PENSIONATO NO RECIFE - III
 

 

Morávamos na Rua Barão de São Borja no bairro da Boa Vista há quase um ano. Chegou um convite em uma noite de sábado para juntarmos e criar uma REPUBLICA na Rua Dr. José Mariano no bairro dos Coelhos em frente a sua favela e junto da Fabrica de Leite Cilpe.
O convite partiu de um rapaz chamado Decio cujo apartamento o dono era seu pai e que o aluguel custearia os seus estudos de Engenharia na Universidade Católica de Pernambuco. A conversa de bar nesta noite versou sobre a REPUBLICA analisando os prós e contras que a mesma daria. Analisamos e chegamos a uma conclusão de que passaríamos a ter uma vida mais privada e ao mesmo tempo com um padrão de vida melhor, haja vista, que as refeições seriam realizadas na REPUBLICA.
No domingo voltamos ao assunto com mais força. Analisamos que na pensão que estávamos morando tornara-se monótona e sem graça. Já não havia aquela união de quando chegamos lá para morar devido à rotatividade que existia, uns entrava outros saiam. Entre um gole de cerveja e outro chegamos à conclusão que deveríamos ir fazer esta experiência republicana. Comunicamos o fato ao Sr. Antonio o dono da pensão, pagamos os dias que faltavam para completar o mês e, nos mudamos de “mala” e “cuia” no sábado
A mudança foi logo feita pela manhã. Compramos algumas cervejas e um litro de Rum Montilla e algumas garrafas de Coca Cola para inaugurar a REPÚBLICA DOS INOCENTES o que foi realizado na parte da tarde com a compra de “dobradinha” e “sarapatel’.
O apartamento era grande e espaçoso, uma grande sala, três grandes quartos, copa e cozinha e dois banheiros o qual ficava no quarto andar do edifício servido por um elevador. A tarde deste sábado foi de alegria e comemoração na nova comunidade A REPUBLICA DOS INOCENTES que era composta por rapazes estudantes, Decio o dono do apartamento estudante de Engenharia; Fernando Oliveira, apelidado de “Urso Branco” estudante de Veterinária; Paulo Medeiros, o Paulinho estudante de Administração; Carlos Alberto estudante de Medicina apelidado de “Vaquinha Mococa”; João Soares, vulgo “João da Bronca” estudante de Economia; Edmilson da Silva, estudante de Administração apelidado de “Milson” e eu José Antonio Taveira Belo estudante de Administração com apelido parecido com o meu sobrenome “Caveira”. E, assim começamos o nosso dia-a-dia formidável, onde todos se entendiam maravilhosamente. Nenhuma encrenca. Todos cooperavam nos finais de semana para compras.
Após quatro meses de convivência, começaram a surgir os desacertos quanto às compras semanais de alimentos e limpeza. Cada um fornecia uma lista de compras que era dada ao encarregado da semana para fazer as compras no supermercado e cada um desejava um tipo de alimento e o que não podia faltar era o feijão, arroz, macarrão, o leite, o pão, o café, as frutas e verduras de um modo geral. Mas alguns acharam por bem acrescentar nas suas listas o camarão, o file e posta de peixe, o bacalhau, o file mignon, o pernil, o azeite “galo” vinhos e cerveja e assim por diante.
Nos primeiros meses foi uma maravilha, depois, começou a faltar dinheiro para compras do final de semana, bem como, começaram as reclamações de quem “comia mais” e os “gêneros de luxo” eram gêneros supérfluos e, ai começou a discórdia. A Cozinheira contratada já não tinha mais alimentos para cozinhar por que começamos a comer nas cantinas da universidades, nos balcões da lanchonetes e assim por diante. Resolvemos em uma reunião acabar com as refeições e que cada um procurasse a sua maneira de se alimentar, ou nas pensões da Rua Velha, da Leão Coroado ou na Rua do Aragão. E, assim foi feito, cada um procurou o seu lugar para refeições, e muitos voltaram para pensão na Rua Leão Coroado junto a Padaria Santa Cruz, onde levávamos um “pãozinho quentinho” para acompanhar o almoço.
Passamos mais ou menos um ano morando no apartamento de Delcio quando se resolveu todo mundo sair com a chegada das férias escolares quando muitos iam passar estas férias nas suas cidades de origem com os seus familiares. Quando voltamos fomos parar em pensões diferentes e somente encontrávamos nos finais de semana, como sempre, no Bar Santa Cruz... E assim fechamos o REPUBLICA DO INOCENTES que deixou saudades em muito de nós.


José Antonio Taveira Belo / Zetinho
Olinda, 29/09/2008.

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