os seus pais
os chamavam assim.
O menino respondeu imediatamente, de olhos baixo olhando para terra
batida da rua poeirenta.
Pois, é Pade. Todos os dias meu pai vem lá de cima –
e apontou para o final da rua – bebo se agarrando pelas paredes
ou trazido por algum homem para casa. Quando aponta lá em cima,
a minha mãe da janela grita para nós, dizendo - Lá
vem o Diabo em forma de gente e se retirava da janela indo para a
cozinha.
Quando chegava o meu pai, perto de casa, olhava para gente –
Cadê o diabo de tua mãe.
Todos nós corríamos para a cozinha para avisar a minha
mãe e ela dizia o que é que os diabinhos querem.
Veja seu pade se não nos chamamos de Diabinhos.
O padre e o sacristão se olharam e disse para o menino maiorzinho
como é o nome de vocês – Eu me chamo Amaro, este
aqui, João e este pequenino Amâncio.
O padre disse para o menino Amaro - diga ao seu pai e a sua mãe
que amanhã eu quero ter uma conversa com eles na Igreja às
quatro da tarde. Diga que não falte.
E saiu com o sacristão resmungando.
No dia seguinte, à tarde, por volta das quatro horas, atendendo
ao chamado do Padre Josué, a família foi até
a Igreja, entrando pela porta lateral, ingressando na sacristia, onde
o padre rezava as vésperas no breviário. Levantou a
vista, e viu aquela família humilde ali na sua frente. Conversou
com eles e orientou que não chamasse os seus filhos de Diabinhos,
e sim pelos nomes verdadeiros. Disse que a partir daquele dia queria
ver toda a família na missa das oito horas da manhã
do domingo.
Todos saíram cabisbaixo. No domingo seguinte lá estavam
eles no primeiro banco da Igreja, e o padre Josué sorriu.
José Antonio Taveira Belo / Zetinho
Olinda, 18 de junho de 2010.