Diálogo
com JK sobre a Existência Humana
Esse
diálogo foi realizado em dois momentos: As manifestações
de JK ocorreram em Amsterdam no ano de 198l e as de RL em Uberlândia
em 2009
O
diálogo como uma reflexão conjunta sempre amplia as compreensões
do tema abordado. Dialogar a respeito da Existência Humana é
um tema que sempre me atraiu. Por isso, procurei o “amigo”
JK para compartir minhas inquietudes sobre esse tema.
RL: Amigo JK, neste diálogo sobre a Existência Humana, escutar-lhe-ei
como você espera. Ou seja, suas manifestações serão
um espelho no qual vou procurar perceber a minha própria existência.
JK: “Somos como dois amigos sentados no parque num agradável
dia, conversando a respeito da vida, dos nossos problemas, investigando
a própria natureza da nossa existência e nos perguntando
com seriedade por que a vida tornou-se um problema; por que, embora intelectualmente
sejamos muito sofisticados, a nossa vida diária é tão
tediosa, sem qualquer sentido exceto o da sobrevivência...”
RL: Fazendo um retrospecto dos problemas que enfrentei no trajeto vivido
até o presente, penso tê-los administrado sem sofrimento.
Talvez por não terem sido relevantes. Vida diária tediosa?
Não, nunca senti tédio. Na realidade, mesmo na condição
de aposentado, acho-a prazerosa. Quanto ao sentido da vida? Sinceramente,
nas minhas reflexões, nunca encontrei um verdadeiro sentido para
vida, exceto no que se refere à sobrevivência – nessa,
incluo a geração, criação, educação
e encaminhamento da própria prole.
JK: “... vamos abordar esta questão do porque nós,
seres humanos vivemos como vivemos, indo para o escritório das
nove as cinco ou seis horas, durante cinqüenta anos, e sempre com
o cérebro, a mente, constantemente ocupados. Nunca há uma
quietude, nunca há paz, mas sempre essa ocupação
com uma ou outra coisa. E assim é a nossa vida. Assim é
a nossa vida diária, monótona, um tanto solitária,
vida insuficiente. E tentamos fugir dela através da religião,
das várias formas de entretenimento ...”.
RL: Comecei minha vida profissional trabalhando em escritório.
Pensava em trabalhar na área esportiva, corri atrás, e logo
me inseri nesse contexto. Fui técnico, preparador físico
e professor na área. Ocupava o cérebro, a mente e, também,
o corpo em atividades físicas. Mesmo hoje, aposentado, continuo,
nessa rotina e não sinto nenhuma monotonia. Acho que sou viciado
em atividade física... Acho não, tenho certeza. Será
devido às endorfinas? Nas minhas fugas, me entretenho com o esporte
e não com as religiões. Minha vida mental? Esta tem sido
um pouco solitária, será por isso que estou recorrendo ao
amigo (JK) tão distante, para interagirmos?
JK: “... No fim do dia, ainda estamos onde estivemos durante milhares
e milhares de anos. Parece que mudamos muito pouco psicologicamente, interiormente.
Os nossos problemas aumentam e há sempre o medo da velhice, da
doença, de algum acidente que nos extinga. Assim é a nossa
existência, da infância até à morte; que seja
voluntária ou involuntariamente, morremos. Parece que não
fomos capazes de resolver esse problema, o problema da morte. Quando vamos
envelhecendo, principalmente, nos lembramos de todas as coisas que aconteceram,
dos momentos de prazer dos momentos de dor e de pesar e das lágrimas.
No entanto, sempre há essa coisa desconhecida chamada morte, da
qual a maioria de nós tem medo. ... Vamos discutir juntos, como
dois amigos que tiveram uma vida longa e séria, com todos os seus
problemas, os problemas do sexo, da solidão do desespero, da depressão,
da ansiedade, da incerteza uma sensação de não-sentido
e, ao fim disto, sempre a morte”.
RL: Nesse diálogo, pensei em orientar nossa conversação
sobre a Existência humana. Em outros momentos, já escutei
você falar que a morte faz parte da vida. Objetivamente não
estou pensando em morte, mas vou continuar lhe escutando, como você
pede, e Raul Seixas lhe interpreta: sem ter uma velha opinião formada...
