Aproximam-se os festejos juninos dedicado a São
João. O tempo passa e a recordação permanece
viva principalmente os festejos das cidades interioranas onde em tempo
passado o São João é reverenciado pelo povo “matuto”
piedosamente se recomendando ao Santo.
Esta festa me faz recordar e reviver o tempo inesquecível de
criança marcada e vivida boa parte da minha infância
na minha querida Rua do Caborge, aquele pedacinho de chão que
tanto amo. Ali, na Rua do Caborge, nasci e vivi até aos treze
anos de idade. Essa querida rua se engalanava para os festejos juninos
com o entusiasmo dos seus moradores. A rua de terra batida, buracos
na sua extensão, onde poucos carros passavam somente os carros
de bois transitava com destino ao distrito Barro do Brejo.
Na minha casa 120, onde nasci e posteriormente na casa nº. 144
onde residi à festa era esperada pela minha mãe Nedi
e o meu pai Antonio Zuza. Eles se preparavam uma semana antes, indo
até o Sitio da Terra Preta onde colhia milho verde, feijão
verde, fava, abóbora, macaxeira e além da lenha para
fazer a fogueira em frente da nossa casa.
Na véspera de São João sempre uma chuvinha fina
caia durante todo o dia, mas mesmo assim fazia-se a “fogueira”
para acendê-la mais tarde, à noitinha, a rua se enfeitava,
com bandeirolas coloridas traçadas de um lado para o outro
dando o aspecto de um arraial “matuto”. Durante todo o
dia as donas de casa se prendiam na cozinha a preparar as comidas
de milho, como pamonha, canjica, pé-de-moleque, mungunzá,
o milho verde cozido ficando a cozinha cheia de palha de milho, vasilhas
cheias de caldo do milho. Ali ainda ficava algumas espigas de milho
verde em uma “gamela” para se assar na fogueira à
noite.
Os homens tinham a tarefa de ralar o milho verde e raspar o coco.
Era aquele montão de milho e alguns cocos secos. As panelas
no fogo a lenha em um fogão feito de tijolos e pregado na parede
dava aquele aspecto de casas modesta do interior. O cheiro das comidas
no fogo enchia o ambiente com aquele adocicado gostoso. Poucas pessoas
tinham fogão à lenha. Lembro que na cozinha do bangalô
de Luizinha Correntão tinha um todo “branquinho”
com puxadores brilhosos e com algumas florzinhas azulzinhas que enchia
os olhos de todos que ali chegava.
Era aquela alegria. Ouviam-se as musicas do São João
cantado pelo sanfoneiro Luiz Gonzaga, uma principalmente que ate hoje
é cantada tanto no interior como na capital. Cantava-se assim,
“Olha pro céu meu amor / olha como ele está lindo
/ olhe aquele balão todo em cor / que lá no céu
vai subindo.... “Olé muié rendeira / olé
muié renda / tu me sina / fazer renda / que eu te ensino /
a namorar... assim tantas outras. A noitinha se reunia todo eu em
torno da mesa para o “café”. Saboreávamos
o milho cozido com café, a pamonha de coco, a canjica e o pé-de-moleque.
Comíamos um pouco depressa, pois, já estávamos
no preparando para “soltar fogos”.
Após o “café”, papai se levantava ia com
uma garrafa do querosene “Jacaré” e aos pouco e
com muita paciência conseguia acender a fogueira apesar da “lenha”
se encontrar molhada pela chuva que caia. As crianças começaram
a pular e a correr pela rua. Mamãe Nedi trazia para a calçada
os “fogos” para soltar comprados numa loja do “Quadro”.
Na alegria e com um tição de fogo na mão começávamos
a queimar as “estrelinhas”, as “chuvinhas”,
e os “traques” que jogávamos ao chão ouvindo
aquele “estalido seco” e mais o brinquedo perigoso o “estalo
bebe” que para nós era um estampido, pois, colocávamos
sempre as mãos nos ouvidos para amenizar o barulho. Depois,
de gasto todos os “fogos” saíamos em desabalada
carreira a brincar de pega. As meninas davam-se as mãos e começavam
a brincar de “roda” na maior alegria cantando sempre “Atirou
o pau no gato, to, to / mas gato to, to não morreu, réu,
réu / Dona Chica ca, ca domirou-se, se, se do miau do miau
que o gato deu” todas davam um pula e caiam de cócoras
na maior gargalhadas. Quanta inocência nestas brincadeiras e
neste tempo que não voltam mais, quanta alegrias transbordava
em nossas faces.
As moças se acomodavam e começavam a tagarelar, a contar
os seus segredos e sues flertes e ao final cada uma davam uma pequena
gargalhada levando à mão a boca e piscando o olho uma
para outra, todas sentadas em cadeiras ou tambores colocados na calçado
em “roda” Depois daquele converseiro uma ia buscar uma
bacia de agate, toda branquinha e com muita água e colocava
junto à fogueira já em brasas e ali cada uma ia se olhar
no naquela água parada e límpida e ver se via o seu
rosto, caso não visse poderia morrer durante o ano. Muitas
delas não iam até a. bacia, pois, temia não se
ver e aquilo seria um agouro. Outras brincavam do “anel”,
colocada entre as mãos que iam de mão em mão
e a pessoa que mais gostava deixava o anel cair em sua mão.
Outros tomavam os seus vizinho como “compadres” e comadres”
os quais adotavam os seus filhos como “padrinho de São
João”. O meu “padrinho foi o tamanqueiro Seu Belon,
homem que fazia “tamancos de madeira”, em tranças.
Os rapazes se juntavam em torno da praça Pedro II, o Quadro
e ali ficavam em pé encostados-se às palmeiras imperiais
a flertar com as moças que passeavam ao redor da praça.
Alguns se aventuravam a tomar alguma bebida “quente”,
tal como a “misturada”, a aguardente “Galo Preto”,
o Rum Merino”, e assim por diante.
Os casais sentavam-se nas calçadas a conversarem sobre os mais
variados assuntos, ali de tudo saia. Os homens se reuniam afastados
das senhoras e ali bebiam e conversavam animadamente, sobre política,
os “casos”, as viagens, o tempo, a lavoura, o gado e tantos
outros assuntos. Assim por volta da onze horas da noite todos se recolhiam
aos seus lares para dormir.... Assim era o meu São João
em Bom Conselho, lá para os idos anos de 1950.