As crianças do interior são mais criativas
do que as crianças da Capital. As crianças do interior
são mais soltas, mais livres e sempre tem a criatividade de
inventarem brincadeiras, do que as crianças da Capital, que
vivem confinados em apartamentos, nos play ground dos grandes edifícios,
sem total liberdade. As brincadeiras do interior, todas tem a sua
época. Época de brincar de pião e chimbre (bola
de gude), nas ruas sem calçamento, soltar papagaio (empinar
pipas) nos elevados da cidade e tantas outras brincadeiras que eram
criadas pelas crianças.
Lembro-me, que em minha infância, pelos idos anos de 50, morávamos
em Bom Conselho, minha querida cidade natal, na Rua do Caborje, 120,
todos nós, meninos, admirava os rapazes que montavam os seus
cavalos garbosamente e desfilavam pela cidade. As cavalhadas, a pega
do boi e o mourão se sucediam na cidade ou nos distritos do
município, onde cada um participante disputavam os prêmios.
Como não podíamos cavalgar e participar da contenda
com os adultos, só nos restava inventar uma brincadeira semelhante,
então, criamos o CAVALO DE PAU.
Era uma vara longa, onde colocávamos em uma das extremidade,
um cordão, que em nosso pensamento se tornava rédeas
do cavalo, e lá saiamos ás carreiras rua acima, rua
abaixo, galopando como se estivéssemos realmente montados em
cavalos.
Certa vez, inventamos de fazer uma cavalhada e, preparamos toda festa,
na calcada da Igreja Matriz, que para o lado da Praça Mons.
Alfredo Pinto Damaso, onde sempre á tarde fazia sombra e era
o local ideal para a competição. Todos nós, cavaleiros,
inscritos para a competição, dava nome ao seu CAVALO
DE PAU, e o meu levou o nome de PERNAMBUCO, devido ao meu primo Abel
Vieira Belo, que possuía um belo cavalo alazão, com
o qual competia no mourão, na cavalhadas e na pega de boi,
brilhantemente. Encantados com as cavalhadas que eram realizadas e
assistidas por todos nós, com desfile dos competidores, com
os seus vestimentas coloridos e com seus cavalos com arreios brilhantes,
organizamos uma competição semelhante, só que
os nossos cavalos era de PAU.
E, num belo dia, de sol brilhante, com o céu totalmente azul
sem uma única nuvem, todas as crianças competidoras
lá estavam brilhantemente vestidos nas cores VERMELHA e AZUL,
cores tradicionais destes festejos. Entre o poste de luz elétrica
e a parede da Igreja Matriz, estendemos um cordão, bem esticado,
e no meio colocamos uma argola, onde o cavalheiro deveria acertar
com uma vara e a cada vez que acertasse ganhava pontos. Lá
estavam todos perfilados, de um lado os cavalheiros que defendiam
a cor vermelha e do outro os que defenderiam a cor azul. Mais uma
vez, meu primo Abel Vieira Belo influenciou na escolha da cor que
eu defenderia, e eu escolhi a cor AZUL.
Mais ou menos cinqüenta metros, teríamos que correr á
toda velocidade, segurando as rédeas do cavalo de pau com a
mão esquerda e com a direita a lança que tiraria a argola,
a qual seria oferecida a uma pessoa presente, normalmente uma menina
era agraciada com o troféu. Foi uma tarde memorável,
de grande alegria para a meninada que disputavam a competição.
Muitos foram os felizes que acertavam no alvo, a argola, eu, não
me recordo se consegui retirar a argola, porém, a certeza de
ter disputado com muito esforço a competição.
São recordações que não se apagam de nossa
memória, mesmo que o tempo passe, elas continuam fortes em
nosso pensamento.
José Antônio Taveira Belo Escrito para o Jornal A Gazeta
da cidade de Bom Conselho em
15/jan/1996.