MIMI
Quando
morávamos na minha querida Rua do Caborje, 144 em Bom Conselho,
no inicio dos anos 50, tínhamos em nossa casa um bonito gato
amarelo com listras brancas, de olhos verdes, e patas brancas, de
nossa estimação, que atendia pelo nome de MIMI, ficava
sempre deitado no sofá na sala de visita ou nas camas de mola
Faixa Azul comprada pelo meu pai no “quadro” na loja da
cidade. Era um lindo felino, manso, e somente fazia dormir e comer
debaixo da mesa, em nossas refeições. Era sonolento
e muito manso passava a tarde cochilando com os olhos semi-serrado
e o longo bigode estremecido com o abrir da boca.
Mas, o que me lembra este nome MIMI, era de um colega que morava em
um pensionato na Rua Dom Bosco em frente ao Colégio Salesiano,
na Boa Vista. Eu morava, como sempre no tempo de estudante nas pensões
que circulavam o Pátio de Santa Cruz, no mesmo bairro. Vez
por outra, estávamos juntos no Bar Santa Cruz, tomando uns
aperitivos, ouvindo as musicas preferidas e que estavam fazendo sucesso
na radiola de ficha, com o seu piscado de luzes verdes, azuis, amarelas
e vermelhas. Seu nome era MIRIVALDO DA SILVA, veio da cidade interiorana
do Estado, como eu, para estudar no Recife. Sua naturalidade de Salgadinho
demonstrava na sua timidez interiorana. Era um rapaz louro, de olhos
azuis, alto com o seu penteado da “moda” usando brilhantina
Glostora, bem afeiçoado que chamava a atenção
das meninas que estudavam no Colégio São José
na Avenida Conde da Boa Vista, nas tardes recifenses, sem o burburinho
de carros que existem atualmente. Ficávamos sempre na calçada
do Mustang e muitas das vezes na calçada da Mesbla. Ali desfilavam
estas criaturas bonitas, que eram as alunas que saia do Colégio
ao cair da tarde, passeando pela calçada de braços dados,
com a sua farda escolar de blusa branca e saia plissada de um azul
marinho, e de vez em quando um piscarem de olho para algum rapaz que
ali fazia ponto. Mirivaldo, não gostava deste apelido. Achava
que era um apelido efeminado, de muita delicadeza e de sussurro, preferia
que o chamasse Valdo, no entanto, como ficava chateado a turma adotou
o seu nome de Mimi. Cursou a faculdade de Economia que ficava na Rua
do Hospício esquina com a Avenida Conde da Boa Vista. Após
o termino do curso, com um baile no Salão do Clube Internacional
do Recife, saiu da pensão e nunca mais nos vimos.
O tempo passa e ninguém neste mundo “some” se deixar
rastro. Um dia se sabe o seu paradeiro e sem “querer”
o encontramos em algum lugar sem precisar o tempo, horário,
simplesmente nos encontramos por acaso. E, foi o que se deu. Encontrava-me
em Aracaju, na Praia de Atalaia, tomando um chope em um dos bares
da orla, sentado despreocupadamente, solvendo somente a brisa do mar
e vendo o sol se pondo e a noite chegando, e de longe as plataformas
da Petrobras com as suas luzes brilhando no oceano, quando de repente
bate em meu ombro, me viro para atender, deparo-me com MIMI, o Dr.
Mirivaldo da pensão da Rua Dom Bosco, das tardes no calçadão
da Avenida Conde da Boa Vista, do Mustang, do Savoy e tantos outros
lugares recifenses, ali em pé diante de mim. Não o reconheci
de imediato, pois estava tão velho quanto eu, cabelos brancos
e barba longa, parecendo mais Papai Noel. Ele me reconheceu de imediato
pelo meu físico que nada mudou durante estes anos. Puxou a
cadeira e começamos a conversar. Lembramos dos tempos de brincadeiras,
das noitadas, das idas e vindas ao futebol, principalmente, quando
jogava o Sport Clube do Recife, Quando aportávamos no Bar Amarelinho,
antes do inicio dos jogos, a tomar umas cervejas, das tardes dançantes
no Clube Internacional, idas a praia da Boa Viagem e voltar dentro
dos ônibus suados no empurra-empurra e no sacolejo dos ônibus
e tantas outras travessuras que realizamos ao longo daqueles anos
de convivência. Disse-me que morava em Aracaju há muito
tempo, que vinha raras vezes ao Recife, mas que não encontrava
ninguém daquele tempo apesar de passar pelos lugares que tinha
preenchido um pouco a sua vida. Arranjou um emprego na Petrobras,
no Rio de Janeiro, e que algum tempo depois foi transferido para a
cidade de Aracaju. Aqui permaneço, completou tomando um gole
do chope geladíssimo. E tu, que estais fazendo aqui? Eu? Estou
dando uma ajuda ao meu filho que é fonoaudiólogo e que
sofreu uma pancada no pé esquerdo e não pode dirigir.
Olhe lá vem ele! Falei para o Mimi. Vem se arrastando com ajuda
de muletas. Tomei um gole e peguei com um palito um petisco de salame.
Pois é quanto tempo? Falou Mimi, com o copo na mão.
Tens visto alguns dos nossos amigos de antigamente, no Recife? Quase
não os vejo, respondi. Pois é, tenho saudades daquele
tempo de molecagem, dos bares, da escola, e de tantos outros momentos,
enfim não podemos retroceder no tempo, somente guardamos recordações.
Conversamos bastante sobre as nossas famílias. O Mimi casou-se
duas vezes. Da primeira mulher teve dois filhos, que já estão
formados e moram no Rio de Janeiro. Da segunda mulher, dois filhos
que já cursam faculdades em Aracaju. Todos estão no
caminho certo. Todos estão casados. Já tenho quatro
netos e, tu? Eu! Tenho oito netos, todos bonitos como o avô,
rimos. Tomamos mais alguns aperitivos com petisco de peixe, olhando,
já à noite o luar que brilhava no mar, trazendo aquela
tranqüilidade e sossego para nos. Saímos mais ou menos
dez e meia da noite, cada um indo para a sua residência, eu
para o bairro de Aruana e o Mimi para o bairro Treze de Junho, junto
ao shopping Jardins. Deixou o seu endereço para que eu pudesse
o visitá-lo em outra ocasião. Um abraço fraterno
foi a nossa despedida deste encontro amigável de longas datas,
de um tempo que floresceu uma amizade sincera e que perduram ate a
presente data.
José Antonio Taveira Belo / Zetinho
Olinda, 09 de outubro de 2010.