O DOMINGO NO PENSIONATO
 

O sino da Igreja Matriz de Santa Cruz badala chamando os fieis para a missa das 7 horas da manhã. Ouço o gazeteiro gritar na rua oferecendo o jornal do dia gritando em alto e bom tom, com a voz arrastada, o Diariooooo o Comerciooo.
Acordo com estes ruídos neste domingo ensolarado e de céu azul. A luz clareia o teto do casarão. As janelas abertas trás uma brisa que ameniza o calor que esta prestes acontecer. O ruído de algum carro que passa na rua incomoda os nossos ouvidos. Vez por outra um verdureiro oferece as frutas como à banana anã e prata, o abacaxi, a manga rosa e a manga espada, a melancia, o mamão, o sapoti, o abacate, a carambola, as verduras como a batata inglesa, o tomate, o pimentão, o alho, o quiabo, o maxixe, a abobrinha, o cebolinha, a cenoura, o pepino, a cebola roxa e a branca, o chuchu, o repolho, o coentro, a beterraba, o inhame, a macaxeira, e a batata doce entre tantos outros oferecidos de porta em porta em dois cestos pendurados lado a lado e carregado nos ombros.
Desço a escada e o procuro o jornaleiro já este indo para Rua de Santa Cruz. Vou até a barraca de revista no Pátio de Santa Cruz e compro o Diário de Pernambuco.
Leio as primeiras às manchetes da primeira página, dobro o jornal e vejo já algumas senhoras que se aproximam da Igreja e entram fazendo a genuflexão na porta, algumas com o véu ou mantilhas preto outras com o véu branco cobrindo a cabeça em sinal de respeito à Igreja, com o Adoremus e o terço nas mãos.
Subo a escada. Alguns dos pensionistas já estão acordados, outros ainda dormindo, pois chegaram de madrugada da farra. Dona Lídia já na sua cadeira de balanço tricotando. Entro no quarto e apanho a toalha, e o sabonete e vou ate o banheiro. Já este está ocupado. Fico esperando sentado na cadeira de palhinha na sala. Ao desocupar entro no banheiro tomo banho, depois do banho estendo a toalha no varal e volto para o quarto para apanhar o jornal.
Aguardo alguns minutos, enquanto o meu companheiro de quarto acorde para irmos até a outra pensão para tomar o café da manhã, pois de acordo com as informações o desjejum matinal somente é servido até 8 horas.
Enquanto espero fico folheando o jornal. O meu primeiro interesse seria a página de “empregos” onde teria alguns anúncios. Leio todos eles a procura de um que se adapta ao meu conhecimento, o de “Auxiliar de Escritório”. Recorto alguns anúncios para na segunda feira ir até a agencia de Emprego Guararapes. A minha segunda opção foi folhear a página de esporte para ver as noticias do futebol, principalmente do meu querido Sport Clube do Recife do qual sou torcedor ferrenho.
Seguimos para o café naquela manhã de domingo. Foi servido a mesa uma banana comprida cozida, uma tapioca e um pão com mortadela, café com leite e pronto! Estava pronto para enfrentar a manhã até ao meio dia, hora do almoço marcado pela dona da pensão/refeitório.
Voltamos para o pensionato. Alguns estavam ainda dormindo, outros saiam do banheiro, outros se dedicavam a arrumar o “quarto” juntando a roupa suja fazendo uma “trouxa” para se entregue a lavadeira que viria à tarde do domingo, outros se aprontavam para ir à praia da Boa Viagem e os mais afoitos para o lado de Olinda.
Dediquei este dia, para arrumar o guarda roupa que estava uma bagunça, e ao mesmo tempo me preparara para comparecer a Agencia de Emprego Guararapes a fim de conseguir um emprego.
Mas, a tentação é muito grande e lá fomos tomar uma cerveja no Bar do Deda. A musica colocada na radiola de ficha era convidativo irmos até aquele lugar, A Volta do Boêmio cantada por Nelson Gonçalves.
Coloquei uma camiseta do Sport e lá fomos tomar a tal cerveja, mais ou menos às dez e meia da manhã.
Descemos à escada e sentamos em uma mesa que dava vista para o Pátio de São Cruz. Aos poucos outros freqüentadores chegaram. Da nossa pensão desceu Kid, apelido de Itamirinense. Começamos a bebericar a lá perdemos a noção do tempo e o almoço lá se foi de água abaixo, pois, o entretenimento tomou conota e não vimos às horas passarem. Neste domingo sonolento ficamos sem almoçar, somente ingerimos “tira gosto” de fígado acebolado e “arrumadinho”, charque com feijão verde.
Às duas e meia da tarde, subimos para o quarto. Tomamos banho e fomos dormir. O silencio era total apenas se ouvia os nossos passos no assoalho de madeira.
Lá pelas quatro horas da tarde alguns se levantavam, sentavam-se em frente da televisão para assistir algum programa. Outros se dirigiam para o centro do Recife para assistir algum filme nos cinema da cidade, escolhiam de acordo com a película o São Luis, o Moderno, o Art. Palácio ou no Trianon. À noite a maioria se dirigia à Lanchonete Imperatriz para o café. Comíamos sanduíche de queijo, ou macaxeira ou inhame com ovos mexidos e famoso leite pingado. Outros comiam “macarrão a cavalo”.
O domingo em pensionato era muito tedioso e sem nenhuma atração, tínhamos que sair para que a tristeza não abatesse mais do que sentíamos. Mas, no entanto também era divertido quando tínhamos companheiros para compartilhar a brincadeira de jogar “damas”, “baralho”. Mesmo assim foi um tempo bom e de boas recordações dos companheiros que passaram por estes momentos e que hoje ainda recordam este momento, como eu.

 

José Antonio Taveira Belo/ Zetinho

 




 

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