JODEVAL, O POETA.
 

Encontro-me a tardinha, na Ponte Duarte Coelho, no Recife, com o Poeta Jodeval Duarte.
O vento morno da tarde soprava em nossos rostos, trazendo o odor do mar; o pôr-do-sol deslumbrava os nossos olhos, a noite vinha chegando mansamente, a lua aparecendo para encher os corações dos namorados, com milhares de estrelas compactando com aquele cenário de uma beleza inconfundível, das tardes recifenses.
Com largo sorriso, demonstrando a mesma amizade, como no tempo de nossa infância em Bom Conselho, nos cumprimentamos com um belo aperto de mão, passando alguns minutos, a tagarelar sobre os mais diversos assuntos.
Despedimo-nos, do mesmo jeito que nos encontramos, com o mesmo sorriso e, eu feliz de encontrar, mais uma vez, esta personagem que fez parte de minha infância.
Atravessando a Rua da Aurora, seguindo pela Avenida Conde da Boa Vista até a Rua Sete de Setembro, com destino a Livraria Livro 7, onde sempre visito, como um encontro de namorados, eu e os livros.
No trajeto, divaguei sobre a nossa meninice e, lembrei de uma das nossas travessuras, que sempre acontecia em nosso querido Bom Conselho.
Eu morava na Rua do Caborge, nº. 144, nesta época, uma casa bela e grande para os meus olhos, com várias janelas e duas portas em cada extremidade, com um quintal muito grande, onde havia um enorme pé (árvore) de eucalipto, tendo o portão do fundo, que dava saída para outra rua. Aos sábados, dia de feira na cidade, convergiam muitos matutos para a nossa casa, oriundos dos mais diversos distritos e povoados, como, Rainha Izabel, Caldeirões dos Guedes, Barra do Brejo, Salóa e, deixavam seus animais (cavalos, burros, jegues), amarrados em nosso quintal, enquanto iam à feira fazer suas compras.
Neste dia, fugindo das vistas de nossos pais, juntamente, com Otacílio e Osvaldo, estes filhos do barbeiro, Sr. José Lourenço, eles um pouco mais velhos do que nós, resolvemos levar os cavalos ao Açude da Nação, para banho, pois os animais se encontravam bastante suados.
Mas, mesmos assim, tiramos o cavalo que estava amarrado em nosso quintal, puxando pelo cabresto, trazendo para um elevado, para que pudéssemos montar, pois, os filhos do Sr. José Lourenço, já nos esperava em outra montaria. Quando montei no cavalo, Jodeval, que era menor do que eu, e iria na garupa, ao montar o cavalo se afastou, ocasionando um baque (queda/tombo) e relou-se (machucou-se) todo, ficando no chão a choramingar. Ficamos com medo da reação dos nossos pais, por esta traquinagem e, como dizia um ditado muito popular na época “Deus castiga menino desobediente” e, nos castigou.
Diante do fato consumado, fomos para casa e minha mãe medicou com mercúrio cromo os arranhões e lá foi o Jodeval para sua casa todo marcado de vermelho, não sabendo, eu, o desfecho entre ele e Seu Lúcio.
Por esta arte, fiquei de castigo pela desobediência, o que me custou a não ir ao cinema Rex, em duas matinês.
Anos, depois, fomos morar na cidade de Garanhuns, onde mais uma vez, nos encontramos e estudamos no Colégio Diocesano. No Cinqüentenário do Colégio Diocesano de Garanhuns, em 1965, o menino Jodeval, já lançava o seu primeiro livro de poesias, intitulado “Mutilações e Outras Poesias” 1965, no hall do Colégio, onde Jodeval, como sempre, risonho, autografava o seu livro na grande festa de Garanhuns.
Encontrando-me na Livro 7 e, percorrendo as estantes de livros expostos, deparo-me com o livro “Poetas da Rua Imperador”, Editorial S?A – Recife – 1986 e, folheando, lá está o nome de JOdeval Duarte, menino nascido e criado em Bom Conselho, com sua poesia, figurando entre os astros da poesia pernambucana, de reconhecido valor no Brasil.
Folheio o livro e, na página 43, a sua poesia, com o título “Arquivado”, que passo a transcrevê-la:
Jaz sobre a mesa
O aparato burocrático
Fetichizado a mão
Do diretor
Uma via intineirante
Que se esvai ao fim
Do expediente
Tudo morre com ele,
Até a luz que cobre os olhos
E a pele branca
Da secretaria
As folhas de avenca
Que ressona no canto da sala
O carro com que sonha
O continuo a preencher
A loteria

O elevador engole um por um
E no silêncio ensurdecedor
Descem mil almas perdidas
Nos limites da promissória
A pagar, da mingua por fazer
Da novela do setembro e do noticiário inócuo

Todos dormem nesta casa
E há um manso fluir para a morte.

Pois é. Lá está o nome de Jodeval Duarte, menino do interior de Papacaça, correndo pelas ruas e praças da cidade, ao derredor da Matriz da Sagrada Família, brincando de pega, de artista, de academia pelas calçadas, de solta papagaio (hoje, pipa) de jogar pião, de jogar chimbre (hoje, bola de gude) e tantas outras brincadeiras sadias, daquele tempo, de saudosa memória, lado a lado, de figuras expressivas do mundo poético de Pernambuco, como Mauro Mota, Audálio Alves, Geraldino Brasil, José Mario Rodrigues, Ladjane Bandeira, Lucila Nogueira, Marcus Accioly, Nélson Saldanha, Maira do Carmo Barreto Campello de Melo, Olimpio Bonald Neto e tantos outros nomes consagrados na poesia brasileira.
E assim, hoje, Jodeval Duarte, continua a ser o mesma, pessoa simples e cordial, com a alma de matuto de Papacaça. No Recife, terminou o seu curso de Direito e Jornalismo e, hoje, desempenha funções de Procurador do Estado de Pernambuco, membro do Conselho de Administração da OAB?PE, e jornalista do Jornal do Commercio.
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Transcrito do Jornal A GAZETA n. 74 – Junho/96 / pág. 06.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com

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