"A MINHA RUA"
 

A minha Rua do Caborge era a Rua do Padre Alfredo. Morava por trás da Matriz da Sagrada Família. O muro alto e uma porta inteira pintada de ocre dava entrada para a sua casa. De fora se via um pequeno sobrado com terraço rodeado por dois corrimãos de madeira.
Era uma casa pobre com mobília escassa apenas algumas cadeira e uma mesa na sala pra refeição. No terraço uma rede armada com punhos colocados no armador, onde padre Alfredo costumava descansar após as refeições e as suas obrigações de pastor. Deitava-se de lado com uma perna dentro da rede e a outra sempre do lado de fora em transversal onde acionava e controlava o balanço da rede que rangia no vai e vem. A batina preta aberta até o peito coberto por uma camisa branca.
Ali repousava todas as tardes das 14h00min ás 15h00min. Após o descanso saia para visitar os enfermos nas casas de família ou ia até a Casa da Caridade ver as velhinhas que ele tratava com tanto carinho. Era fiel nesta obrigação. Saia com o barrete preta na cabeça devargazinho indo rua acima, rua abaixo com a sua batina surrada.
As crianças sempre correndo iam ao seu encontro. Ele afagava os cabelos, uma tapinha no rosto um cafuné em outro e, estes sorridentes ficavam agraciados com aquele carinho que o Padre Alfredo lhes dispensava. Às vezes pegava-lhe as mãos e ia andando arrodeado das crianças que pulava e corrida ao seu redor. Parecia um “palhaço” no meio daquela alegria. E como recompensa as crianças recebiam um “santinho” que era distribuído com a seguinte recomendação: “Dê a sua mãe para ela coloque no adorem us”. E lá deixamos o Padre na porta da sua casa, onde dispersávamos em desabalada carreira para a casa a fim de entregar o troféu que o padre tinha dado.
Outras vezes o Padre Alfredo descansava, cochilando com um olho aberto e outro fechado, sentindo tudo que se passava ao seu redor. Nós tínhamos o costume de entrar, pela sacristia da Matriz, para a casa do Padre, com a finalidade de colher “amoras” uma frutinha pretinha e que o suco tinha a cor de vinho, madurinhas e doce que só mel. Pé ante pé chegávamos escondidos. Olhávamos para um lado e para o outro a fim de verificar que não tinha nenhum entruso para pilharmos naquele “furto” enquanto o Padre Alfredo dormia na rede no terraço e com a velha Júlia ocupada com os afazeres da casa. Um por um, chegava até o pé de “amoras” ia colhendo em silêncio as preciosas e pequenas frutas em silêncio. Nem um pio e nem um riso qualquer que demonstrasse a nossa presença. Muitas das vezes quando estávamos nesta operação silenciosa e sem darmos atenção ao que fazíamos o Padre Alfredo nos surpreendia e gritava: “O que e isso, meninos? Vão todos embora. Chispa!” Levantando-se da rede branca e indo até o corrimão de madeira que cercava o terraço.. A velha Júlia lá vinha correndo da cozinha empunhando uma vassoura, fazendo medo a todos nós. Saiamos em correria pelo corredor escuro que dava para a Sacristia da Matriz, onde lá tinha o Senhor Morto e alguma parte de Jesus, braços, pernas e rosto tudo espalhado naquele recinto. Era um medo que tínhamos daquele lugar.
Chegávamos a Sacristia esbaforida e suados onde se encontrava o Sacristão o Sr. Pedro a cortar as hóstias com um instrumento redondo, calmamente no silêncio da Igreja, ficando as aparas que era distribuído com as crianças que comia aquela iguaria branquinha.
Saímos a correr pelo corredor da Matriz da Sagrada Família em direção a escada que dava para o interior da torre para ver a vasta área da nossa cidade e ouvir quando possível o badalar dos sinos quando alguém morria. Lá de cima avistamos a nossa bela cidade, as Praças Pedro II e Livio Machado, os altos do Colégio, Santo Antonio e de Zé Frexeira, depois de ver a bela paisagem descíamos e com o Sr. Pedro Sacristão íamos para casa ouvindo o alto falante anunciando o “ângelus”.

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