SABÁDO A NOITE
Todo
ou quase todo sábado ouço as músicas do passado,
quando não vou merendar em algum restaurante na orla de Olinda.
Quando não faço esta façanha, ligo o pequeno
radio de pilha me aboleto em minha poltrona do “papai”
e fico a escutar as músicas que o Radialista Geraldo Leal,
transmite pela Radio Capibaribe, a NOITE DE SAUDADE, seu e meu programa
favorito das dez até a meia noite.
São lindas músicas de outrora, que recorda os momentos
de nossa juventude, apreciando as belas canções, modinhas,
frevos, baião, tango, tudo o que faz bem para um belo seresteiro.
Fico sentado no meu terraço, olhando para o firmamento onde
a lua com a sua luz prateada iluminam a noite da SAUDADE, e as estrelas
brilham e cintilam no céu azulado. O Geraldo Leal sabe por
vocação escolher a cada sábado um cantor para
lhe fazer homenagem, tocando para as pessoas de bom gosto, a melodia
mais radiante que consome o nosso desejo de voltar a aqueles tempos
memoráveis das serestas pelas ruas e parando de quando em vez
em uma janela aberta, para ouvir o toque do violão, bandolim,
do cavaquinho e muitas vezes do violino.
As musicas apresentadas no programa NOITE DE SAUDADE, são as
melhores possíveis e de interpretes do porte de Francisco Alves,
Vicente Celestino, Ermilha Borba, Araci de Almeida, Dalva de Oliveira,
Núbia Lafaiete, Ângela Maria, Francisco Petrônio,
Anízio Silva, Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo, Silvio
Caldas, Moacir Franco, Silvinho, Lupicínio Rodrigues, Dicinha
Batista, Mario Reis, Ivon Cury, Cauby Peixoto Isaurinha Garcia, Maysa
Matarazzo e tantos outros memoráveis nomes da época
da Era de Ouro do Radio.
Tomo minha dose de uísque com gelo em água de coco e
alguns petiscos trazidos pela minha mulher e quando não eu
mesmo me disponho a fazer o que é muito raro.
É uma noite calma de um sonhador. Fico ali sentado saboreando
a brisa da noite, e no aconchego escuto com saudades a belas musicas
que outrora vivenciamos com mais ardor e hoje vivemos mais da lembrança
deste tempo que não volta.
Lembro-me de Bom Conselho, da minha mãe querida na minha querida
Rua do Caborje na cozinha cantando, e do meu tio Expedito Vieira Belo,
com o seu violão junto com outros memoráveis mestres
da seresta em Bom Conselho.
Em Garanhuns, quando fui ali residir em 1957, as nossas serestas eram
nas noites e madrugadas frias colhendo o orvalho em nossas faces,
na Praça Dom Moura em frente à Estação
Ferroviária, hoje, Teatro Alfredo Leite, ali, nos reuníamos,
tomava algum aperitivo quente, como o Dreher ou mesmo Alcatrão
de São João da Barra, para poder desenferrujar as molas
das mãos cricriladas pelo frio e descongelar a garganta para
cantar em plenos pulmões com doses alcoólicas, a música:
Noite alta céu risonho / quietude é quase um sonho /
o luar cai sobre a mata / qual uma chuva de prata / de raríssimo
esplendor / só tu dormes não escutas / o teu cantor
/revelando a lua airosa / a historia dolorosa / deste amor / Lua!
/ com tua luz prateada / Despertar a minha amada / quero matar os
meus desejos / sufocá-la com meus beijos / Canto / E a mulher
que eu amo tanto / Não me escuta, esta dormindo / Canto, por
fim / Nem a lua tem pena de mim / pois ao ver que tem chama, sou eu
/ Entre a neblina se esconde / Lá no alto a lua esquiva / está
no céu tão pensativa / as estrelas tão serenas
/ qual dilúvio de falena / andas tontas ao luar / todo astral
ficou silente / para escutar / o eu nome entre as endeixas / as dolorosas
queixas ao luar.
Saímos, lá pela meia noite pelas ruas do Bairro de São
José, subindo pela Rua Nova, descendo pela Rua Souto Filho
encerrando na praça, por volta das três da manhã
já com o galo cantando, mesmo nas noites frias da Suíça
Pernambucana.
Aqui no Recife, quando cheguei em 1966 à cantoria era somente
nas sextas e sábados, sempre em ambientes fechados, nos bares
e restaurantes que freqüentava. Era no Bar do Espanhol, na Cruz
Cabuga, aos sábados à tarde; Cantinho da Dalva de Oliveira,
em Poço da Panela/Beberibe; nos mercados públicos da
Encruzilhada e Boa Vista à tarde dos sábados;
Portanto o dia de sábado é importante para as nossas
recordações dos tempos idos e vividos com muita alegria.
Os camaradas daquela época deve se lembrar destes momentos
que se realizaram na vida de cada um “a saudade” daqueles
bons momentos.
No último sábado ouvindo o programa a NOITE DE SAUDADE,
foi encerrado com a musica SERTANEJA, de Cesar Monoti que reproduzo
para nos lembrar e cantar: cantemos,
Sertaneja se eu pudesse
Se papai do céu me desse
Um espaço prá voar
Eu corria a natureza
Acabava com a tristeza
Só prá não te ver chorar
Na ilusão deste poema
Eu pegava um diadema
Lá no céu prá te enfeitar
E onde a fonte rumoreja
Eu fazia uma Igreja
Dentro dela o teu altar
Sertaneja
Por que choras quando eu canto?
Sertaneja
Se este canto é todo teu
Sertaneja
Prá secar os teus olhinhos
Vai ouvir os passarinhos
Que cantam mais do que eu
A tristeza do meu pranto
É mais triste quando eu canto
A canção que lhe escrevi
E os teus olhos neste instante
Brilhou mais que a brilhante
Das estrelas que eu já vi
Sertaneja eu vou-me embora
A saudade vem agora
Alegria vem depois
Vou subir por estas serras
Construí-la noutras terras
Um ranchinho prá nós dois.
Sertaneja... continua, cantem comigo no próximo
sábado.
José Antonio Taveira Belo / Zetinho
Olinda, 2010.