REVIVENDO O PASSADO
Toda
semana tenho um dia para visitar locais por onde passei e convivi.
Visitar as ruas, os amigos, rever a casa ou apartamento em vivi, os
bares onde tomava a minha cervejinha geladíssima em companhia
de companheiros de bar e as modificações que o tempo
trouxe.
Nesta sexta feira dia 27 de março, arrisquei um passeio no
bairro da Tamarineira, onde residi no inicio dos anos 70. Tomei o
ônibus que faz a linha Rio Doce / Dois Irmãos e lá
fui para o meu destino. Atravessamos toda Olinda e os bairros de Salgadinho,
Encruzilhada e Espinheiro. Ia observando da janela do ônibus
os lugares que ali estive. Cheguei ao meu destino, a Tamarineira.
Desci na Padaria Confiança que ainda resiste ao tempo. Em frente
o antigo Cinema Coliseu hoje ocupado por uma loja de moveis e utensílios.
As casas da Vila dos Comerciários umas já com a sua
fachada modificada com algum comercio, outras permanecem inalteradas.
Segui andando pela calçada e o Bar do Louro na esquina da Rua
São Vicente, onde morei por dez anos, já não
mais existia. Fiquei olhando em pé e recordando quantas e quanta
vez estacionava o meu fusquinha amarelo canário de placa KD-1150
(que a turma chamava de “cadê o onze cinqüenta”)
tomava uma ou duas cervejas antes de chegar a casa ouvindo as musicas
em uma radiola de ficha encostada na parede de Peninha, Aguinaldo
Timóteo e Roberto Carlos e tantas outras que os fregueses colocavam
para ouvir, mesmo aquelas que não desejávamos.
Ao lado o Colégio Santa Catarina, com a mesma característica
não houve reforma a não ser na Capela onde adentrei
e ajoelhei-me em adoração ao Santíssimo Sacramento,
lá no Sacrário dourado ao lado do altar. Saindo dei
de cara com o Hospital Agamenon Magalhães com um movimento
fora do comum. Entrava e saia ambulância com as sirenes ligadas.
A emergência tomada por pacientes, uns sentados em cadeiras
outros deitados em macas e o barulho intermitente causando incomodo
aos presentes. As enfermeiras e os médicos andavam de um lado
para outro. Era um movimento danada.
Recordei quando dali sai sob a sombra de uma arvore no portão
do Colégio, aonde em 1974 cheguei as pressas com a minha mulher
grávida para dar a luz. Não tinha vaga no momento na
Maternidade me encaminhando para o Hospital Barão de Lucena
(que aperreio, pois da Tamarineira ao bairro da Iputinga é
uma tirada) mais graças a Deus chegamos a tempo e neste mesmo
dia nasceu o meu filho Gustavo Henrique.
Entrei pela minha Rua São Vicente, chegando até blocos
de apartamentos. Apenas uma modificação vista, foi à
elevação do muro que circunda todos os quatro blocos
de apartamento, no resto tudo igual. A rua foi calçada, pois
antigamente era de barro. Ninguém conhecido encontrei.
O sol das onze horas da manhã era um convite para visitar o
Bar do Seu Antonio, na Rua Guimarães Peixoto, antigo Beco da
Facada. Antes de visitar o bar do seu Antonio, fui até a residência
de um amigo meu José Mario, que certa vez o encontrei no Shopping
Bom Vista e me convidou paras visitar a sua residência. Ao bater
na porta do primeiro andar fui recebido por Dona Célia, que
não me reconheceu. Perguntei por Zé Maria e ela disse
que tinha saído um pouco tempo voltaria. Mandou sentar-me na
poltrona e dentro de alguns minutos o Zé Mário chegou
e um abraço e um aperto de mão recebo deste velho amigo.
Conversamos sobre os tempos em morávamos no mesmo bairro, as
mudanças, o desaparecimento dos outros amigos que convivam
conosco, da família. Os seus filhos Mario Junior já
estava formado era advogado e a sua filha Angélica medica,
todos estavam encaminhados para a vida afora. Eu também relatei
sobre a minha família dizendo que os meus quatros filhos, companheiros
de escola na Santa Catarina dos seus filhos estavam todos formados
em Administração de Empresas Fonoaudiologia, e Ciências
Sociais.
Por volta do meio dia, saímos e fomos ao Beco da Facada para
tomar uma cervejinha bem gelada, pois o tempo erra convidativo. Chegamos
e fomos recebidos por Seu Antonio, o dono do Bar, já velho
mais ainda caminhando lentamente servindo os fregueses. Não
me reconheceu logo, pois fazia quase trinta anos que não o
visitava. Quando reconheceu me deu um abraço e colocou a musica
no som em cima de uma prateleira, “A Volta do Boêmio”
de Nelson Gonçalves.
Riu para mim como dos tempos antigos que eu freqüentava o seu
bar nos finais de semana jogando “porrinha”. Com a musica
tocando aquela musica de Nelson Gonçalves tive um pensamento
saudosista e chequei a pensar com os meus botões “Quem
me dera voltar a ser boêmio” , porque o tempo se encarrega
de encerrar a carreira. A velhice vai chegando, os movimentos ficam
lentos e os passos claudicantes apresentam-se. Foi aquela alegria.
De repente aponta na esquina o Zé Bebinho, uma figura excêntrica
dos bairros da Tamarineira e Casa Amarela. Vem se escorando em uma
bengala, com um paletó e um chapéu com uma pena vermelha.
Senta-se suado a mesa enxugando o rosto com um lenço amarelado
e não nos reconhece. Pede uma “caninha” que lhe
é servido por Seu Antonio em um copo “Americano”
com uma “banda de limão” sabendo que aquele aperitivo
seria “pendurado em um prego” na prateleira. Todos os
dias ele aparecia, tomava o seu aperitivo agradecia e desaparecia,
só no outro dia voltava. Seu Antonio já estava acostumado
com “filho de Deus”. Já não estava nos reconhecendo
as pessoas saindo em direção ao mercado de Casa Amarela.
Despedimo-nos do seu Antonio e voltamos para a casa do Zé Mario
onde almoçamos um feijão verde com carne de sol e galinha
a cabidela acompanhada de uma cerveja geladíssima servida por
Dona Célia.
Sai por volta das três horas da tarde, convidando o nosso amigo
para nos visitar e passar o dia conosco em nossa “residência
modesta”.
José Antonio Taveira Belo
Olinda, 16/04/2009.