| A saudade
traz ao ser humanos momentos felizes vividos ao longo da vida. Recordar
o que se passou na vida é uma terapia gostosa e alegre e às
vezes triste, mas é de fundamental importância na vida do
ser humano. Diz um adágio popular que “recordar é
viver” e, eu estou certo disso. Recordar é sentir saudades
dos bons acontecimentos da vida quando temos a felicidade de ultrapassar
os seus 60, 70 ou 80 anos de vida, com saúde e na paz junto com
aquelas pessoas que você ama e admira, a sua família e os
amigos sinceros.
Eu, por exemplo, tenho saudades do tempo em que vivi em minha querida
cidade natal BOM CONSELHO, nos idos anos 40 e 50, quando criança
na minha eterna Rua do Caborge, 120 e 144, onde residi.
Recordo com muita saudade das brincadeiras em torno da Matriz da Sagrada
Família; das aulas de alfabetização dadas pela minha
primeira professora, minha mãe Nedi Taveira Belo em uma casa no
Corredor, quando eu carregava com muito orgulho a carta do ABC, Tabuada
e um caderno encapado com papel rosa de “embrulho”; as primeiras
aulas do curso primário no Grupo Mestre Laurindo Seabra pela minha
segunda professora ZÉLIA VIEIRA DIAS, filha João Zuza e
Luisinha Correntão, moradores do bangalô na Praça
Livio Machado, a qual acompanhava todos os dias a aquele educandário
primário; da alegria na aprovação ao EXAME ADMISSÃO,
para o primeiro ano do curso ginasial no Ginásio São Geraldo;
dos professores VALDEMAR GOMES DE SANTANA, diretor do Ginásio São
Geraldo, enérgico, disciplinador e do Dr. CIRILO, juiz de Direito,
homem de respeito, se vestindo sempre de terno branco e de ZÉ DE
POLUCA, professor do canto orfeônico; dos Natais e novenas que aconteciam
na Matriz da Sagrada Família; dos passeios dos rapazes e moças
na calçada da Praça Pedro II, de onde saia muitos namoros
e casamentos; dos meninos (inclusive eu) correndo de pega, às vezes
passando entre as pessoas em correria, fazendo com que as moças
reclamassem desta atitude; das barcas, trivolim (carrossel), rodas gigantes
armados para as crianças se divertir na Praça Livio Machado
em frente ao bangalô de Luizinha Correntão; das barracas
de comes e bebes armadas ao redor da Matriz, iluminadas por candeeiros
a querosene “Jacaré” e às vezes com “carbureto”
que exalava nas imediações da calçada aonde pessoas
vindas dos distritos e sítios se aconchegavam e se comprimiam em
conversas alegres; das Semanas Santas, da procissão do Senhor Morto
que percorria as ruas da cidade embalada pela música fúnebre
da banda dirigida por Zé de Poluca organizada pelo inesquecível
Gabriel Vieira Belo que não media esforços para o brilhantismo
da procissão (ainda, hoje se fala que BOM CONSELHO é a cidade
mais católica de Pernambuco); das crendices dos fies que ficavam
com receio durante da celebração da missa da Aleluia, pois,
se o padre não encontrasse o ALELUIA o mundo se acabaria; das incursões
na Serra de Santa Terezinha que muitos subiam em penitência; das
comidas típicas da época (bacalhau, peixes, bredo ) e o
vinho bebido nos almoços; dos carnavais, que começava pela
manhã pelo “entrudo”, onde os foliões percorria
as ruas da cidade dando banho de “água” limpa e pura
nas pessoas que se aventuravam sair à rua, cantando o frevo-canção
“Turma do Funil”. A tarde todos os foliões se preparavam
para olhar o desfile dos blocos, O Paga Nada, Vai ou Racha, Vai Quem Pode
e o infantil O Amigo da Onça, pelo qual desfilei, terminando no
Centro Lítero Cultural onde subíamos por uma escada até
o primeiro andar; As noites de São João, com fogueiras acesas
na porta de cada casa, onde as famílias se reuniam para assar milho,
pular a fogueira, tomando vizinhos como “comadre e compadre”
de São João (sou afilhado do Sr. Belon, tamanqueiro de primeira
ordem, tratando-o a partir daquele momento de Padim Belon)) e tantas outras
brincadeiras e crendice que esta festa ocasionava. E, as saudades aumentam
todas as vezes que visito a minha terra natal percorrendo a pé
toda extensão da rua. Quantas saudades me trazem deste bom tempo
de criança...
José
Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com
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