JK: “Ao conversarmos sobre a morte, dela nos aproximamos intelectualmente
– isto é, nós a racionalizamos, dizemos que ela é
inevitável, que não devemos temê-la ou fugir dela
através de alguma forma de crença na vida após a
morte, na reencarnação ou se vocês forem altamente
intelectualizados, dizendo para vocês mesmos que a morte é
o fim de todas as coisas, da nossa existência, das nossas experiências,
das nossas lembranças, sejam elas ternas, agradáveis ou
abundantes; é, também, o fim da dor e do sofrimento. O que
significa tudo isto, esta vida que é, na realidade, se nós
a examinarmos com muito cuidado, um tanto sem sentido? Podemos intelectualmente,
verbalmente, construir um sentido para a vida; mas o modo como nós,
na realidade vivemos tem muito pouco sentido. Viver e morrer é
tudo o que sabemos. Tudo o mais é teoria, especulação;
a busca sem sentido de uma crença na qual encontremos alguma espécie
de segurança e esperança. Temos os ideais projetados pelos
pensamentos e lutamos para alcançá-los. Esta é a
nossa vida, até mesmo quando somos muito jovens, cheios de vitalidade
e alegria, com o sentimento de que podemos fazer quase tudo; mas com o
passar da juventude, da meia-idade e da velhice sempre fica esta questão
da morte.”
RL: Vou continuar lhe escutando.
JK: “O nosso ego, a nossa personalidade, toda a nossa estrutura
como indivíduos, é inteiramente formada pela memória.
Por favor, este é um assunto para investigar; não aceitem.
Observem-no, ouçam o conferencista esta dizendo que “você”,
o ego, o “eu” são todos completamente memória.
Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade
– vocês podem acreditar, ter esperança, ter fé,
que haja em vocês alguma coisa incontaminada, algo que seja Deus,
que seja a fagulha do intemporal, vocês podem acreditar em tudo
isso, mas essa crença é apenas ilusória. Todas as
crenças são ilusórias. Mas o fato é que toda
a nossa existência é inteiramente feita de memória,
de lembranças. Não há lugar ou espaço interior
que não seja memória. Vocês podem investigar isto;
se estiverem se indagando seriamente, verão que o “eu”,
o ego, é todo memória, lembranças. E essa é
a nossa vida. Nos funcionamentos, nós vivemos da memória.
E, para nos, a morte é o fim dessa memória.”
RL: É, olhando para mim mesmo, para o meu interior, sem nenhum
conceito pré-formado, percebo claramente que além do físico
só me resta mesmo memória e os consequentes pensamentos.
Reconheço que essa memória e o conjunto de pensamentos como
os frutos do já vivido. Assim sendo, sem memória e sem pensamentos
o ego, o “eu”, é morto... É isso?
JK: “... Na realidade, há apenas eu e você conversando
juntos, não esta audiência enorme num vasto salão,
mas você e eu sentados às margens de um rio, num banco, discutindo
isto juntos. E um diz para o outro: não somos nada além
da memória e é a esta memória que estamos presos
– a minha casa, a minha propriedade, a minha experiência,
o meu relacionamento, o escritório ou a fábrica para onde
eu vou, a arte de que eu gosto de poder utilizar durante certo período
de tempo – eu sou tudo isso. A tudo isso o pensamento está
ligado. É a isso que chamamos de viver. E essa ligação
cria todas as formas de problemas; quando estamos ligados, há o
medo da perda; estamos ligados porque estamos sozinhos, com uma profunda
e permanente solidão, que é sufocante, isoladora, depressiva.
E quanto mais estamos ligados a outra pessoa, o que ademais, é
memória, pois o outro é uma memória, mais problemas
existem. Estou ligado ao nome, à forma; minha existência
é a ligação a essas memórias que eu reuni
durante a minha vida. Onde há ligação, observo que
há corrupção. Quando estou ligado a uma crença,
na esperança de que nessa ligação haja uma certa
segurança, tanto psicológica quanto fisicamente, essa ligação
impede um exame maior. E tenho medo de examinar quando estou fortemente
ligado a alguma coisa, a uma pessoa, a uma idéia, a uma experiência.
Assim, onde há ligação existe corrupção.
Toda a nossa vida é um movimento dentro do campo do conhecido.
Isso é obvio. A morte significa o fim do conhecido. Significa o
fim do organismo físico, o fim de toda a memória que sou
eu, pois eu nada mais sou do que memória – sendo a memória
o conhecido e eu estou com medo de deixar tudo isso ir-se, o que significa
a morte. Acho que isto esta completamente claro, pelo menos verbalmente.
