|
O
Mestre e o Aprendiz
Como aprendiz a ensaísta
informal, vou procurar exprimir uma compreensão pessoal e íntima
da realidade que observo e compreendo sobre o tema “O Mestre e o
Aprendiz”, sem me basear em formalidades externas como documentos
e provas de caráter científico, portanto, apenas um auto-exercício
da razão.
Quando ocorre um aprendizado (mudança de comportamento ou aquisição
de um saber) por certo há alguém ou algo que facilitou,
que guiou essa aprendizagem. Comumente essa tarefa se inicia com nossos
pais, segue com a ação dos educadores das instituições
de ensino formais e/ou informais, é complementada pelos amigos
conselheiros e em algumas situações por “guias espirituais”.
Sem demérito ou falta de gratidão a esses Mestres que tanto
contribuem para nossa formação, vou ater-me nesta ginástica
do intelecto sobre o “Eu” como Mestre de Si Mesmo.
Ao observarmos o processo de aprendizagem das diversas condutas (motoras,
intelectuais e morais) na espécie humana, podemos perceber que
nem sempre os melhores resultados decorrem de ação pedagógica
efetiva ou predominante de terceiros. Por exemplo: Para andar, uma aprendizagem
psicomotora básica, a maioria das crianças começa
a andar antes de aprender a fazê-lo com seus pais. Os pais, verdadeiros
Mestres, observam os esforços dos filhos como desvelo e paciência,
e por serem sábios, acompanham o processo sem muita interferência.
Como conseqüência, além da criança aprender a
andar muito bem, desenvolve a confiança no processo natural de
aprendizado que existe dentro dela. Ela não precisa que alguém
lhe segure pelos braços ou do apoio de um andador, necessita apenas
ter interiorizado uma imagem visual de alguém andando para desencadear
o processo. Quando os pais tentam acelerar esse processo, ocorre uma intervenção
indevida, pois não é possível saber a hora que a
criança está madura para realizar a transição
do engatinhar para o caminhar. Na ocorrência de uma intervenção
indevida, não só o processo da aprendizagem é retardado
como, também, a saúde da coluna vertebral do futuro adulto
é comprometida.
Em muitas oportunidades, como professor e/ou treinador na área
da atividade física, pude observar em meus alunos e/ou atletas,
que muitos processos de aprendizagem e/ou desempenho ocorriam de forma
mais rápida e com melhor qualidade quando minha intervenção
pedagógica era mais restrita. A apresentação de uma
imagem visual do gesto a ser adquirido, complementada com uma explicação
sucinta do resultado a ser obtido apresentava melhores resultados, do
que quando os acudia com muitas informações e seguidas correções
ou cobranças.
Não quero aqui, deixar a idéia que um preceptor seja dispensável
no processo de aprendizagem. Um Mestre, conhecedor do comportamento ou
saber a ser adquirido, experiente por já tê-lo vivido, tem
um importante papel nesse processo, talvez, não do tamanho que
ele geralmente se atribui. Na aquisição do saber comum,
penso ser necessário que os preceptores abram espaço para
que o aprendiz desenvolva seu processo natural de aprendizagem, acrescido
da possibilidade do aprendiz aprender a aprender.
E quanto ao saber transcendente, o auto-conhecimento e a busca da Verdade,
qual o papel do Mestre e qual o papel do Aprendiz? Isso para mim tem sido
uma grande inquietude. Essa inquietude surge por observar uma tendência
profundamente arraigada no ser humano de estar sempre a procura de um
guia e o aceitar como autoridade espiritual (os messias, os sacerdote,
os gurus, etc.). Fico pensado, de onde vem esse impulso para procurar
quem nos guie e obrigarmo-nos a dependência e a veneração
dessa autoridade? Será que ele se origina no temor e, por isso,
desejarmos um refúgio seguro e seguirmos aqueles que se apresentam
para nos guiar? Ou será que a tradição, a educação
nos condicionou a padrões de obediência e dependência?
Haverá uma saída para nos livrarmos essa dependência
da autoridade exterior, para sermos verdadeiramente livres? Me parece
que pela obediência, pela dependência não alcançaremos
essa liberdade. A liberdade, o caminho para o auto-conhecimento e a busca
da Verdade, me parece, só pode ser pela compreensão e pela
ação do “Eu” como Mestre de Si Mesmo.
Cada indivíduo, nessa terra da “Mãe Gaia”, deve
aprender a caminhar nessa vida e, também, para “outra vida”
pelo processo natural de conhecer a si mesmo. Se ele for um caminhante
que confia na Sabedoria da Natureza ele será muito simples, ele
usará para essa caminhada apenas os apetrechos necessários,
que para mim são: A Lei Moral de que fala Collins; o conhecimento
e domínio dos “memes/pensamentos” de que fala Dawkins
e outros estudiosos e a advertência contida na resposta que o Krishnamurti
deu em uma entrevista em março de 1983, ao descobridor da vacina
contra a pólio, Dr. Jonas Salk, a uma questão apresentada
por este. Disse o Dr. Salk: "Ouvi o senhor dizer uma vez, que há
pessoas capazes de ajudar as outras com suas qualidades excepcionais".
Krishnamurti respondeu: "Ninguém pode guiar ninguém,
nem dizer-lhe o que deve fazer, e nada disso faz sentido. Mas como o sol,
algumas pessoas podem trazer luz e calor. E quem quiser ficar ao sol,
que fique. Os que preferirem a sombra, que permaneçam nela".
Para mim, os ensinamentos de um Mestre de Sabedoria devem funcionar como
espelho, onde nossa conduta é refletida. Quando conseguirmos enxergar
nossa própria conduta nos nossos relacionamentos, que na realidade
é a nossa própria vida, podemos dispensar o uso do espelho.
Desse modo, o verdadeiro Mestre é aquele que não faz do
Aprendiz um indivíduo dependente da sua Sabedoria.
Roberto José T. de Lira
02/09/2009 rjtlira@yahoo.com.br
|
|