Memória de outros tempos: O “sinal”
 

Sentado à minha mesa de trabalho, vejo através da janela a Capela de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1825 e restaurada em 1925 e em 1982, reconquistando todo aspecto original, com suas imagens, altar, piso e bancos do século XIX. Ela fica no bairro de Mustardinha, no Recife.
Ouço o sino da Capela tocar chamando os fiéis para a Santa Missa do Dia de Finados e a cada momento, durante o dia, aquele toque fúnebre e triste, que em tempos passados chamávamos de “sinal” que reverenciava os mortos.
Recordo o tempo de meninice em minha terra, Bom Conselho, residindo à Rua do Caborge, 120, e posteriormente no número 144 da mesma rua, hoje Rua Monsenhor Marques, bem perto da casa de Padre Alfredo Pinto Damaso e da Matriz da Sagrada Família. Recordo que ao ocorrer falecimento na cidade íamos tocar “sinal”. Subíamos à torre da Matriz e haja badalar o sino, tantas e quantas vezes a família enlutada encomendava.
Quando o sino da Matriz tocava o “sinal” toda à comunidade procurava logo saber quem havia falecido. Toda a cidade ouvia o aviso fúnebre. Acorriam às ruas as pessoas na hora que o féretro passava com destino à sua última morada, acompanhado por pessoas cabisbaixas, às vezes chorando até o cemitério de Santa Marta. O cortejo era acompanhado por mulheres de preto (luto) e os homens da família com uma tarja preta (fumo) no braço esquerdo, que simbolizava o sentimento de perda de um ente querido.
Quando ocorria a morte de pessoa influente na cidade, era convocada a Banda de Música para acompanhar o féretro, tocando música fúnebre até o cemitério.
E nos ficávamos ali no alto da torre a observar o cortejo e naquela hora tacávamos o sino com mais força, como se quiséssemos que o morto ouvisse aquela homenagem.
Após a passagem do enterro, vinha aquele silêncio profundo na igreja, somente se ouvindo o nosso passo e sussurros na descida pela escadaria da torre.
Saindo pela sacristia, passávamos pelo pátio da Casa Paroquial tirávamos amoras, sem que o padre nos visse e ganhávamos a rua a correr e a brincar, esperando que outro falecimento acontecesse para que tornássemos a tocar o “sinal”.
O tempo não apaga de nossa memória essas recordações de nossa cidade interiorana, onde vivemos nossa infância. Hoje o tempo mudou.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com