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Dois
ou três dias antes de ir à feira de Rainha Izabel, distrito
de Bom Conselho, começava aperrear meus pais para viajar com destino
aquele distrito. Tinha eu lá meus dez ou doze anos de idade, isto
por volta dos anos 1953 / 1954. Nessa idade, não podia me ausentar
de Bom Conselho, que não fosse acompanhado de pessoa de responsabilidade.
Vizinha à minha casa, na Rua do Caboge, existia uma feirante, dona
Zefa Marcolino, senhora alta, forte, de tez morena, que fazia feira aos
domingos em Rainha Izabel, pessoa que meus pais tinham a maior confiança
e, desta forma podia eu a acompanhar e realizar o meu sonho de menino.
No domingo logo às quatro horas da matina, já acordados,
pois tínhamos que partir às 5 horas, viagem era feito a
cavalo. Dona Zefa Marcolino dispunha de uma besta (égua) branca,
que colocava uma cangalha e em cada lado uma mala grande, de madeira,
com todo o produto para venda aos feirantes, no meio da cangalha, colocava
um acolchoado, um coxim branco, para ficar macio e ali se assentava e
ia guiando o seu animal, em passo cadenciado e lento pela estrada de barro.
Logo atrás lá ia eu alegre sorridente e confiante, montado
em um burro do meu pai (este animal era para o seu trabalho de Guarda
de Peste), todo arriado, sela macia, coxim branco, estribo ajustado à
minha altura, todo agasalhado com o gorro na cabeça, para não
apanhar o sereno da manhã. Burro manhoso, apesar de manso, assustava-se
ou acuava com qualquer coisa que fizesse barulho, bicicleta ou automóvel,
que passava pela estrada.
Ao chegar a Rainha Izabel, ia apear na cada de Tia Inacia e tio Antonio
Honório, que morava no final da rua, casa grande, com terraço
na frente, onde tinha um tronco e tamboretes, onde as pessoas sentavam
para contar prosas e fumar seus cigarros de palha, os seus cachimbos e,
aqueles com mais dinheiro, fumavam cigarros Astoria, Aza e Continental.
Desselar e tirar os arreios do animal eram feito logo após a chegada
a Rainha Izabel, levando-o para o cercado, para um descanso merecido.
Voltava, eu, alegre e sorridente para desfrutar daquele dia, para brincar
e passear no arruado. Saída, apos tomar a benção
aos meus tios, e ia vagar com as minhas primas pela feira. Como eram meninas
às vezes me desligava delas e perambulava sozinho, observando a
algazarra, o vozear dos feirantes em oferecer as suas quinquilharias.
Era bonito percorrer a feira, onde tinham de tudo, as barracas e toldas
armadas em fila, cada qual com suas especiarias em comidas, roupas, verduras,
frutas, doces a oferecer aos seus fregueses, que se achegava, se cumprimentavam
uns aos outros. Nas toldas de comidas os fregueses se sentavam em bancos
longos, em cada lada da mesa, forradas com toalhas listradas, nas cores
azul, vermelha e branca, e às vezes, com flores que davam um colorido
todo especial. Ao lado formavam várias garrafas onde continham
os aperitivos preferidos dos feirantes, aguardente marca “Galo Preto”,
licor, misturada (aguardente com raízes), bule com café,
pimenta malagueta e ao fundo o fogareiro aceso, onde se tinha a galinha
guisada, a carde de bode, a carne de carneiro, a carne de boi e porco,
esta uma delicia. Barracas de doces, nos mais variados sabores, como o
de goiaba, banana, mamão, abacaxi, de coco (quebra-queixo), de
amendoins, de castanha, mariolas, caçadas de coco, bolos de milho,
de mandioca, de massa puba. Toldas com carretéis de linha “Corrente”,
fitas de seda, chamalotes, botões de madrepérolas, osso
e comuns, de todas as cores, bicos, rendas, agulhas, chupetas, lápis,
papel de carta, envelopes “Aéreos” e tantas outras
bugigangas que se vendiam na feira. Toldas de roupas feita (comércio
que Dona Zefa Marcolino vendia), calças de linho, de brim, de cáqui,
vestidos de fustão, popelina, chita, algodãozinho nas mais
varias estampas e cores, as quais davam um colorido especial, quando os
penduravam por toda tolda, o que chamavam a atenção dos
fregueses que vinham à feira, à cata de novidades.
NO meio da rua, estendiam-se esteiras, onde os mercadores vendiam anil
(pedra azul que se colocava na água para lavagem de roupas e dando
brancura sem igual), temperos do reino (pimenta e cominho), alho, cebola
vermelha e branca, sabão em barra, fósforo, vassouras, chocalhos,
abanos, folhas e raízes medicinais. Existiam bancas para a venda
de sacos vazios, redes de dormir, alpercatas com o solado de pneu, botinas,
fumo preto de rolo e de tantas outras variedades de mercadoria. A feira
de frutas e legumes era de uma riqueza e fartura inigualável, onde
se encontrava, dependendo da época, frutas como: abacaxi, caju,
araçá, coração da índia, goiaba, umbu,
jaca, laranja cravo, laranja mimo-do-céu, laranja comum, lima,
limão, mamão, melancia, manga, melão, pinha, ingá,
vendiam-se também queijo de coalho, queijo de manteiga e coalhada
escorrida, mel de abelha e mel de urucu, mel de engenho, rapadura batida
e comum; nas esteiras do meio da rua vendia-se ainda, panelas de barro,
potes, fogareiros cuscuzeiras, tudo em barro, muitos desses utensílios
era feitos em flandres; vendiam-se cabaças e apetrechos de couro,
como selas e arreios para cavalos, chicotes, coxins, mantas, esporas;
vendia-se também gado, novilho, bode, porco, galinha pedreira e
de capoeira, capão, peru, negociavam-se cavalos, burros e jumentos.
Já cansado de perambular pela feira, ia descansar na igreja onde
na calçada sentava nos degraus. Às dez horas da manhã,
impreterivelmente, era observada aquela multidão de fieis, que
aos poucos vinha chegando, piedosamente de pés descalços,
pagando promessas, vestidas em chitas ou algodãozinho, nas cores
rosa, branco e azul, com véu na cabeça, terço nas
mãos, os homens com vestimentas de brim, cáqui, de alpercatas,
botas, chapéus de palha ou de couro, tudo na maior simplicidade;
os mais afortunados colocavam as suas melhores roupas de linho, casimira,
sapatos de duas cores e o seu chapéu de massa marca “Ramenzonni”,
e suas mulheres e filhas se vestiam, dentro da moda, com seus vestidos
de organdi, de sedas e linhos, cobriam a cabeça com as mantilhas
e véus da melhor qualidade, com o seu “adoremus”, até
que o sino badalava a última chamada dos fiéis e o padre
entrava todo paramentado para celebrar a Santa Missa.
Tudo isso era admirado na minha meninice. Após horas voltaria à
casa de meus tios, para regressar a Bom Conselho às quatro e meia
da tarde, quando a feira ia terminando. Era um espetáculo chegando
ao fim, com a desarrumação das toldas, embalagens dos saldos,
sobras de frutas, verduras e tudo mais que se pudesse aproveitar.
A vila voltava ao normal, esperando uma nova feira no domingo próximo,
onde tudo se repetiria. Lá estávamos nós, montados
em nossos animais para o regresso a Bom Conselho aonde chegaríamos
por volta das oito horas da noite, já cansados, porém com
a enorme vontade de repetir tudo no domingo seguinte.
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