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COLUNA "
ROBERTO LIRA |
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Ontem fui com minha esposa Kayo ao casamento da filha de um casal amigo. Marlos e Graça, também convidados, certamente estariam lá se não fossem os últimos acontecimentos. Ao chegar ao local da cerimônia, encontrei um grupo de amigos, estudantes da Fundação Logosófica e, como não podia deixar de ser, conversamos inicialmente sobre a morte do nosso amigo. Os ensinamentos logosóficos tratam a vida e a morte de forma bem diferente que o saber comum.A morte, por exemplo,não desperta nesses estudantes sentimentos de tristeza e de saudade.”, mas ela não é tratada de forma lastimosa, como parte da vida é tratada com naturalidade. Conversando, lembrei a um desses nossos amigos a paródia que ele em algumas oportunidades manifestava: “A vida é como uma tubulação, onde todos nós sabemos o dia que entramos mas não sabemos o dia que sairemos”. Em seguida, passamos a assistir a cerimônia e ao final desta fomos fazer algo que o Marlos e a Graça, nos últimos tempos, tinham colocado dentro da suas vidas, dançar e tomar uns “goles” nos finais de semana. Bem, mas o segundo impulso para escrever não é sobre a festa acima comentada e sim sobre minhas *compreensões sobre viver e morrer*. FOCO, ROBERTO, FOCO. Comecei, recordando das primeiras leituras sobre o assunto, das fontes que visitei para ir consolidando os conceitos sobre o tema e, finalmente, refletir sobre a compreensão que tenho no momento. No final de 1977, morava em Santos-SP quando as circunstâncias da vida me levaram a voltar a residir em Recife. Nesse retorno, o destino me colocou novamente para morar no mesmo prédio que o Marlos, na praia de Piedade, Jaboatão-PE (No final da década de sessenta, morávamos também no mesmo prédio. Eu em um apartamento com João Nelson e o Marlos em outro com o Zé Tenório). O Marlos era, naqueles tempos, como diz Luiz Clério, “espírita convicto e praticante” e como tal, me motivou a entrar na seara espírita. Foi aí que comecei a me interessar pela literatura da área espírita e filosófica. Na época, comecei a devorar todos os livros espíritas que encontrava. Primeiro os que o Marlos me emprestou, depois, ia para as livrarias e passava o dia lendo, lá mesmo, já que estava desempregado e não tinha dinheiro para adquiri-los. Li tudo que encontrava na área espiritista e/ou mediúnica: Chico Xavier, Alan Kardec, Divaldo Franco e Ramatís entre outros. Nos livros desse último, encontrei alguma referência sobre a literatura Teosófica. Esta me abriu novas janelas. Passei a frequentar a Fundação Teosófica do Recife e, desta feita, foi a minha vez de influenciar o Marlos para conhecer a Teosofia. Nessa época já trabalhando, a grana que me sobrava era para comprar livros teosóficos. O que eu não comprava o Marlos comprava e repassava para eu ler. Na literatura Teosófica, encontrei referências ao filósofo indiano Jidu Krishnamurti. Foi pelos ensinamentos desse cara que resolvi jogar os remos fora e deixar o barco andar no mar da sua sabedoria. Pesquisando sobre os escritos de Krishnamurti, encontrei um discurso que ele fez, na reunião de Ommen em 1929, na Holanda, se desvinculando do movimento teosófico, onde entre outras afirmações ela declara: *"Afirmo que a verdade é uma terra sem caminhos",* disse ele nesse dia, *"e ninguém pode chegar a ela através de uma religião, uma seita ou de uma organização.** A verdade não pode ser trazida para o vale, por maior que seja o esforço. Imagino que vocês formarão outras ordens como essa que estou dissolvendo hoje. Isso será, mais uma espécie de servidão, de armadilha que vai prendê-los ao medo. (...),Não quero seguidores, - porque quem segue alguma coisa ou alguém, está longe da verdade ( ... ) Precisamos ficar livres de todos os temores, do medo da religião, da salvação, da chamada espiritualidade, do medo de amar, do temor da morte, do pavor da própria vida.”