"LEON BLOY
PEREGRINO DO ABSOLUTO"
 

Escritor de primeira grandeza, com dezenas de livros publicados, Leon, antes de tudo era cristão, católico e poeta.
Homem que acreditava incondicionalmente em Deus, em Nossa Senhora, nos Anjos, na Igreja, no céu, no inferno, no purgatório, nos sacramentos e vivia esta fé de maneira total, intensamente, sem a mais leve vacilação.
Dizia Leon, e o que ele mesmo vivia, com tranqüila convicção que no século XX, nenhuma vida cristã é possível sem a nossa comunhão cotidiana. Seria um absurdo deter-se no meio do caminho para cair na mediocridade. O cristão deve caminhar ao encontro de Cristo ali onde sabe que ele está.
Esse homem escrevia admiravelmente e com palavras tão simples, falava das coisas de Deus com emoção e transpunha-as para sua vida toda a naturalidade. Para ele, o Cristianismo é uma realidade maravilhosa, não palavras enganadoras, sobre paraísos incertos, nem qualquer regra esplêndida concebida por um homem de excelsa nobreza. É uma criação de Deus, dado aos homens por misericórdia e amor, amor que inventa o inconcebível a fim de atrair nossa atenção. Tudo é pura realidade: Deus, a Encarnação, a Cruz, os Anjos, Nossa Senhora, os Sacramentos, a Comunhão dos Santos, a Vida Eterna. Era este seu pensamento que colocava em sua vida familiar e que levava até as últimas conseqüências, pois ninguém o demovia desta fé inabalável no Cristo Jesus.
Os livros de Bloy são pedaços magníficos de vida concreta, vivida, não de um escritor, porém de um ser humano que escreve, utiliza palavras para dizer alguma coisa, e que ainda por cima possui o dom excepcional de dizer-nos ou murmurar-nos ou gritar a outros homens que, como ele “são podres e está crucificados” o que o Cristianismo representa, na nossa época, o que representa o seu conteúdo total, e como é possível e como convém acerta-lo e vive-lo em profundeza, com Deus, entre os homens e com os homens. Esta era a característica dos escritos de Leon. Ao cristão pertence, com efeito, a terra inteira e todo o céu; pertence-lhe uma condição de verdadeiro filho de Deus; d’Aquele que é o criador e que sustenta no ser o universo visível e invisível.
Na escola aborreceu-se horrivelmente: era menino sonhador e apaixonado, com crises de profunda melancolia. Chorava muito em criança e não sabia por quê. Perambulava pelos arredores da cidade e começou a desenhar ao natural. Queria ser pintor. E agora, dizia ele, aos sessenta e cinco anos, se Deus chamar-me para junto d’Ele não terei outra coisa a apresentar-lhe senão as minhas mãos cheia de papel.
Há, todavia um livro que ousarei oferecer-lhe: “Lê salut par lês juifs”. Era um simples e ingênuo em face do mundo e de seus semelhantes. Por isso, sofreu as mais cruéis decepções. Filho obediente da Igreja – escreve Bloy no seu primeiro grande livro “LE DESEPÉRE”- participa, no entanto, da impaciência de todos os revoltados, de todos os decepcionados, todos os humilhados, escarnecidos, todos os condenados deste mundo. Quando penso nesta multidão, sinto que mão invisível agarra-me pelos cabelos e arrasta-me muito além das relativas exigências da ordem social, arrasta-me ao absoluto de uma visão de iniqüidade...
O poder que exerce Bloy sobre alguns homens que buscam com desespero o sentido da vida, consiste no seu testemunho sem restrições da realidade da fé. É a única coisa que pode fazer: dar testemunho. Foi o que fez durante toda a vida, pela maneira de ser pelos seus escritos.
Para Bloy, Deus e a fé, a religião e a graça, os dogmas, o sofrimento não são abstrações. Deus é presença concreta. Ele compreende e vive, experimenta e sente o espírito de Deus infinito na Encarnação do Verbo, no mistério da Encarnação da Segunda Pessoa. Vive sob a influência divina, na conjuntura misteriosa da vida humana; ali encontra Deus: no mistério do pobre, no mistério da mulher, no mistério do dinheiro, do sofrimento, no mistério da história da humanidade, no profundo mistério da alegria. Não é em vão que somos os membros vivos de Cristo.
Leon Bloy disse, “Deus criou o homem a sua semelhança para que façamos o que Ele mesmo fez. Assumiu nossa natureza para morrer por nós”. Devemos tornar a Sua a fim de dar nossa vida por Ele o que constitui nosso dever estrito e absoluto. Ora, a isso todo mundo hoje recusa. Então Deus toma nossa vida de todos os modos, de maneira terrível, e eis aqui toda a história contemporânea.
