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Sempre
as minhas férias eram nos distritos de Rainha Izabel, na casa de
Tio Antonio e Tia Inácia, na Barra do Brejo, na casa de Sr. José
Farias de Medeiros (Juca Medeiros) ex-prefeito de Bom Conselho de 1943/1945,
onde tinha uma padaria e no Barro / São Serafim nas casa do meu
avô Chico Zuza, grande boticário.
Eram vários dias de brincadeiras e de alegria vagando pelos sítios
colhendo cajus, mangas, jaca, jabuticaba, goiabas e tomando leite nos
currais, logo ao amanhecer juntamente com as minhas primas e tios pequenos.
Eram dias maravilhosos, pois, tínhamos uma maior liberdade em andar
e correr pelos sítios e no arruado durante todo o dia, sem cessar
apenas à noite nos aquietávamos programando novos passeios
e brincadeiras para o novo dia.
Em uma destas férias, estava em Rainha Izabel, quando aconteceria
uma “cavalhada” por traz da Capela da padroeira do distrito,
Santa Izabel.
Vários cavalheiros vinham de várias cidades circunvizinhas
para participarem do evento, disputando prêmios e troféus
que eram oferecidos aos melhores.
Provavelmente, com os meus 12 anos, lembro perfeitamente que entre os
cavalheiros que participavam da “cavalhada” estava o meu primo
Abel Vieira Belo, filho de Tio Expedito, residente na cidade de Bom Conselho,
montando um belo cavalo alazão que tinha o nome de “PERNAMBUCO”.
Era um lindo animal de porte avantajado, com uma crina bem aparada, olhos
vivos e perspicazes com uma ardileza fogosa o que demonstrava no traquejo
dos passos cadenciados quando acionado pelo cavalheiro.
E assim, antes da competição os cavalheiros desfilavam pelo
arruado, cada qual em sua bela montaria, em selas macias, sob mantas ou
coxim brancos ou coloridos, arreios brilhantes que ofuscava os nossos
olhos ao clarão do sol, uma fita amarrado na cor “azul”
ou encarnado” ao lado da sela, mostrando de qual “partido”
disputaria a competição, parando ali e acolá nos
botequins sendo cumprimentados por todos.
No final da tarde, se junta todos para competição. Formam
filas, em duplas, de um lado o cavalheiro defende a cor “encarnada”
e o outro defende a cor “azul” cada qual com uma lança
de mais ou menos três metros, pela mão esquerda como os cavalheiros
da era Medieval. Os cavalos se agitam e os cavalheiros quase não
conseguem domina-los. Lá no fundo, com aproximadamente duzentos
metros, dois mastros fincados no chão e um cordão esticado
de lado a lado com duas argolas no meio, onde o cavaleiro em velocidade
procurava recolher com a lança este troféu, o que representava
pontos. A multidão se agitava e batia palmas para cada dupla..
Após a competição todos a corriam para os botequins
para bebericar e comemorar a façanha que cada um tinha desempenhado
na competição. As crianças corriam de um lado para
outro. Pulavam de alegria e torcia quando um dos cavaleiros acertava a
argola e recolhia na ponta da lança. Era uma bela festa. Era um
momento de euforia.
À noite, no pátio da Capela, lá estava um tablado
armado ao ar livre, onde se realizava o “pastoril” onde as
pastorinhas dançavam com roupas da cor “encarnada”
e ou “azul” cantando uma marchinha ao som de uma zabumba e
de um tarrol. O pastoril se apresentava dignamente ornamentada e com todos
os seus componentes, A Mestra, dirigente do cordão “Encarnado”,
que mata a Contra-Mestra; a Contra-Mestra dirigente do cordão “Azul”,
por rivalidade com a Mestra é morta e ressuscitada; no meio a Diana
é que faz intermediação entre os dois cordões
cuja indumentária é feita de ambas as cores. O Anjo é
quem anuncia o nascimento de Jesus e a Cigana, que representa o povo cigano,
entre outras componentes havia a “Borboleta”, a “Camponesa”
e o “Pastor” todos vestidos a moda do pastoril. Ao dar a inicio
ao pastoril todos entram dançando e cantando:
“Senhores, boa noite”,
Chegamos com alegria e agora
Pra saudar o filho de Maria.
Nascido neste dia
Jesus Redentor
O nosso grande amor
Que veio nos salvar.
Salve o Natal de Jesus
O Divino Salvador.
Salve esta noite
De luz e de amor.
Durante todo o evento vendiam-se
prendas, votos para a rainha da “Cavalhada”, aquele que tivesse
mais votos era a vencedora do evento. Era um burburinho pra lá
e pra cá. Moças atacavam os rapazes com os bilhetes ou objeto
que seria leiloado nas mãos e, estes nunca recusavam a esta oferta.
Assim se desenrolava com muita alegria.
Após a eleição e apresentação da vencedora
que recebia das mãos do apresentador, em cima do tablado uma coroa
e uma faixa com os dizeres em letras douradas “Rainha da Cavalhada”
juntamente com um ramalhete de flor, depois era a vez dos cavalheiros
receberem os seus prêmios pelas mãos das autoridades presentes.
Era uma festa de palmas e arroio por partes dos cavalheiros que saiam
para comemorar até altas horas da noite com arroios e balados e
danças folclóricas que marcavam o final da festa com o pastoril
voltando a dançar cantando:
Boa Noite, meus senhores.
Viemos cumprimentar
Que já é chegada à hora
Nós queremos vadiar
Na verdade, Senhores velhos.
Você já não é rapaz
Deixa de tanta pomada
Que isso não lhe assenta mais.
Ao termino da festa as crianças
saiam em companhia dos “mais velhos” diretos para casa para
dormir e dar descanso aos “mais velhos”
No outro dia a vila voltava à calma que lhe era peculiar e nós
voltávamos a perambular “pelos verdes campos do lugar”...
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