* *(grifo nosso). *Nesse momento, compreendi que estava diante de uma verdade que calava fundo no meu interior. Comecei a abandonar, refletidamente, os conceitos que até então tinha incorporado. Também foi nessa época que me transferi para Uberlândia, começava uma nova vida. Após algum tempo em Uberlândia, convivendo internamente apenas com os ensinamentos do Krishnamurti, não encontrava ninguém para dividir minhas inquietudes espirituais. Depois de algum tempo, através dos jogos de tênis que realizava no Praia Clube de Uberlândia, tornei-me amigo da família da jovem do casamento acima mencionado. A mãe dessa jovem era estudante de Logosofia e foi com ela, quando terminava meus jogos com seu marido, que passei a dividir as referidas inquietudes. Eu fazia difusão dos ensinamentos do Krishnamurti para ela e ela, por sua vez, fazia me a difusão dos ensinamentos do Gonzáles Pecotche. Muitos conceitos logosóficos eram coincidentes com aqueles adquiridos ao longo da minha trajetória de buscador. Após algum tempo, resolvi aceitar o convite dela para fazer um curso de preparação para estudar Logosofia. Tornei-me, então, discípulo do * Maestro* Carlos Bernardo González Pecotche* *e, como tal, fui adquirindo novos conceitos sobre a vida, sobre o processo de evolução consciente que a Logosofia promulga. Penso que estes ensinamentos me tornaram mais forte para encarar a vida e, porque não, também para compreender a morte. Depois de alguns anos estudando para realizar um processo evolutivo, voltei a ler novamente alguns ensinamentos do Krishamurti. E o que acontece? Me deparo, novamente, com o discurso de Ommen em 1929. Dessa vez, ele bateu ainda mais forte no meu interno. Aqui, abro um parêntese: penso que todo homem que tem inquietude, que não se isenta de conhecer pontos de vista diferente dos seus, deveria ler esse discurso na íntegra, só por curiosidade e fazer com ele o que o próprio Krishnamurti ensina. Se o que estou falando lhe serve leve com você, se não, esqueça. Como mencionado, a leitura bateu forte mesmo, dentro de mim. Após muitas e muitas reflexões solicitei meu afastamento da Fundação Logosófica, onde mantenho muitos amigos e respeito pelos seus ensinamentos. Mas a decisão estava tomada, resolvi assumir meu processo sozinho. Caminhar sem vínculos com Instituições, por mais merecedoras que elas sejam desse vínculo, enfrentar a vida e, também a morte, com a bagagem que adquiri e mantive em todos estes anos. Ah! Já ia me esquecendo. Além de ter influenciado meu amigo Marlos a ir para o movimento Teosófico, também, fiz difusão para ele e para Graça ingressarem na Fundação Logosófica, onde permanecem até hoje, ou melhor, ela permanece. Bem, no início me propus não só recordar minha trajetória sobre o aprendizado sobre a vida e a morte, mas, também, refletir sobre a compreensão que tenho no momento sobre o assunto. A dificuldade que sinto em escrever é grande, não sei se o cérebro ou a mente, ou ambos, está ou estão cansado(s). Por isso, vou registrar, ou melhor, transcrever alguns parágrafos de um livro do Krishnamurti (*O Verdadeiro Objetivo da Vida, *Ed. Cultrix*),* que exprimem sinteticamente, melhor do que eu, o que penso sobre a vida e a morte. ** *“Que é a morte? A morte é uma coisa comum a todos nós. Todos acabaremos assim. Que é que chamamos de vida ? Que é que chamamos de morte ? Esse é realmente um problema complexo. Se pudermos descobrir, se pudermos compreender o que é viver, então talvez possamos compreender a morte. * *Quando perdemos alguém que amamos, sentimos grande pesar, sentimos solidão; portanto, dizemos que a morte nada tem a ver com a vida. Separamos a morte da vida. Mas estará a morte separada da vida? Não é a vida um processo de morte? * *Para a maioria, viver significa o quê? Significa acumular, escolher, sofrer, rir. E, no fundo disso tudo, por trás de todo prazer e dor, está o medo - o medo de chegar ao fim, o medo do que vai acontecer amanhã, o medo de ser sem nome e sem fama, sem propriedade e sem posição, todas essas coisas que desejamos que continuem. Mas a morte é inevitável; então dizemos: 'O que acontece após a morte?. * *Ora, o que é que termina com a morte? A vida? O que é vida? Será a vida simplesmente um processo de inspirar o ar e de expirá-lo? Comer, odiar, amar, adquirir, possuir, comparar, ser invejoso - isto é o que a maioria das pessoas conhece como vida. Para a maioria de nós a vida é sofrimento, é uma constante batalha de dor e prazer; esperança e decepção. E não pode isso chegar a um fim? Não deveríamos acaso morrer para tudo isso ? No outono, com a chegada do frio, as folhas caem das árvores e reaparecem na primavera. Da mesma forma, não deveríamos morrer para tudo o que aconteceu ontem, para todas as esperanças acumuladas, para todo o sucesso que conquistamos? Não deveríamos morrer para tudo isso e tornar a viver amanhã, de forma que, como uma nova folha, sejamos viçosos, ternos e sensíveis? Para uma pessoa que está constantemente morrendo, não existe morte. Mas o homem que diz: 'Eu sou alguém e preciso continuar' – para esse tal, sempre há morte e sempre há dor; um homem assim não conhece o amor.”* *O impulso não pulsa mais*. *Roberto J. T. Lira* *02/08/2009* |
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