Em tudo, Leon Bloy, na sua vida e nos seus livros – o panfleto e a oração, o amor e a aversão, a indignação e a adoração – nada mais é, em verdade, do que o clamor incessante do coração humano para Deus.
Este fundamento fecundo de fé absoluta nas palavras de Cristo, Bloy transmitia a todos que tem o prazer de ler as suas obras.
Todos o textos do Antigo e do Novo Testamento onde são anunciadas a novidade e a renovação da criatura e da doutrina, do céu e da terra, do homem e do seu coração, dos cânticos e do espírito, da lei e do nome, eram para Leon Bloy palavras portadoras de vida que designam a realidade. Eis o que constantemente reclamam os nossos tempos: maturidade dos cristãos, renovação dos espíritos dos corações, da face da terra para que tudo volte a ser jovem e cheio de frescura.
Leon Bloy é um fenômeno na literatura católica mundial : assemelha-se, naturalmente, os projetos do Antigo Testamento, e São João, o Evangelista e o poeta do Apocalipse, a Tertuliano e Salviano, a Rabelais, Joseph de Maistre, Ernest Hello e Branley d’Aurevilly. Bloy, sua crença em Deus e a afirmação do cristianismo cristalizaram em verdade e certeza profunda toda aquela nossa intuição confusa; o cristianismo exalta e eleva o homem a uma grandeza infinita.
Escrevera-lhe o sacerdote “ Não tenha alma de santo”. Leon responde: “Pois bem, digo-lhe com toda certeza que tenho a alma de santo; que meu senhorio é um abominável burguês, meu padeiro, meu açougueiro, meu quitandeiro, que são talvez uns grandes canalhas, todos têm almas de santo, visto terem sido todos – como o Senhor e um tanto quanto São Francisco ou São Paulo chamados à vida eterna e resgatados pelo mesmo preço. Não existe nenhum ser humano que escape a isso, que não seja um santo virtualmente. O sagrado ou os pecados, mesmo os mais graves são acidentes acessórios que em nada agitou a substância. Fomos feito santos por Nosso Senhor Jesus Cristo, e nós nos atrevemos a crer desesperadamente que somos. Ah! se soubéssemos como isto é belo! Dizia, tudo que acontece é adorável.
Numa de suas últimas cartas diz a um amigo: “Sinceramente desejo ser visto como um homem pobre, muito solidário e cheio de amor! Você não conhece minha fraqueza e ignorância, nem minha abjeção verdadeira com minha demoníaca tristeza. Você nada sabe da ALEGRIA que habita no mais profundo de meu coração”. Leon Bloy, era um grande coração de homem que adquirira proporções imensas sob o fogo devorador do amor de Deus e dos homens, que o fazia brilhar com viva incandescência da profundezas do ser onde tudo é espírito e vida – vai do visível ao invisível das imagens do real à realidade sem imagens de onde volta, no entanto, com palavras, sons, formas e cores, concluía Leon Bloy.
O verdadeiro amor humano – amor conjugal, amor dos pais pelos filhos, amor fraterno e filial, amor ao próximo, amor entre amigos e desconhecidos – este amor quer amplitude, espaço, não tolera limitações ou medida. O amor quer tudo, quer o infinito; o amor exige Deus. Onde reina o amor e a caridade, Deus está presente. Este Leon bloy, este cristão, este cristão profundamente convicto, e católico verdadeiro, tinha uma profunda visão do sentido da vida, do sentido e direção da criação inteira, a ternura e aquele fogo abrasador o amor por Deus e pelos homens, esta generosidade absoluta no dom de si mesmo, o abandono e desapego de tudo, aquela simplicidade e esplendor, essa fé e a vida na fé, o sofrimento e sem sentido, a grandiosa comunhão de todos os homens, com Deus e os Anjos – a cruz de Cristo e esse amor, essa humildade de espírito e simplicidade absoluta na fé - tudo isso era encontrado neste principio do Absoluto e da Verdade, expresso numa linguagem viva e vivida na experiência cotidiana da existência humana. Dizia Leon, a mediocridade, mais do que nunca, precisa ser banida. É absolutamente necessário mostrar aos homens, com a graça de Deus e Sua força em nós pela nossa maneira de “Ser” e do nosso modo de “atuar” que o Cristianismo é a verdade e o esplendor da vida, porque outra coisa não senão AMOR. Leon Bloy deixou-nos um legado de bondade que deve ser levado em nossas vidas.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho
E-mail - taveirabelo@hotmail.com

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