Dialogando
com Rubens Alves sobre Saúde Mental
RL: Recentemente, a amiga Lucinha
Peixoto disse que os meus diálogos com o Cleómenes e com
o JK (Jiddu Krishnamurti) são coisa de loucos. Não é
segredo que mantenho uma “rede de conversações”
com esses dois amigos. Esses diálogos me fazem refletir, reorganizar
ideias, produzir memes/pensamentos, enfim, são eles que me ajudam
a configurar o meu ser psicológico (o software). Nesse feriadão,
pus-me a refletir sobre a advertência da Lucinha, tendo em mente
que ela sempre se manifesta querendo o melhor par mim e para o Cleómenes,
que é também seu amigo. Em relação ao JK ela
não parece se preocupar muito, ela acha que ele é “doidão”.
Nessa reflexão, surgiu à preocupação com minha
saúde mental, por isso, estou procurando o “amigo”
psicanalista para compartir minhas inquietações.
Antes de irmos ao cerne do diálogo, deixe-me manifestar como cheguei
até você. Já lhe conhecia como educador, teólogo
e escritor, mas não como psicanalista. A amiga Ana Luna, papacaceira
de coração, foi quem indiretamente me fez descobrir você
como psicanalista. No início do mês próximo passado,
ela me enviou um email no qual você analisa a saúde mental
de alguns personagens conhecidos e outros. Assim, lembrado pela difusão
da amiga Ana Luna é que estou lhe atraindo para esse diálogo.
Vamos ao assunto principal da nossa conversação. Devido
aos diálogos que tenho realizado com JK e Cleómenes, a Lucinha
prenuncia uma possível infecção memética (codificação
de memes/pensamentos na memória de um ser humano) em meu software,
com a replicação dos vírus “ateísta”
e “doidice”, introduzidos pelo Cleómenes e pelo JK
respectivamente. Do meu ponto de vista, os referidos diálogos me
fornecem valioso alimento (instruções) para o desenvolvimento
do meu software e, por extensão, penso que se realiza um significativo
upgrade no meu hardware. Isso posto, estou em dúvida se os referidos
memes/pensamentos prejudicam ou não minha estabilidade física
e/ou mental. Agora lhe pergunto: quais suas experiências com esse
assunto?
RA: “Fui convidado a fazer
uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram
supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista
no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só
parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto
de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros
e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa,
Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski e outros mais.
E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à
bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer
em breve (não suportava mais viver com tanta angústia).
Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.
Maiakoviski suicidou-se.”
RL: Das pessoas mencionadas, eu
não tive contato com o Van Gohg nem o Maiakoviski. Com os demais
já estabeleci algumas conexões, mas nunca tinha voltado
à atenção para esses fatos sobre a vida deles, que
você acaba de relatar. Frente a isso, também estou assustado
com o que diz respeito á saúde mental.
RA: “Essas eram pessoas lúcidas
e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito
depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa
condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais,
previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas
as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo
que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem
é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer
o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme)
ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de
pensar o que nunca pensou.
Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental
elas não tinham...”
RL: Essa sua manifestação
me parece paradoxal. Por um lado, você diz que essas pessoas eram
lúcidas, profundas e que suas ideias continuarão a ser pão
para muitos vivos. Por outro, você afirma que elas não tinham
saúde mental. Não consegui entender a sua manifestação.
RA: “Eram lúcidas
demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos
e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos
da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria
aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir
emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político
que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas
ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.”
RL: Como assim? Pessoas lúcidas
e profundas não são exemplos de indivíduos com sanidade
mental, enquanto, os loucos é que passam a ser protótipos
de saúde mental? Agora é que não entendi nada mesmo
dessa sua manifestação ambígua. Por favor, me explique
isso. Penso que se você utilizar alguma analogia para explicar essa
situação, talvez, eu possa compreender claramente seus pensamentos.
RA: “Sinto que meus pensamentos
podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos
computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de
duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente ‘equipamento
duro’, e a outra se denomina software, ‘equipamento macio’.
Hardware é constituído por todas as coisas sólidas
com que o aparelho é feito. O software é constituído
por entidades ‘espirituais’ – símbolos que formam
os programas e são gravados nos disquetes. Nós também
temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro,
os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O
software é constituído por uma série de programas
que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores,
o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas,
dir-se-ia mesmo ‘espirituais’, sendo que o programa mais importante
é a linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos
no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco
há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão
com suas poções químicas e bisturis consertar o que
se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções
e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com
chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos e,
somente símbolos, podem entrar dentro dele.
Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos.
Por isso, quem trata das perturbações do software humano
nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são
palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores,
gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano
tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo,
é sensível às coisas que o seu software produz. Pois
não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música
e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica
excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios,
(o hardware), tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca
e então se comover. Imagine mais, que a beleza é tão
grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu
hardware não suportou.
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições
de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem
à risca, ‘saúde mental’ até o fim dos
seus dias.”
RL: Gosto dessa analogia de que
somos parecidos com computadores, geralmente também lanço
mão dela. Também, é muito coerente a sua idéia
de ser necessária uma interação entre o software
e o hardware. Agora, trazendo essa sua analogia para o meu caso particular.
Pelo que entendi os memes/pensamentos que, penso eu, me auxiliam a desenvolver
o meu software, na realidade pode, pela sua grandeza, danificar meu hardware
e para evitar arrebentá-lo devo seguir a risca sua receita de “saúde
mental”. Sendo assim, pode me passar a sua receita que vou segui-la
a risca.
RA: “1. Opte por um software
modesto.
2. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para
o hardware.
3. Cuidado com a música... Brahms, Mahler, Wagner, Bach são
especialmente contra-indicados.
4. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há
uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há
livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
5. Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como
eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes,
fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.
6. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do
Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila,
embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você
não perceberá o quão banal ela é. E, em vez
de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará
para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto,
quando chegar tal momento, você já terá se esquecido
de como eles eram."
RL: O “amigo” só
pode estar querendo caçoar de mim, com essa receita. Prefiro mil
vezes ser louco, ter o mal de Alzheimer na quarta fase (terminal) e até
ser queimado na terra do “anjão” chefe caído
do que seguir essa sua receita. Aliás, esse último castigo
não tem perigo de se concretizar. Pois, a Lucinha prometeu rezar
por mim, pelos meus e ela ainda diz que posso ter o privilégio
de encontrá-la lá por cima (no céu dela).
É........mas, agora fiquei pensando........será que às
ideias de JK, que sugerem a necessidade de deletarmos diariamente os memes/pensamentos
que fortalecem o ego, estão prejudicando minha memória e/ou
minha saúde mental?
Do sanatório em “Berlândia”:
– Socorro Cleómenes.....TÔ DOIDO!!! TÔ DOIDO!!!
TÔ DOIDO!!!
Roberto Lira
OBS.: As manifestações
de RA foram retiradas do email repassado pela amiga Ana Luna, cujo título
é “Saúde Mental”, de autoria do Rubens Alves.
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