ANDARILHO
 

Estava passeando pelas ruas do Recife. Escolhi a Rua da Imperatriz, dobrando para a Rua da Aurora. Andei sem destino. Caminhava calmamente pela calçada esburacada e cheias de entulhos, lixo e metralhas de construção. Livros usados para venda, espalhados pelo chão o que fazia às pessoas desviaram para o leito da rua. Ignorei. Olhava a beleza do casario centenário existente.
Cada uma apresentava a grandeza e o estilo na época em que foi construído no século XIX. Pensava, enquanto, caminhava despreocupadamente, quantas pessoas residiram ali no inicio do século XIX e XX. A fidalguia recifense estava ali presente na bela arquitetura do seu casario.
Caminhei pela calçada por várias horas. Parava e descansava um pouco sentado a beira do Rio Capibaribe. Olhei o antigo prédio, onde se estabelecia a Sorveteria Gemba , servindo sorvetes deliciosos de frutas variadas; caminhava, chegando até o Cinema São Luiz, onde a fina flor da sociedade recifense se agrupava nas tardes dos domingos para assistirem ao filme estampado em grandes cartazes, que chamava a atenção das pessoas. Todos alinhados. Os homens de terno, de gravatas e chapéu “Prado”, as mulheres elegantemente vestidas davam um colorido especial na porta de entrada do Cinema São Luis. Não era permitida a entrada no cinema, das pessoas que não estivesse vestida decentemente. Era uma exigência que se cumpria rigorosamente.
Atravessei a Avenida Conde da Boa Vista e sai caminhando devagarinho. Vários casarões se encontravam em reforma. O tempo destruía e era necessário preservar os monumentos que mostrava a cara do Recife. Passei em frente da Loja Maçônica, portas fechadas e corroídas pelo tempo. No meu tempo de criança, em Bom Conselho pensava que nunca passaria pela frente de uma Loja Maçônica, pois tinha medo de ser seqüestrado e ser levado para o sacrifício no seu interior, por homens que renegavam Deus e a Igreja Católica. Santo Deus, dizia eu naquele instante, que passava pela sua calçada.
Sigo adiante, olho varias casas que estão restauradas e pintadas no estilo passado. Atravesso a Rua do Riachuelo, e passo na frente da Delegacia de Homicídios. Quantos criminosos já não foram levados a presença do delegado para depoimentos, às vezes, na tortura. Quantos?
O vento brando acaricia o meu rosto e desalinha os meus cabelos. Não estou cansado, atravesso a Rua Princesa Izabel, chego até Assembléia Legislativa, edifício imponente, de uma beleza estonteante, onde se reúne os legisladores, na função de representar o povo e, na maioria das vezes legislam em causa própria, manchando assim a imagem daquela casa.
Penso, parado, em frente do edifício, quantas vezes ali não foi palco de luta em beneficio do povo, em contrapartida, quantas vezes o povo não se envergonharam dos seus representantes, indignos em suas atuações e nos envolvimentos de corrupção, etc. Sai dali levemente tentando afastar da minha memória, estes maus e bons pensamentos. A casa se encontrava com as portas cerradas, e o portão de ferro circulado por uma corrente atada pelo cadeado que brilhava ao sol.
Continuo andando. Chego ao Ginásio Pernambucano, andando pela sua calçada, lembrando-me de quando freqüentava aquele educandário centenário. Fui aluno desta casa de ensino. Permaneci, em suas salas de aulas, por um pequeno período.
O prédio limpo, suas paredes pintadas recentemente, dava um colorido especial a Rua da Aurora. Por ali passaram muitos estadistas, escritores, juizes, médicos, advogados, mesmos aqueles que ali só permaneceram e não foram adiante em seus estudos.
Parei em frente ao portão principal. Olhei com interesse para dentro, na penumbra em que se encontrava o ambiente. Algumas placas de homenagens a turmas que ali se formaram, lá estavam marcando o tempo que passara, mas que a cada momento era lembrado por quantos ali visitavam.
Quantas vezes ali passei, para estudar em uma classe no primeiro andar. Quantas fugas, quanto desperdício de tempo, perdi. Deveria ter me aprofundado mais no estudo, mas perdi tempo.
Infelizmente, o tempo não volta. Sai dali com este pensamento. Andei, mais um pouco, sentindo a brisa no meu rosto, trazida pelo Rio Capibaribe.
A tarde era convidativa para este passeio ao tempo. O sol escondido pelas edificações, dava sombra na calçada, o que me fazia feliz naquela tarde. Os passos lentos e cadenciados conduziam-me, a algum lugar. Cheguei à sede do Barroso, olhei e verifiquei que não tinha nenhuma pessoa no local. Algumas embarcações de competições, ali estavam, uma perto da outra.
Pensei, naquele instante, quantas competições, já foram realizadas, quantas vitórias e alegrias já não tinha sido proporcionado aos torcedores. Adiante, o grande restaurante, famoso pela feijoada que ali servia o Buraco de Otilia. Lá estive várias vezes como cliente, levando comigo alguns visitantes, que visitava o Recife. Ali parei. O vento da tarde trazia mais recordações. O sol já caindo, dava uma sensação confortável e de bem estar.
Ali, em pé, permaneci por algum tempo, gozando daquele momento que há muito tempo não realizava. Atravessei a Rua da Aurora e fui sentar-me as margens do Rio Capibaribe, gozando da beleza daquele lugar. As águas corriam lentamente. Alguns pescadores, em seus barcos, remavam já para ancorar e descansar da labuta do dia. Lá na frente o imponente edifício da Prefeitura Cidade do Recife, iluminado pelo sol da tarde; ao lado o edifício da Justiça do Trabalho e um pouco mais adiante o edifício da Justiça Federal.
Levanto-me e refaço todo o percurso que havia feito há pouco tempo. As luzes começam acender. A noite vai chegando e o panorama será outro, um novo espetáculo apareceria para quem quisesse contemplá-lo.


José Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com

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