RUA DO CABORGE

 

Nasci nesta rua. Durante quatorze anos residi entre as casas nº 120 e 144.
Há pouco tempo estive passeando pela Rua do Carboge (hoje, Mons. Marques) curtindo as saudades do tempo de criança que ali vivi. A rua parecia mais curta. Fiquei parado, um bom tempo, olhando de um lado para o outro, como se procurasse algum vestígio das pessoas que ali conviveram e que fizeram parte da minha vida.
Fui até o final da rua. Andava sem pressa, Um vento frio soprava naquele dia. Sentia-me morando, naquele momento, na Rua do Caborge. Veio-me à memória as pessoas que ali residiam na década de 50. Eram pessoas simples e humildes.
Observei que algumas casas tinham sua fachada modificada, inclusive, a casa onde nasci, 120, hoje um pequeno mercado. Fui ate o final da rua. Caminhava devagar, passadas curtas, para não me ausentar rapidamente do solo onde dei os meus primeiros passos. Muitas famílias que ali moraram, não me recordava, outras sim.
Lembrei-me, de “seu” Zé Angico, ourives da primeira qualidade. Fabricava brincos, pulseiras, anéis e cordões de ouro puro. 18 quilates. A oficina com várias bancas de madeira, onde trabalhava alguns filhos seus. As jóias ficavam expostas, muitas vezes, via-as brilhando.
No outro lado da rua, a casa de Zé Malafaia. Tinha um alpendre na frente da casa, embaixo um tronco de madeira, que servia de banco para as pessoas sentarem-se. O beco que ligava a rua do Caborge à rua dos Correntões, já povoada. Antigamente, este beco era escuro, sem calçamento, fazendo medo atravessar, principalmente à noite.
Do outro lado, a casa tipo bangalô de Mestre Amâncio, construtor civil, a melhor da rua; Vizinha, a casa de Dona Zefa Marcolino, mulher de fibra. Mascate, negociava na feira livre na praça Pedro II, com uma tolda onde expunha peças de roupas, calças e camisas de caqui e brim. Aos domingos, em cima de uma égua seguia para a feira de Rainha Izabel para vender seus produtos. Quantas vezes a acompanhei nesta empreitada.
Defronte, morava o Sr. Pedro Anselmo, solteirão e mal visto pela criançada da rua. Morava sozinho em uma pequena casa esquisita. Toda criança tinha medo dele, dizia que era um papa-figo.
Seu Belon, quase meu vizinho, fabricava tamancos de madeiras para comercializar na feira. Tamancos de todos os tamanhos. Passava a semana sentado, pregando tiras a madeira com um pequeno martelo. Tinha prática naquele serviço. Meu padrinho de festa no São João, em volta da fogueira. Lembro-me que se colocava uma bacia de ágate branca, no chão cheia de água límpida e imóvel, onde as pessoas se debruçava para ver o seu rosto, caso não visse, talvez no próximo ano não estivesse presente na festa de São João. Muitos resistiam a esta brincadeira, com medo. Tudo supertição, penso agora.
Dona Luiza, morava em uma casa pequena, de dois cômodos. Uma negra sorridente e simpática. Mantinha na cabeça um pano enrolado, todo branco. Ficava o dia inteiro a frente da almofada com os seus bilros entre os dedos trabalhando na confecção de bicos para enfeites em vestidos. No pátio da pequena casa, jogávamos chimbre, pião.
Em frente, a casa de Dona Zefinha, onde todas as noites reuníamos na sala para ouvir os capítulos da novela “O Direito de Nascer” pelo rádio, o único da rua. Todos atentos durante a narração dos capítulos. Ficávamos tensos. Torcia por esse ou aquele personagem.
A casa do Sr. Nelson, fotografo lambe-lambe, que instalava sua máquina fotográfica, num tripé, na calçada lateral da Matriz, onde tirava os retratos das pessoas que o procurava. O Sr. Pedro Sacristão, morava em frente, tomava conta da Matriz da Sagrada Família, e também era fotografo lambe-lambe, aos sábados, dia de feira, na calçada da Matriz.
A barbearia de Seu Lourenço ficava lotada nos dias de feiras. Todas as pessoas que vinham dos sítios e distritos se apeavam a frente de sua barbearia. Amarrava seus cavalos, burros, e sentava-se a espera do corte do cabelo ou da barba.
A bodega de Dona Cecília ficava estabelecida logo no inicio da rua. Era uma senhora magra, cabelos escorridos e um largo sorrido. Atendia as crianças que iam comprar cocadas na venda. Do outro lado, a casa do Padre Alfredo. Muro alto, portas fechadas a chave para que ninguém entrasse sem a permissão do Vigário. Da calçada da matriz da Sagrada Família, olhei mais uma vez para o fim de rua do Caborge, senti saudades da minha infância querida, apanhei uma condução para Garanhuns, em frente do bangalô de Luizinha Correntão no esquisito ponto de ônibus, que as pessoas insistem de chamar de “Rodoviária”.

Os tempos em que vivi em Bom Conselho sempre tem alguma coisa pitoresca, e me relembra estes momentos. Na década de 50 as criança tinham por hábito colecionar carteira de cigarro. Após o uso da pessoas adultas eram jogados pelas ruas e as criança saiam a cata deste invólucro para abrir com cuidado dobrar e se passar por uma nota (dinheiro) para as transações comerciais, nossas. As marcas de cigarros que eu me lembro, Ast .

José Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com

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