A PRAÇA É NOSSA!
 

 

Tenho andado pelas ruas recifenses sem compromisso, apenas observando o movimento intenso de pessoas, carros, e ônibus que levam uma vida sem observar nada ao seu redor.
Desta vez andei pela Rua da Concórdia, onde uma vez por ano fica intransitável com uma multidão de pessoas, por ocasião do desfile do bloco Galo da Madrugada. Era mais ou menos quatro e meia de uma tarde ensolarada e de vento brando que me assento na Praça Joaquim Nabuco junto a estatua imponente do grande político, historiador, jurista e jornalista um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras tomando a cadeira de Maciel Pinheiro, fundando a Sociedade Antiescarvidão Brasileira, sendo, portanto, um grande responsável pela Abolição. A praça neste momento tinha de tudo, pessoas sentadas jogando domino, outros mendigando, engraxates, vendedores de “caldo de cana” e algumas damas da “vida fácil” aguardando os seus fregueses enquanto eu estava observando o prédio que outrora fora o Cine Moderno, hoje o espaço ocupado pela loja Insinuante, com as suas mercadorias a mostra.
Ali pensando, e me fiz uma pergunta: quantas vezes assisti filmes naquele local acolhedor que para mim era melhor sala de cinema no Recife? Centenas de vezes e hoje reduzida ao uma casa comercial. As pessoas não dão valor o que se tem.
Nas minhas divagações, não observei a chegada de uma pessoa ao meu lado. Subitamente esta pessoa disse: Boa tarde meu bem. Esta esperando alguém? Respondi, não. Posso sentar. Claro que pode sentar, a praça é nossa. Era uma mulher nos seus vinte e sete anos, morena, de cabelos e olhos castanhos, lábio pintado de um batom vermelho, argolas douradas nas orelhas, vestia-se com uma blusa curta, mostrando os seios sustentados pelo um sutiã vermelho e com uma saia bem curta vermelha mostrando umas belas pernas. Sentou-se e cruzou as pernas para observação de quem passasse por ali. Convidou-me para um encontro e como não foi aceito começou a falar sobre a sua “vida fácil” e como começou há doze anos atrás. “Fiquei atento, como um menino que escuta uma historia de “Troncoso”. Começou falando que era de Bom Jardim, cidade do interior de Pernambuco. O senhor conhece? Claro que conheço esta bela e pequena cidade. Disse que quando tinha mais ou menos seus quinze anos começou a namorar o “filhinho de papai” da cidade e com começou a freqüentar alguns lugares que ela não tinha condições de freqüentar, pois era de gente humilde e morava na periferia da cidade em uma casa bem pobre. Como eu era bonita chamava a atenção dos rapazes da cidade. E, neste encantamento comecei a me envolver com este “Filhinho de papai” e num descuido fiquei “grávida”. E, ai as coisas começaram a ficar “preta”. O rapaz não quis assumir a responsabilidade, o meu pai, um homem ignorante me dispensou e mandou eu “me virar”, pois por falta de conselho não foi. E, assim me vi sem teto e sem abrigo e sem amigos. Infelizmente a “gravidez” não vingou. Decidi vir para o Recife, tentar a vida de outra forma, como “empregada domestica” ou como “garçonete” ou mesmo outro emprego para me sustentar. Consegui o emprego de “empregada domestica” no bairro do Espinheiro, em um apartamento muito bem montado, no quarto andar de um edifício, onde morava um casal e um filho de dezoito anos, que logo se encantou por mim e, já “macaca velha” no assunto não quis me envolver com ele e diante da sua insistência resolvi sair do emprego. Fui convidada por uma amiga para trabalhar num Bar/Restaurante como “garçonete” e, ai coisas começaram a ficar difícil. Comecei a namorar um freguês do bar que me convidou para morar com ele o que aceitei. Nos primeiros tempos tudo era uma maravilha e com o tempo passando as coisas pioraram. Neste emprego de garçonete fui convidada para fazer um “programa” junto com uma amiga minha por um bom valor o que pensei e disse para mim mesma: “Eu vou nessa” “Estou precisando de dinheiro e a coisa não está fácil aqui neste bar, pois tenho que pagar pensão, e outras despesas”. Depois deste primeiro “programa” perdi o emprego e o homem com quem morava e passei a freqüentar a Rua da Palma e Concórdia fazendo “bicos” nas horas livres. Agora com vinte e sete anos estava arrependida deste “trabalho duro” que muitos dizem de “vida fácil”, mas é uma “vida difícil” que causa preocupação durante a vida, pois a cada dia a velhice vai chegando e a nossa “mercadoria” vai ficando desvalorizada e sucateada. Ninguém mais olha para você e somente o desprezo é visto. Depois desta confissão disse para ela, que para tudo existia um “jeito” e que só dependia de nós próprios em tomar um novo rumo de vida, deixando o passado fora do nosso pensamento e voltando a viver o presente.
Olhei para o relógio, era cinco e meia da tarde, as luzes da praça e das casas comerciais estava acessas. Os ônibus passavam em velocidade e alguns parando nos terminais e recolhendo as pessoas para a sua residência. Ela levantou-se e pediu desculpa pelo desabafo e saiu com o passo faceiro para a esquina da Rua Frei Caneca e Concórdia onde ficou em pé e acendendo um cigarro, deu um trago forte e soltando a fumaça para o ar.
Depois deste dialogo sai e caminhando em direção a parada do meu ônibus, pensando naquela mulher de “vida fácil” como de tantas outras que sofrem na vida apesar de apresentar alegria fingida.


José Antonio Taveira Belo /Zetinho