| Estava
sentado na Praça Maciel Pinheiro, em Recife, quando se aproximou
uma criança com a idade entre 4 e 5 anos, sorrindo e olhando para
mim. Fiquei atônito com aquela cena. Uma criança mal vestida,
descalça, cabelo desalinhado, o rosto sujo e pálido e, lá
estava ela em pé, fitando-me. Pensei que ia me pedir uma moeda.
Fiquei esperando uma maior aproximação.
Daquele sorriso, passou a ter feições de desespero. Estava
necessitando de algo, mas não tinha coragem de se aproximar. Olhava-me
com firmeza, como se dissesse “só saio daqui, se me chamares”.
Alguns minutos se passaram. Continuava de pé e, eu aguardando uma
aproximação, mais próxima. Chamei-o até a
mim. Aproximou-se acuado e devagarinho, com os passos de criança,
indecisa. Olhei em seus olhos, remelados a doçura e a inocência
do seu olhar. Falava pouco e quase não podia se ouvir. Palavras
indecifráveis, como criança da sua idade. Quase nada se
ouvia.
Estendeu-me a pequena mão e aproximou-se um pouco mais, sentando-se
ao meu lado. As vestes e o aspecto deveria ser filho de algum pedinte
ancorado nas ruas do Recife.
Com suas palavras sem nexo, pediu-me um dinheiro para comprar pão.
Senti uma tristeza tremenda neste gesto espontâneo e infantil. Existia
uma lanchonete ao lado da praça, entrei e paguei um bom sanduíche.
Os olhos arregalaram-se quando viu o sanduíche sendo levado para
ele. Abocanhou e saiu devagarinho, da mesma forma que chegou. Seguiu pela
Rua da Imperatriz, devagarinho, olhando vez por outra, para trás,
como se dissesse “obrigado”. Sai daquela praça entristecido,
pois milhões de crianças iguais a este, passam fome em nossa
cruel cidade do Recife.
José
Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com
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