Intelectualmente, podemos aceitar isso de modo lógico, sensato;
é um fato.”
RL: É, intelectualmente minha razão encontra lógica
em toda essa manifestação. Contudo, não sinto inteiramente
essa realidade. No fundo tenho o pressentimento ou ilusão que além
do físico, da memória e dos pensamentos há “algo”.
Talvez sejam os meus condicionamentos que alimentem essa sensação.
Não sei... A reencarnação é uma idéia
que me agrada. Mas, estou sempre pegando e largando essa idéia.
Talvez por isso ela ainda não tenha se transformado numa crença.
JK: “O mundo asiático acredita na reencarnação,
isto é, que a alma, o ego, o “eu”, que é um
feixe de memórias, renascerá mais uma vez para uma vida
melhor, se eles se comportarem corretamente agora, se se conduzirem corretamente,
se levarem uma vida sem violência, sem cobiça, e assim por
diante; então, na próxima reencarnação, eles
terão uma vida melhor, uma posição melhor. Mas a
crença na reencarnação é apenas uma crença.
Mas uma crença é apenas uma crença, por que os que
possuem esta forte crença não vivem uma vida correta hoje?
É apenas uma idéia de que a próxima vida será
maravilhosa. Eles dizem que a qualidade da próxima vida deve corresponder
à qualidade da vida atual. Mas a vida atual é tão
torturante, tão exigente, tão complexa, que eles esquecem
a crença e lutam, se iludem, tornam-se hipócritas e aceitam
toda forma de vulgaridade. Essa é uma resposta à morte:
acreditar na outra vida. Mas o que é que irá reencarnar?
O que é que irá continuar? O que é que tem continuidade
na nossa vida atual? É a lembrança das experiências
de ontem, dos prazeres, dos medos, das ansiedades, e isso continuará
a vida toda, a mesmos que rompamos e nos afastemos dessa corrente.”
RL: Então, como sair dessa corrente?
JK: “Agora, a questão é a seguinte: será possível,
enquanto se vive, com toda a energia, capacidade e agitação,
terminar por exemplo, com a ligação? Porque é isso
o que vai acontecer quando vocês morrerem. Vocês podem estar
ligados à sua esposa ou ao seu marido, à sua pobreza. Podem
estar ligados a alguma crença num deus, o que é apenas uma
projeção uma invenção do pensamento, mas vocês
estão ligados porque há um certo sentimento de segurança,
por mais ilusória que possa ser. A morte significa o fim dessa
ligação. Agora, enquanto vivemos, podemos terminar voluntariamente,
facilmente, sem qualquer esforço, com essa forma de ligação?
O que significa morrer para uma coisa que vocês conheceram, uma
coisa que vocês seguem? Vocês conseguem fazer isso? Porque
isso é morrer junto com o viver, não separado por cinqüenta
anos ou mais, à espera de alguma doença que dê cabo
de vocês. É viver com toda a sua vitalidade, energia capacidade
intelectual e com grande sentimento e, ao mesmo tempo, para determinadas
conclusões, para determinadas idiossincrasias, experiências,
ligações, ferimentos, terminar, morrer. Isso é, enquanto,
viver também com a morte. Então, a morte não é
algo distante, a morte não é uma coisa que está no
fim da nossa vida, produzida por algum acidente, doença ou velhice
mas, pelo contrário, o fim de todas as coisas da memórias
– isto é a morte, uma morte não separada da vida.
RL: Lembro que você, em outro momento, falou sobre o ciclo do nosso
viver: experiência, memória, conhecimento, pensamento e daí
para a ação. E que você considera que devemos preservar
esse ciclo quando se trata dos problemas relativos à vida física,
mas não os relativos aos problemas psicológicos. Estes,
que dão vida ao ego, devem ser vividos sem a interferência
do passado, do ontem. Vou refletir sobre a conversação de
hoje, e no possível procurar viver o que compreendi: esquecer/descartar
as lembranças e os pensamentos que fortalecem o ego. Penso que
desse modo poderei morrer todas as noites e, ainda, acordar vivinho da
“silva”, para VIVER A VIDA!!!
OBS.
As manifestações de JK (Jidu Krishnamurti) foram retiradas
de uma palestra proferida na cidade de Amsterdam, em 19 de setembro de
1981, e publicada no livro “A Rede do Pensamento”, da editora
Cultrix.
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